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Cinema
O leão no inverno
O ator egípcio Omar Sharif sai do
esquecimento com Uma Amizade
sem Fronteiras, num dos melhores
papéis de sua carreira

Isabela Boscov
Divulgação
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| Sharif, aos 72 anos, com Boulanger: de galã
a figura paterna |
Omar Sharif nunca escondeu já ter sucumbido
a todo tipo de fraqueza: os cassinos, os vinhos raros, as mulheres
e, a mais deletéria delas, a inconseqüência com
que sempre (des)orientou sua carreira. Visto pela primeira vez em
1962, em Lawrence da Arábia, como um ponto que ia
crescendo no horizonte do deserto até ganhar a forma de um
beduíno vestido de negro uma das mais célebres
entradas em cena da história, destinada a inspirar admiração
na platéia e sentimentos um pouco mais fortes no personagem
de Peter O'Toole , Sharif imediatamente se tornou o primeiro
(e, até aqui, o único) astro egípcio do cinema
ocidental, requisitado para superproduções como A
Queda do Império Romano, Doutor Jivago e Funny Girl
(este, com a judia Barbra Streisand, o que o tornou alvo de uma
onda de ressentimento no mundo muçulmano). Em menos de uma
década, porém, Sharif esgotou seu cacife. O hábito
de viver à grande e as dívidas de jogo consta
que alguns de seus cachês foram entregues diretamente a seus
credores, sem passar pelas suas mãos o colocaram na
contingência de aceitar qualquer trabalho que lhe fosse oferecido,
uma tática que costuma levar do ruim ao pior e, no caso de
Sharif, conduziu quase ao esquecimento. Para as gerações
mais recentes, ele pouco representa além do velho príncipe
árabe, seu papel de praxe, em filmes como O 13º Guerreiro
ou Mar de Fogo. No último ano, porém, o ator
experimentou uma espécie de ressurreição, graças
a um personagem talhado sob medida para ele pelo francês François
Dupeyron.
Columbia Pictures
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| Com O'Toole, em Lawrence da Arábia:
para arrebatar a platéia e o protagonista |
Em Uma Amizade sem Fronteiras (Monsieur
Ibrahim et les Fleurs du Coran, França, 2003), que estréia
nesta sexta-feira no país, Sharif é Ibrahim, que na
Paris dos anos 60 (não a Paris fotogênica, mas a do
meretrício da Place Pigalle) toca uma mercearia, de cujo
balcão acompanha os movimentos do jovem Momo (Pierre Boulanger).
Abandonado pela mãe, Momo vive à sombra do irmão
ausente, que, segundo seu pai não cansa de lhe dizer, era
melhor do que ele em tudo. Momo cozinha para o pai, se entedia em
seu quarto, sonha com as prostitutas que vê pela janela e,
vez por outra, furta algum artigo da mercearia de Ibrahim, que finge
não ver. Melhor que o menino roube ali, diz, do que em algum
lugar no qual possa se meter em confusão. Na tradição
do cinema francês, Momo enfrenta a passagem da infância
à vida adulta em meio à indiferença familiar,
solitariamente e sem referências. Ao menos até se render
à amizade com o árabe (na verdade, turco, como Ibrahim
explicará depois ao rapaz) e o fato de Momo ser judeu
não passa, aqui, de um detalhe. Desde o momento em que os
dois conversam pela primeira vez, o assunto que toma quase todo
o filme é a conversão de Ibrahim, que não tem
filhos, em figura paterna.
Aos 72 anos e bem mais completo, como ator,
do que nos seus tempos de galã, Sharif combina, em Uma
Amizade sem Fronteiras, seu antigo magnetismo com um sentimento
próximo da gratidão a Momo, no caso do personagem,
e ao diretor Dupeyron, no seu próprio, por tê-lo tirado
de uma aposentadoria que o ator adotara como último recurso
à dignidade. Sharif mora há alguns anos num hotel
de Paris por cortesia do dono, que é seu amigo, e desde que
sofreu um infarto praticamente não bebe e não joga
mais. Abdicou até do bridge, no qual é campeão
mundial e do qual vem a maior parte de seu dinheiro, com a publicação
de manuais e jogos para computador com seu nome. Também deixou
de ser um cortejador. Ainda aprecia, e muito, as mulheres, diz,
mas hoje só como parte da paisagem. Dos antigos hábitos,
mantém apenas o de nunca acordar antes do almoço
e o de vencer qualquer resistência com seus famosos olhos
negros, tão luminosos quanto na juventude.
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