Cultura
Infelizes
para sempre
O filme Foi Apenas
um Sonho e a série Mad Men
reveem as frustrações
da primeira geração de
americanos que enriqueceu em massa e
foi morar
no subúrbio. A série vence por nocaute

Isabela
Boscov
Divulgação
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AMOR E ÓDIO
DiCaprio e Kate,
como o aturdido casal de Foi Apenas um Sonho:
uma vida medíocre faz ruir até um
casamento iniciado com paixão
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AS
INDICAÇÕES
Ator coadjuvante
Michael Shannon
Direção
de arte
Figurino |
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Um urbanista diria que aqueles
aprazíveis subúrbios americanos são uma
anomalia: agremiações de famílias de
profissão, renda e origem iguais, sem a variedade nem
a fricção das cidades "naturais".
Já a ficção americana enxerga neles algo
mais o lugar em que os casamentos são estéreis
ou rancorosos, em que tudo o que não é igual
é tolhido, em que a vida se desdobra sem propósito,
a mediocridade reina e o consumo é deus. O fenômeno
dos subúrbios (cujo equivalente, no Brasil, são
os condomínios fechados) já conta mais de meio
século, mas essa sua imagem continua palpitante na
ficção. É ela que está no centro
de Foi Apenas um Sonho (Revolutionary Road,
Estados Unidos, 2008), que estreia nesta sexta-feira no país
e é a adaptação de um romance de Richard
Yates que, publicado em 1961, constitui uma espécie
de marco zero da dramaturgia do subúrbio. E é
parte essencial também da série Mad Men,
cuja segunda temporada começa a ser exibida no dia
7 pelo canal HBO. Se o ponto de partida é semelhante,
porém, o saldo final desses dois trabalhos não
poderia ser mais contrastante. (Para ir adiantando: Mad
Men ganha por nocaute.)
Estrelado
por Leonardo DiCaprio e Kate Winslet, Foi Apenas um Sonho trata de Frank
e April Wheeler, que se conhecem na boêmia da Nova York dos anos 50, apaixonam-se
e então se casam, porque ela engravidou, e vão morar no subúrbio.
April tentou ser atriz, mas falhou. Cuida então da casa e das crianças.
Frank, que nunca chegou a descobrir qual seria sua suposta vocação
criativa, trabalha sem entusiasmo em uma empresa de equipamentos para escritório.
Quando estão juntos, eles espezinham um ao outro, às vezes com violência
ou, quando estão de bem, reafirmam mutuamente quanto são
superiores a essa vidinha. A questão é que April de fato detesta
sua rotina (e talvez nem mesmo ame o marido), enquanto Frank posa de inconformista
apenas para se manter interessante aos olhos da mulher. Esse equilíbrio
tênue, então, desanda: April decide que eles devem se mudar para
Paris, onde ela vai sustentar a família e ele vai "se descobrir".
Essa é uma das boas cenas de DiCaprio. Frank concorda com a proposta para
provar que é um espírito livre, mas no fundo do seu olhar há
pânico. Ele suspeita que não tem nada dentro de si a descobrir e,
ademais, gosta da sua vida dos filhos, da casa confortável, dos
vizinhos, da mulher bonita e meio exótica para aquele cenário. Começa
a gostar até do emprego, quando, por criancice já que vai
se demitir , propõe uma ideia atrevida, mas que cai no gosto da diretoria.
Esse é, também, um dos bons momentos do filme, porque é um
dos poucos em que o subtexto de Richard Yates sobrevive à adaptação
do diretor Sam Mendes, de Beleza Americana (e marido de Kate Winslet).
Yates de fato pinta esse estilo de vida como de uma esterilidade irremediável.
Só que sugere, nas nuances, que Frank e April culpam essa vida pela mediocridade
que é deles, e que eles levaram consigo para o subúrbio
uma distinção sutil que se perde na adaptação de Mendes,
com seu pessimismo vendido a granel, sem muita atenção para as forças
que estavam se insinuando na sociedade americana. Tudo soa falso. Não por
acaso, o filme conseguiu uma única indicação relevante ao
Oscar: a de coadjuvante para o grande Michael Shannon, que interpreta com brutalidade
virtuosística um homem que, em tratamento para um desequilíbrio
mental, diz as coisas que os outros tentam reprimir.
Divulgação
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PERFEIÇÃO
INATINGÍVEL O elenco de Mad
Men: nem as pessoas que manufaturam o sonho de felicidade conseguem vivê-lo |
As motivações que Foi Apenas um Sonho atropela são
dramatizadas com uma inteligência e uma humanidade não raro devastadoras
em Mad Men. A série gira em torno dos executivos de uma agência
de publicidade da Madison Avenue no momento em que essa categoria se tornava sinônimo
de arrojo a mesma virada dos anos 50 para os 60 retratada no filme. Gira,
portanto, em torno das pessoas que estavam manufaturando e vendendo o sonho de
felicidade que se tornara a grande força motriz dos Estados Unidos do pós-guerra.
Don Draper (o excepcional Jon Hamm) é o diretor de criação
de uma dessas agências e dono de uma vida invejável: é casado
com a perfeita Betty (January Jones, tão bonita que se demora a perceber
ser também uma atriz de minúcias soberbas) e tem dois filhos lindos,
uma casa com empregada no subúrbio, quantas amantes quiser em Manhattan
e muito dinheiro. Don e Betty, porém, são infelizes, tanto em seu
íntimo quanto na vida a dois. São infelizes como os seres humanos
habitualmente o são. E mais ainda porque, como a primeira geração
que enriqueceu em massa e foi persuadida de que a felicidade é um direito
quase uma obrigação que se deve reclamar, se frustram
e se acham diminuídos por não saber senti-la.
Para apreciar a contento a nova
temporada de Mad Men, é preciso dar um jeito de
assistir antes às reprises da primeira (que não
foi lançada em DVD aqui). O que se ganha com o esforço
é um exemplo da criatividade superlativa com que hoje
a TV americana desbanca o cinema: quanto mais o espectador se
deleita com a decoração e os figurinos belíssimos,
os penteados impecáveis, o emocionante (sim, emocionante)
jogo político do dia-a-dia no escritório e em
casa, melhor ele percebe como esses personagens se deixaram
aprisionar nessa ilusão de felicidade e melhor
pressente também por que eles não entendem que
o sentimento os ilude a cada tentativa. Em Mad Men, caminha-se
sobre um chão que só aparenta ser firme: sob ele,
as placas tectônicas das grandes forças políticas,
sociais e individuais da segunda metade do século XX
já estão se chocando, e provocando mudanças
psicológicas violentas que nenhuma dessas pessoas sabe
ainda articular. Cabe a uma série de televisão,
assim, ir ao centro emocional da era do subúrbio: Mad
Men compreende que a insatisfação já
era algo sentido, só não havia ainda um vocabulário
para ela. Não que o programa precise de palavras. Tudo
está dito nas imagens e nas nuances.