Edição 1877 . 27 de outubro de 2004

Índice
Stephen Kanitz
Millôr
Diogo Mainardi
Gustavo Franco
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Auto-retrato
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Livros
Um cadáver na festa

O chileno Roberto Bolaño mostra
a cumplicidade entre mediocridade
literária e crime político


Jerônimo Teixeira

EXCLUSIVO ON-LINE
Trecho do livro

O escritor medíocre costuma apreciar a vida literária bem mais do que a literatura propriamente dita. Convescotes literários de qualquer gênero sempre reúnem aspirantes esperançosos de arrancar elogios públicos de algum escritor célebre. É essa qualidade aliciante do mundinho literário que seduz o padre, crítico e poeta Sebastián Urrutia Lacroix, protagonista de Noturno do Chile (tradução de Eduardo Brandão; Companhia das Letras; 120 páginas; 27 reais). Arrastado pelo pecado mortal da vaidade literária, ele acabará se tornando um cúmplice tácito da tortura. Com esse personagem irritante e esquivo, o chileno Roberto Bolaño armou uma inteligente reflexão sobre os limites morais da literatura.

Um dos escritores mais inventivos da literatura latino-americana contemporânea, Bolanõ morreu no ano passado, em Barcelona, vítima de uma doença hepática, aos 50 anos. Noturno do Chile é seu primeiro livro lançado no Brasil. A novela acompanha o delírio do padre Sebastián, que revisa sua vida em uma noite febril. O texto tem apenas dois parágrafos, o primeiro ocupando quase 120 vertiginosas páginas e o segundo compreendendo uma única e devastadora frase final. Ao lado de estranhas figuras fictícias, como o crítico literário Farewell e a misteriosa dupla de empresários Oidem e Oidó, desfilam personagens reais, como os poetas Salvador Reyes e Pablo Neruda – sutilmente ironizados – e o ditador Augusto Pinochet. Alguns fatos políticos são referidos apenas obliquamente, como se o narrador mal tivesse ciência do que acontecia no seu país. No entanto, o padre Sebastián acaba penetrando nos círculos mais altos do poder: é chamado para dar aulas de marxismo a Pinochet e sua junta militar, que desejam conhecer o pensamento do inimigo. O episódio tem um tom deliberadamente farsesco – dá para levar a sério um ditador que recorre a um mestre-escola para aprender os rudimentos do materialismo dialético? Mas também há uma tensão trágica subjacente a toda a narrativa. Sem perceber, Sebastián, em suas aulas, delata uma professora chilena como comunista. Mais adiante, o padre literato será um dos freqüentadores de um salão muito badalado pela intelectualidade de esquerda. Ninguém suspeita que, no porão da casa elegante onde se recitam poemas e se critica o regime, existe uma sala de tortura. Bolaño, que foi preso e depois exilado durante a ditadura de Pinochet, denuncia a má literatura de seus compatriotas como um crime: palavras vazias não matam, mas ocultam o cadáver.

 
 
 
 
topovoltar