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Cinema
Contra o relógio
Ethan Hawke e Julie Delpy têm 90
minutos para tirar nove anos de
dúvidas em Antes do Pôr-do-Sol

Isabela Boscov
Fotos divulgação
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| Julie e Hawke, na continuação:
correndo atrás do tempo perdido |
Em 1995, o diretor Richard Linklater fez um
filme que virou um pequeno manual da vida aos 20 anos Antes
do Amanhecer, no qual o americano Ethan Hawke e a francesa Julie
Delpy interpretavam dois estudantes em férias que se conheciam
em Viena, apaixonavam-se e, em vez de trocar telefones, combinavam
um reencontro na cidade, para dali a seis meses. Antes do Amanhecer
terminava ali, no momento da despedida. Menos porque Linklater desejasse
deixar o destino dos personagens à mercê do espectador,
e mais como sinal do que ele próprio imaginava que o encontro
de Jesse e Céline viria a representar um desses momentos
decisivos mas fadados a permanecer em aberto, como uma promessa
de coisas que poderiam ter sido e não foram. E é com
esse sentimento que, nove anos depois, Jesse e Céline finalmente
se reencontram em Antes do Pôr-do-Sol (Before
Sunset, Estados Unidos, 2004), que estréia nesta sexta-feira
no Rio de Janeiro. Jesse, agora um escritor de certo sucesso, está
em Paris para lançar seu novo livro, uma recriação
sem muitos disfarces daquela noite vienense. Céline aparece
de surpresa na livraria onde ele está dando entrevistas e,
na hora e meia que resta antes de Jesse embarcar de volta para os
Estados Unidos, os dois caminham por Paris e conversam conversam
de fato, e não recitam diálogos. Escrito numa parceria
entre o diretor e os atores, o filme é uma sucessão
de longos planos sem cortes (alguns deles com mais de dez minutos
de duração), o que obriga a duas providências
importantes. A primeira, ensaiar até que todas as arestas
sejam aparadas e tudo o que soe artificial tenha sido eliminado.
A segunda, aceitar que é inevitável que imprevistos
surjam na interação entre os protagonistas, e tirar
proveito deles. O saldo desse trabalho, que consumiu quase três
anos de preparação e apenas duas semanas de filmagem,
é o melhor possível nas palavras do diretor,
"um romance para realistas".
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| Antes do Amanhecer, de 1995: em Viena,
uma noite que parecia não ter fim |
Jesse e Céline, claro, não têm
mais a franqueza de anos antes e, como carregam a bagagem acumulada
em quase uma década de separação casamentos
ruins, frustrações amorosas e profissionais ,
o trajeto para chegar até a intimidade novamente é
tortuoso. Parte de generalidades, tangencia assuntos pessoais
compartilhados ou particulares , encontra becos sem saída
ou avenidas movimentadas demais e progride em marchas e contramarchas.
É uma observação minuciosamente anotada de
tudo que um reencontro como esse pode provocar de exultante e de
embaraçoso, e Linklater, Hawke e Delpy respondem a ela de
forma impecável, tirando do caminho qualquer coisa que possa
chamar atenção para o ato de dirigir ou de atuar.
Não é só nesses alter egos mais velhos e mais
frustrados dos protagonistas de Antes do Amanhecer, porém,
que a continuação assinala a diferença entre
juventude e maturidade. Se a noite passada em Viena parecia, para
eles, não ter fim, em Antes do Pôr-do-Sol eles
correm atrás do tempo, sempre curto demais para tudo o que
se quer fazer.
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