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Edição 2097

28 de janeiro de 2009
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Internacional
Humildade e realismo

Em contraste agudo com o fausto de sua posse e a arrogância
do governo anterior, Obama fala do "medo do declínio" dos
EUA, manda uma mensagem de paz e tolerância ao mundo
e sepulta a era Bush


André Petry, de Washington

Charles Dharapak/AP

NADA COMO ANTES
Na Casa Branca, Obama com militares aposentados: ordem para acabar com as prisões secretas e a tortura


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Num evento de dimensão planetária, o primeiro presidente-celebridade da política mundial assumiu o comando da maior potência da história da humanidade – eis a sucessão de superlativos com que se pode resumir a posse de Barack Hussein Obama, na terça-feira passada, em Washington. Tudo esteve perfeito para uma solenidade triunfal. O cenário era imperial, com as bandeiras americanas desfraldadas ao longo das delgadas colunas coríntias e o palco esparramado sob a vigilância da imponente cúpula do Capitólio. Soaram os clarins, rufaram os tambores e, diante de 2 milhões de pessoas, surgiu Barack Obama – e começou um surpreendente contraste. Obama prestou juramento, tropeçou nas palavras e, durante dezoito minutos, sem nenhum fausto e nenhuma pompa, fez um discurso admirável pela humildade e pelo realismo. Disse que "o mundo mudou, e nós temos de mudar com ele", falou do "medo persistente de que o declínio dos Estados Unidos seja inevitável", sublinhou a gravidade da crise econômica e, claro, fez o que o planeta vinha esperando com ansiedade: anunciou o fim das políticas de George W. Bush, sentado a poucos metros dali.

Desde a posse de Franklin Roosevelt, em 1933, um presidente não assumia rompendo tão abertamente com o antecessor. Seguindo a melhor etiqueta política, Obama agradeceu a Bush pela "generosidade e cooperação" na transição e não mencionou seu nome nas críticas, mas deixou evidente o tom de ruptura. Denunciou que o país não se preparara para "uma nova era", disse que era "falsa a escolha" entre a segurança contra o terrorismo e os ideais de liberdade e respeito aos direitos humanos e pediu o começo do "trabalho de reconstruir a América". Dirigindo-se à audiência mundial, mandou uma mensagem de paz e tolerância, incluindo "o mundo islâmico". Não levantou a massa em nenhum instante, não se empenhou em criar uma frase lapidar para esculpir em mármore, mas deixou seu recado. Nos primeiros dias de trabalho, aí, sim, empenhou-se para instalar seu novo tom na Casa Branca. Mandou fechar as prisões secretas da CIA, entre elas Guantánamo, anunciou o fim da tortura e ordenou a divulgação de informações que o governo anterior mantinha sob sigilo. "Já tivemos segredos demais nesta cidade", disse. E reafirmou que seu governo se guiará "pela transparência e pelas leis". Nada mais anti-Bush.

Pyasuyoshi Chiba/AFP

COISA DE CINEMA
Num dos bairros mais pobres de Nairóbi, no Quênia, o povo assiste à posse de Obama na TV: o presidente-celebridade num evento planetário

Saiu tudo bonito e harmônico, o mundo inteiro viu e aplaudiu a posse e sua equipe tem sido elogiada. Entre os principais auxiliares, terá um Nobel de Física de origem asiática (Steven Chu, de Energia), uma solteirona que escalou o Kilimanjaro (Janet Napolitano, de Segurança Interna), um ex-jogador de basquete profissional na Austrália (Arne Duncan, de Educação, 1,95 de altura) e um ministro casado com uma das mais celebradas lobistas de Washington (Tom Daschle, da Saúde), além do ineditismo de uma ex-primeira-dama (Hillary Clinton, secretária de Estado). Tudo somado, ficou a impressão de que, pela primeira vez em anos, os Estados Unidos e o resto do planeta entraram em sintonia: todos queriam Obama. A sintonia, porém, é um pouco mais precária do que parece. Levantando-se a primeira camada dessa comunhão universal, percebe-se que para o mundo a singularidade de Obama está em ser o primeiro presidente negro dos Estados Unidos e um político contrário ao bushismo. Nos Estados Unidos, ele não é apenas isso e, se fosse, é possível que não tivesse sido eleito (veja o quadro).

O que mais provocou a simpatia mundial por Obama, conforme se lê nas pesquisas feitas em dezenas de países, é um conjunto de características para as quais Obama jamais chamou atenção porque espanta o voto do americano médio. A saber: sua negritude, sua urbanidade, seu traquejo político, sua formação acadêmica de elite. As razões: os negros são minoria no eleitorado e o americano comum tende a valorizar mais o político com apego ao campo do que à cidade, tem aversão à política tradicional e desconfia que a elite formada nas melhores universidades do país vive numa fantasia descolada da "América real". Vitorioso nas urnas mais como fenômeno social do que como estrela política, Obama teve a imensa vantagem de conjugar o que há de mais antigo na política com o que existe de mais moderno: carisma e internet. A liderança carismática apareceu "em todas as épocas e em todos os lugares", conforme ensina seu melhor tradutor, o sociólogo alemão Max Weber (1864-1920), mas jamais se sustentou a si mesma. Ou seja: líder carismático é bom de largada, mas ruim de chegada.

Obama, como qualquer líder carismático num regime democrático hoje em dia, não tem como governar confiando apenas em seu magnetismo pessoal e seu poder de galvanizar a atenção e mesmerizar as massas. Será preciso abrir a loja todos os dias de manhã e vender. Para isso, contou na campanha, e continua contando no governo, com o uso inovador que tem feito da internet, por meio da qual formou uma rede de militantes e contribuintes que pôde, e ainda pode, ser acionada a qualquer hora, em qualquer lugar e a custo zero. O alcance disso é tal que pode mudar o jeito de fazer política e de governar nos EUA e no mundo. Na campanha, Obama colocava vídeos no YouTube para conversar com seu público. Seu porta-voz, Robert Gibbs, que agora fala com jornalistas do púlpito na Casa Branca, respondia às questões da imprensa por meio de um site. Antes de assumir, Obama disse que planejava seguir colocando vídeos no YouTube com economistas falando sobre a crise para o americano entender o que se passa.

Na quinta-feira passada, em seu segundo dia de Casa Branca, Obama mandou o primeiro e-mail como presidente para sua rede cibernética. O remetente era "presidente Barack Obama". No assunto, "obrigado". No corpo do e-mail, Obama agradece a presença em sua posse, afirmando que segue contando com o destinatário para "manter vivo o espírito de unidade", e oferece um endereço eletrônico – www.pic2009.org/whitehouse – no qual é possível conhecer seus "planos para mudar a América" e saber como participar do "trabalho que temos pela frente". É o seu diálogo direto com as massas já como presidente, sem utilizar cadeia nacional de rádio ou televisão, sem falar em programa presidencial – e sem despertar nos adversários republicanos a suspeita de que pode estar fazendo uso abusivo do cargo. Em regimes instáveis, o carisma associado à tecnologia pode ser um perigo, já que dispensa a intermediação da imprensa, do Congresso, das instituições. Nos Estados Unidos, pela solidez de suas instituições, a ascensão de Obama, o negro cibernético carismático que se tornou o homem mais poderoso do mundo, tem sido vista com um misto de curiosidade e de prenúncio de uma nova era no modo de exercer o poder. Que seja, como disse Obama no discurso, para que "todos possam buscar o máximo de felicidade".

 
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