Autorretrato
Guilherme
Marchi
O paulista Guilherme
Marchi, de 26 anos, tornou-se o grande astro do milionário circuito americano
de rodeios. No fim de 2008, ele venceu em Las Vegas o Professional Bull Riders,
o maior torneio do gênero. A conquista lhe rendeu, além do título
de o melhor peão do mundo, um cheque de 1 milhão de dólares.
Marchi, que vive no estado americano do Texas, falou à repórter
Mariana Amaro.
O que é preciso
para se tornar o melhor peão do mundo?
Determinação,
muito treino e um pouco de sorte, né? Mas nós, brasileiros, temos
jeito para a coisa. Sou o terceiro a ganhar o campeonato mundial. Não que
todos os brasileiros montem do mesmo jeito. Peão é como jogador
de futebol: cada um tem um estilo. No futebol, tem quem corre e quem dribla. No
rodeio, tem quem usa mais a força e quem usa mais a técnica. Tento
combinar as duas coisas.
Por
que o senhor só disputa provas nos Estados Unidos?
Porque o rodeio
é muito mais valorizado. O campeão ganha 1 milhão de dólares.
No Brasil, o vencedor das provas mais importantes recebe, no máximo, uns
30 000 reais. Estou em Dallas há cinco anos e nem penso em voltar. Quero
que meus filhos cresçam aqui. Manuela, de 4 anos, já monta a cavalo.
Se Deus quiser, João Gabriel, de 6 meses, vai ser peão igual ao
pai.
Como o senhor ingressou
no circuito americano?
Em 2001, quando eu tinha 18 anos, uma comissão
da liga de peões dos Estados Unidos veio ao Brasil e me viu montar. Aí,
eles se interessaram por mim e me abriram muitas portas. Três anos depois,
disputei o cam-peonato mundial em Dallas, e já fiquei por lá. Ser
peão era meu sonho de criança. Quando era pequeno, já montava
bezerros no sítio da minha avó. Queria imitar meu irmão mais
velho, que virou peão profissional com 16 anos.
Como
é a vida de peão nos Estados Unidos?
Posso falar da minha.
Já ganhei 3 milhões de dólares nos rodeios e sou um homem
realizado. Tenho meu rancho, crio cavalos e uns bois de rodeio. Para diversificar
os investimentos, abri um restaurante. Depois, descobri que esse é um negócio
que dá um trabalho danado. Tem coisa para fazer todos os dias. Ainda bem
que quem toma conta é a minha mulher.
Como
o senhor se prepara para entrar na arena?
Na hora H, eu peço proteção
a Nossa Senhora Aparecida, de quem sou devoto. E ela me protege mesmo. Até
hoje, nunca quebrei nenhum osso. Nunca fui parar no hospital por causa de um rodeio.
O máximo que já me aconteceu foi uma luxação no pulso.
Isso é muito raro. O Adriano Moraes, que é o meu ídolo entre
os peões, já quebrou ossos 28 vezes.
Entre
os peões, o senhor é chamado de Hollywood. Por quê?
Foi
um locutor de rodeio que me pôs esse apelido. Dizia que, se eu não
fosse peão, seria artista de cinema, porque sou bonitinho. No Brasil, tenho
outro apelido. É Sabonete. Inventaram quando eu era moleque e pegou, mas,
até hoje, não sei de onde veio.
As
associações de defesa dos animais dizem que os touros de rodeio
sofrem maus-tratos. É verdade?
Claro que tem quem maltrate os animais,
mas isso não é só no mundo dos rodeios. Em geral, eles são
muito bem tratados. O dono do touro que foi campeão do mundo no ano passado
ganhou 250 000 dólares. Você acha que ele vai machucar esse bicho?
Os animais sofrem é nas touradas. Os espanhóis espetam e matam os
touros. É tradição, mas é uma baita crueldade.