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Especial
O
Brasil entre os
piores do mundo
O
ambiente para abrir, tocar e fechar empresas no
Brasil é um dos mais sufocantes entre mais de uma
centena de países pesquisados pelo Banco Mundial.
Essa cultura antinegócios constitui um dos maiores
entraves ao crescimento econômico do país

Eurípedes
Alcântara e Chrystiane Silva
O primeiro
estudo de abrangência planetária feito pelo Banco Mundial
sobre as condições reais de vida das empresas comprova
que o ambiente para negócios no Brasil é inóspito
mesmo comparado ao de nações mais pobres e atrasadas.
À luz das principais conclusões da pesquisa feita
em 133 países, a existência de vida empresarial no
Brasil parece quase um milagre. Os pesquisadores do Banco Mundial
centraram seu instrumental no estudo do conjunto de leis, regulamentos
e outras ramificações burocráticas que formam
a base sobre a qual as empresas nascem, vivem e, eventualmente,
morrem. Esse ciclo é da própria natureza do capitalismo.
A ação regulatória dos governos sobre esse
ciclo é crucial para que ele se processe de maneira saudável
e equilibrada. Essa mesma ação pode também
envenená-lo e até asfixiá-lo. No Brasil, chegou-se
à fase de envenenamento. O estudo Fazendo Negócios
2004 mostra que a atividade empresarial no país enfrenta
uma combinação de fatores institucionais adversos
quase sem paralelo no mundo: Justiça lenta, leis trabalhistas
retrógradas, burocracia dantesca e desestimuladora para abrir
uma empresa e até para conseguir fechá-la. "Em seu
conjunto, o número de regras e complicações
no Brasil supera o da maioria dos países da pesquisa", disse
a VEJA Simeon Djankov, coordenador do estudo do Banco Mundial.
Os
mais de 2.000 pesquisadores que participaram
do estudo produziram o primeiro atlas da vida empresarial no mundo.
O que se vê nele são nações bem menos
aparelhadas que o Brasil se movendo de maneira mais ágil
e inteligente rumo à erradicação dos entraves
institucionais ao crescimento. A imagem negativa do Brasil que aparece
na pesquisa contrasta fortemente com a pomposa retórica oficial
brasileira. Em seus discursos no exterior, o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva fala em levar os projetos sociais de seu governo para
toda a América Latina e sugere a criação de
impostos internacionais para financiar programas de erradicação
da fome. Sua política externa se coloca o delirante objetivo
de "redesenhar a geografia do comércio e da política
internacionais". Enfim, o Brasil oferece idéias de como o
mundo deveria funcionar. A leitura cuidadosa do documento do Banco
Mundial e o exame comparativo de suas tabelas indicam que seria
mais apropriado, antes de tentar reformar o mundo, começar
pela limpeza da selva burocrática brasileira. O desafio é
desfazer nós burocráticos e isso é relativamente
simples. "O Brasil poderia simplificar, por exemplo, o processo
de abertura de empresas com uma medida administrativa que nem precisaria
passar pelo Congresso", explica Simeon Djankov.
O
ambiente econômico em seu conjunto é muito negativo
no Brasil, mesmo sem considerar os entraves burocráticos.
Para rolar sua dívida, o governo suga 78% de todo o crédito
privado dos bancos. O pouco que resta é emprestado a empresários
e consumidores ao custo do juro real mais alto do mundo. Completam
o quadro de paralisia o fato de o Brasil ter carga fiscal de quase
40% do produto interno bruto (PIB) e uma taxa de poupança
interna de apenas 18%, quando o mínimo para garantir o crescimento
sustentado é 25%. Essas distorções macroeconômicas
são difíceis de ser debeladas. Mesmo mantendo a estabilidade
financeira como vem fazendo com competência o governo Lula,
os resultados na economia real levam tempo para ser sentidos. Os
investimentos em educação e saúde, outro alicerce
do progresso, também são de lenta maturação.
No front da descomplicação burocrática, no
entanto, a colheita é quase imediata. Mas as pessoas ainda
não se conscientizaram do poder dessa via modernizadora.
"O grau de sensibilidade do governo Lula para essas questões
parece ser alto apenas no eixo do Ministério da Fazenda e
do Banco Central", diz o ex-ministro Mailson da Nóbrega,
consultor da Tendências. Traduzindo: nas outras três
dezenas de ministérios, a turma ainda não acordou.
A
reforma do Judiciário que se arrasta no Congresso tem virtudes,
mas não ataca o foco central da lentidão dos processos,
que é a burocracia responsável por 70% do tempo
de tramitação de um processo. O trabalho do Banco
Mundial oferece uma profusão de bons exemplos de países
de todos os tipos e relata sua luta pela racionalização
da vida econômica e pela descomplicação da atividade
empresarial como a forma mais tangível e mais viável
no curto prazo de aumentar o número de pessoas com
emprego e, em conseqüência, produzir riqueza nos países.
"É quase inexplicável que, tendo vencido a ditadura
militar e até a inflação, continuemos prisioneiros
da ditadura do carimbo", diz Horácio Piva, presidente da
Federação das Indústrias do Estado de São
Paulo (Fiesp).
Abrir empresas é uma luta
Para
um brasileiro disposto a lançar-se em negócio próprio,
a burocracia é massacrante. Primeiro, ele descobre que precisa
de um advogado ou de um contador para redigir o chamado "contrato
social" da empresa. Isso feito, saberá que precisará
ter um endereço fixo onde a companhia funcionará.
Depois, é preciso registrar o contrato na junta comercial,
requerer o Cadastro Nacional de Pessoa Jurídica, registrar
a companhia como contribuinte do INSS. Se houver empregados, deve-se
registrá-los no FGTS. Em seguida, comunicar as autoridades
municipais e esperar que a sede da empresa seja inspecionada e receba
alvará de funcionamento, ato que provoca aquela romaria de
fiscais entrando e saindo da futura sede da empresa e implicando
com os mais irrelevantes detalhes. Enquanto isso, o administrador
precisará comprovar que não tem antecedentes criminais
e que está em acordo com todas as obrigações
legais. A companhia nascente ainda terá de ser registrada
nos órgãos de classe de seu ramo de atividade (advocacia,
veterinária, decoração...) e identificar-se
na Secretaria da Fazenda para efeito de cobrança do imposto
sobre circulação de mercadorias e serviços
(ICMS).
O
Brasil é o sexto pior país do mundo em complexidade
para dar esse primeiro passo fundamental da economia de mercado.
São cerca de quinze etapas que vão consumir, em média,
152 dias. Nesse quesito só estamos melhores que países
quase inviáveis, como o Haiti, a República Democrática
do Congo e mais três outros de herança colonial pesada
e história recente conturbada, como Moçambique, Indonésia
e Laos. Em Moscou, que saiu do comunismo há pouco mais de
uma década, pode-se abrir uma empresa privada em 29 dias,
um quinto do tempo gasto no Brasil. Na Austrália, todo o
processo é feito via internet, e de um dia para o outro se
abre um negócio. A simplificação do processo
de abertura de empresas é um passo tão óbvio
para o desenvolvimento que talvez dispensasse até provas
numéricas. Mas elas existem. O estudo do Banco Mundial mostra
que o grau de corrupção aumenta no mesmo passo que
a burocracia e cai na mesma proporção. Em comparação
com os lugares que simplificaram o processo, os países onde
o número de etapas para abrir uma empresa é de cinco
ou mais costumam ter o dobro da população ativa na
informalidade. Além de todos os problemas sociais que causa,
a informalidade é um dos principais entraves ao aumento da
produtividade. Sem ganhos de produtividade, não existem surtos
de crescimento sustentável. No Brasil, a informalidade atinge
quase 50 milhões de brasileiros. No Chile e na Argentina,
a informalidade é a metade da brasileira.
Fechar empresas é um calvário
Em
um país como o Brasil, em que metade das novas empresas fecha
as portas antes de completar um ano de vida, seria mais apropriado
que houvesse uma burocracia simplificada de desativação
dos negócios. Seria. O pobre empreendedor brasileiro, no
entanto, vai levar dez anos até conseguir livrar-se do fardo
de um fracasso inicial. No mesmo período de tempo que o brasileiro
perde indo a repartições, pagando taxas e lidando
com despachantes para fechar seu negócio malsucedido, um
empreendedor irlandês, por exemplo, já teria tido tempo
para abrir e, se fosse o caso, fechar outros 25 negócios.
Nesse quesito, o empreendedor brasileiro só está em
situação melhor que a de seu colega da Índia,
um país onde a cultura e a religião criaram a concepção
de que tempo algum é longo demais. Na Índia, gastam-se
11,3 anos para fechar um negócio.
"Nos
países de economia avançada, o fracasso em uma empreitada
é apenas o primeiro passo para uma nova tentativa. Processos
rápidos e baratos de fechamento de empresas são a
base da inovação nos segmentos de ponta da economia",
diz o documento do Banco Mundial. A nova Lei de Falências,
aprovada na Câmara e em discussão no Senado, é
uma das poucas referências elogiosas ao Brasil em todas as
194 páginas do trabalho do Banco Mundial. No mais, o país
está muito atrasado. Punição desmesurada aos
falidos era a regra na Antiguidade e na Idade Média. Entre
os romanos, a falência significava a escravidão ou
a morte. O credor escolhia a pena. Na Itália medieval, o
comerciante falido se despia e corria pelas ruas anunciando aos
gritos sua desgraça. Também na Idade Média,
na França, comerciantes falidos usavam um pequeno gorro verde
e podiam ser apedrejados pela população. "Em muitos
países esse processo, embora sem a selvageria antiga, ainda
está em sua infância", diz o documento.
Contratar é um passo arriscado
Com
taxas de desemprego elevadíssimas, de 10,89%, e uma escassez
paralisante de crédito, o Brasil se beneficiaria muito se
tivesse leis de trabalho mais flexíveis. Com isso, haveria
incentivo à contratação. Mas ocorre o contrário.
De acordo com a pesquisa dos 133 países, nossas leis de trabalho
só não são menos engessadas que as do Panamá
e as de Portugal. O efeito de ter leis trabalhistas de má
qualidade como a brasileira são óbvios. Elas parecem
proteger o trabalhador, mas acabam por prejudicá-lo. Como
regra geral, o trabalho do Banco Mundial observou que legislações
retrógradas são danosas em todos os momentos econômicos.
Elas arrefecem o ritmo de criação de empregos nos
picos de expansão da economia. Nos abismos da crise, elas
nada podem fazer para evitar demissões. Finalmente, nas retomadas
impedem a recontratação.
A
legislação trabalhista viabilizou o capitalismo moderno,
protegendo os empregados da brutalidade dos empregadores. A Organização
Internacional do Trabalho (OIT) considera inalienáveis conquistas
dos trabalhadores como o direito de associação, a
demanda salarial coletiva, a eliminação do trabalho
forçado e infantil e a ausência de discriminação
de todos os tipos. O estudo do Banco Mundial relata centenas de
ações que tornaram as leis do trabalho em diversos
países bem mais funcionais sem que se tocasse nas premissas
básicas da OIT. "Para que as leis continuem cumprindo o objetivo
de proteger os empregados, elas precisam ser atualizadas periodicamente.
Caso contrário, passam a ser um ônus para o trabalhador
e um risco para o sistema", diz o documento. Alguns exemplos: o
aumento do custo de demissão de funcionários acaba
forçando para cima as taxas de desemprego. Em países
como o Peru e a Índia, cada 10% de aumento no custo de demissão
de um trabalhador corresponde a um aumento de 11% e 20% respectivamente
nas taxas de desemprego de longo prazo. Simulando o que ocorreria
no Brasil com a adoção súbita de leis trabalhistas
mais flexíveis, os técnicos do Banco Mundial chegaram
à conclusão de que o número de pessoas empregadas
subiria 6 pontos porcentuais em apenas um ano. Isso significaria
a inclusão no mercado de trabalho de cerca de 5 milhões
de pessoas. Metade dos 10 milhões de empregos que Lula prometeu
criar no Brasil durante seu governo.
E a justiça é lenta...
Com
a internacionalização da economia e a busca seletiva
por ambientes mais propícios à atividade empresarial,
passou a ser um fator competitivo decisivo ter uma Justiça
capaz de dar veredictos transparentes e rápidos para as demandas
entre empresas e delas com os governos e os consumidores. A imagem
da Justiça brasileira que emerge do estudo Fazendo Negócios
2004 não é nenhuma surpresa. O Brasil tem a trigésima
Justiça mais lenta do mundo quando se busca sua ajuda para
cobrar uma dívida não paga. Como forma de compensar
essa morosidade, o sistema financeiro acrescenta entre 10% e 30%
ao custo total dos empréstimos que faz no Brasil. Por se
concentrar em quesitos de interesse apenas das empresas, o estudo
do Banco Mundial produziu uma imagem da Justiça brasileira
até um pouco melhor do que aquela que aparece em levantamentos
feitos no Brasil. Um estudo do economista Armando Castelar Pinheiro,
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), estima
que uma melhora radical no desempenho do Judiciário brasileiro
traria um aumento de 13,7% nos investimentos, com repercussão
positiva no nível de emprego.
Estabilidade financeira é só o começo
O
relatório do Banco Mundial é o mais completo até
agora de um tipo de estudo cada vez mais freqüente, aquele
que se centra sobre a microeconomia, o desenrolar da vida real de
empregados, patrões, fornecedores e consumidores, bem como
das regras legais que surgiram para mediar inevitáveis disputas,
tensões, acordos e desacordos entre eles. É uma nova
abordagem, que aparece depois de anos em que se deu prioridade à
macroeconomia, com sua ênfase em questões como dívida
pública, tipos de câmbio e estratégias de controle
da inflação. A razão da mudança de enfoque
é explicada no estudo do Banco Mundial. Segundo o trabalho,
"duas décadas de reformas macroeconômicas na América
Latina não diminuíram o ritmo de crescimento da pobreza".
Segue-se a sugestão de que as razões para os maus
resultados devem ser buscadas agora também na "qualidade
das instituições". A relação entre instituições
sólidas e riqueza é uma proposição que
deu o Prêmio Nobel ao economista americano Douglass North.
O esforço estabilizador e o sacrifício que todos os
brasileiros pagaram, na forma de juros altos e crescimento econômico
medíocre nos últimos anos, fincaram as bases para
as reformas institucionais. Sem a estabilidade, os aprimoramentos
propostos por North e sacramentados pelo Banco Mundial têm
efeito igual a zero. Do ponto de vista de sua viabilidade prática,
a melhoria institucional tem duas vantagens sobre o ajuste financeiro
e a sanidade das contas públicas. Primeiro, as reformas que
ela exige são infinitamente menos dolorosas de ser feitas.
Segundo, a melhoria institucional não tem ideologia. Aprimorar
a Justiça, acabar com a burocracia, flexibilizar as leis
de trabalho ou diminuir o risco dos empréstimos só
com muita má vontade podem ser consideradas bandeiras ideológicas
de qualquer tipo. São bandeiras do bom senso. Só isso.
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OS
OBSTÁCULOS AO CRESCIMENTO
No
documento de 194 páginas intitulado Doing Business
2004 (Fazendo Negócios 2004), o Banco Mundial
classificou 133 países por sua capacidade de
incentivar o crescimento econômico e a geração
de empregos. Os itens pesquisados pertencem ao universo
da chamada microeconomia, que os analistas chamam de
"economia real". Os estudos macroeconômicos colocam
o foco sobre a inflação e as finanças
públicas, as políticas econômicas
e a sustentabilidade da dívida dos governos.
Já o trabalho do Banco Mundial esmiuçou
como as leis e a burocracia dos países interferem
no processo natural de nascimento, vida e morte das
empresas. O Brasil saiu-se muito mal. O estudo mostra
que a legislação e o emaranhado burocrático
brasileiro asfixiam a atividade empresarial, são
um poderoso obstáculo à criação
de empregos, além de incentivo à sonegação
e à corrupção. O trabalho envolveu
mais de 2 000 consultores em todo o mundo. A equipe
brasileira tinha 21 pessoas
BUROCRACIA
PARA ABRIR UMA
EMPRESA
O Brasil tem o sexto pior desempenho da lista. Aqui,
o processo leva, em média, 152 dias. O Brasil
só está melhor do que Moçambique
(153 dias), Indonésia (168 dias), Laos (198 dias),
Haiti (203 dias) e República Democrática
do Congo (215 dias)
BUROCRACIA
PARA FECHAR UMA
EMPRESA
O Brasil é o segundo pior país do mundo
nesse processo, que dura dez anos. Só perdemos
para a Índia, onde se consomem 11,3 anos. Países
do Primeiro Mundo fazem isso, em média, em 1,8
ano
QUALIDADE
DAS LEIS TRABALHISTAS
O Brasil ficou na penúltima colocação
nesse quesito, em que o Banco Mundial classificou os
países pelo grau de adequação da
legislação trabalhista à necessidade
de geração de empregos formais. Só
o Panamá e Portugal têm leis menos flexíveis
FUNCIONAMENTO
DA JUSTIÇA
O Brasil tem a trigésima mais lenta do mundo
quando um credor recorre a ela para fazer valer um contrato
ou receber uma dívida
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Com reportagem de
Leandra Peres e Carlos Rydlewski
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