Edição 1877 . 27 de outubro de 2004

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Cinema
Contra o relógio

Ethan Hawke e Julie Delpy têm 90
minutos para tirar nove anos de
dúvidas em Antes do Pôr-do-Sol


Isabela Boscov


Fotos divulgação
Julie e Hawke, na continuação: correndo atrás do tempo perdido

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Trailer

Em 1995, o diretor Richard Linklater fez um filme que virou um pequeno manual da vida aos 20 anos – Antes do Amanhecer, no qual o americano Ethan Hawke e a francesa Julie Delpy interpretavam dois estudantes em férias que se conheciam em Viena, apaixonavam-se e, em vez de trocar telefones, combinavam um reencontro na cidade, para dali a seis meses. Antes do Amanhecer terminava ali, no momento da despedida. Menos porque Linklater desejasse deixar o destino dos personagens à mercê do espectador, e mais como sinal do que ele próprio imaginava que o encontro de Jesse e Céline viria a representar – um desses momentos decisivos mas fadados a permanecer em aberto, como uma promessa de coisas que poderiam ter sido e não foram. E é com esse sentimento que, nove anos depois, Jesse e Céline finalmente se reencontram em Antes do Pôr-do-Sol (Before Sunset, Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira no Rio de Janeiro. Jesse, agora um escritor de certo sucesso, está em Paris para lançar seu novo livro, uma recriação sem muitos disfarces daquela noite vienense. Céline aparece de surpresa na livraria onde ele está dando entrevistas e, na hora e meia que resta antes de Jesse embarcar de volta para os Estados Unidos, os dois caminham por Paris e conversam – conversam de fato, e não recitam diálogos. Escrito numa parceria entre o diretor e os atores, o filme é uma sucessão de longos planos sem cortes (alguns deles com mais de dez minutos de duração), o que obriga a duas providências importantes. A primeira, ensaiar até que todas as arestas sejam aparadas e tudo o que soe artificial tenha sido eliminado. A segunda, aceitar que é inevitável que imprevistos surjam na interação entre os protagonistas, e tirar proveito deles. O saldo desse trabalho, que consumiu quase três anos de preparação e apenas duas semanas de filmagem, é o melhor possível – nas palavras do diretor, "um romance para realistas".


Antes do Amanhecer, de 1995: em Viena, uma noite que parecia não ter fim

Jesse e Céline, claro, não têm mais a franqueza de anos antes e, como carregam a bagagem acumulada em quase uma década de separação – casamentos ruins, frustrações amorosas e profissionais –, o trajeto para chegar até a intimidade novamente é tortuoso. Parte de generalidades, tangencia assuntos pessoais – compartilhados ou particulares –, encontra becos sem saída ou avenidas movimentadas demais e progride em marchas e contramarchas. É uma observação minuciosamente anotada de tudo que um reencontro como esse pode provocar de exultante e de embaraçoso, e Linklater, Hawke e Delpy respondem a ela de forma impecável, tirando do caminho qualquer coisa que possa chamar atenção para o ato de dirigir ou de atuar. Não é só nesses alter egos mais velhos e mais frustrados dos protagonistas de Antes do Amanhecer, porém, que a continuação assinala a diferença entre juventude e maturidade. Se a noite passada em Viena parecia, para eles, não ter fim, em Antes do Pôr-do-Sol eles correm atrás do tempo, sempre curto demais para tudo o que se quer fazer.

 
 
 
 
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