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Livros
Um cadáver na festa
O chileno Roberto Bolaño mostra
a cumplicidade entre mediocridade
literária e crime político

Jerônimo Teixeira
O escritor medíocre costuma apreciar
a vida literária bem mais do que a literatura propriamente
dita. Convescotes literários de qualquer gênero sempre
reúnem aspirantes esperançosos de arrancar elogios
públicos de algum escritor célebre. É essa
qualidade aliciante do mundinho literário que seduz o padre,
crítico e poeta Sebastián Urrutia Lacroix, protagonista
de Noturno do Chile (tradução de Eduardo
Brandão; Companhia das Letras; 120 páginas; 27 reais).
Arrastado pelo pecado mortal da vaidade literária, ele acabará
se tornando um cúmplice tácito da tortura. Com esse
personagem irritante e esquivo, o chileno Roberto Bolaño
armou uma inteligente reflexão sobre os limites morais da
literatura.
Um dos escritores mais inventivos da literatura
latino-americana contemporânea, Bolanõ morreu no ano
passado, em Barcelona, vítima de uma doença hepática,
aos 50 anos. Noturno do Chile é seu primeiro livro
lançado no Brasil. A novela acompanha o delírio do
padre Sebastián, que revisa sua vida em uma noite febril.
O texto tem apenas dois parágrafos, o primeiro ocupando quase
120 vertiginosas páginas e o segundo compreendendo uma única
e devastadora frase final. Ao lado de estranhas figuras fictícias,
como o crítico literário Farewell e a misteriosa dupla
de empresários Oidem e Oidó, desfilam personagens
reais, como os poetas Salvador Reyes e Pablo Neruda sutilmente
ironizados e o ditador Augusto Pinochet. Alguns fatos políticos
são referidos apenas obliquamente, como se o narrador mal
tivesse ciência do que acontecia no seu país. No entanto,
o padre Sebastián acaba penetrando nos círculos mais
altos do poder: é chamado para dar aulas de marxismo a Pinochet
e sua junta militar, que desejam conhecer o pensamento do inimigo.
O episódio tem um tom deliberadamente farsesco dá
para levar a sério um ditador que recorre a um mestre-escola
para aprender os rudimentos do materialismo dialético? Mas
também há uma tensão trágica subjacente
a toda a narrativa. Sem perceber, Sebastián, em suas aulas,
delata uma professora chilena como comunista. Mais adiante, o padre
literato será um dos freqüentadores de um salão
muito badalado pela intelectualidade de esquerda. Ninguém
suspeita que, no porão da casa elegante onde se recitam poemas
e se critica o regime, existe uma sala de tortura. Bolaño,
que foi preso e depois exilado durante a ditadura de Pinochet, denuncia
a má literatura de seus compatriotas como um crime: palavras
vazias não matam, mas ocultam o cadáver.
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