Edição 1877 . 27 de outubro de 2004

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Cinema
O leão no inverno

O ator egípcio Omar Sharif sai do
esquecimento com Uma Amizade
sem Fronteiras,
num dos melhores
papéis de sua carreira


Isabela Boscov


Divulgação
Sharif, aos 72 anos, com Boulanger: de galã a figura paterna

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Omar Sharif nunca escondeu já ter sucumbido a todo tipo de fraqueza: os cassinos, os vinhos raros, as mulheres e, a mais deletéria delas, a inconseqüência com que sempre (des)orientou sua carreira. Visto pela primeira vez em 1962, em Lawrence da Arábia, como um ponto que ia crescendo no horizonte do deserto até ganhar a forma de um beduíno vestido de negro – uma das mais célebres entradas em cena da história, destinada a inspirar admiração na platéia e sentimentos um pouco mais fortes no personagem de Peter O'Toole –, Sharif imediatamente se tornou o primeiro (e, até aqui, o único) astro egípcio do cinema ocidental, requisitado para superproduções como A Queda do Império Romano, Doutor Jivago e Funny Girl (este, com a judia Barbra Streisand, o que o tornou alvo de uma onda de ressentimento no mundo muçulmano). Em menos de uma década, porém, Sharif esgotou seu cacife. O hábito de viver à grande e as dívidas de jogo – consta que alguns de seus cachês foram entregues diretamente a seus credores, sem passar pelas suas mãos – o colocaram na contingência de aceitar qualquer trabalho que lhe fosse oferecido, uma tática que costuma levar do ruim ao pior e, no caso de Sharif, conduziu quase ao esquecimento. Para as gerações mais recentes, ele pouco representa além do velho príncipe árabe, seu papel de praxe, em filmes como O 13º Guerreiro ou Mar de Fogo. No último ano, porém, o ator experimentou uma espécie de ressurreição, graças a um personagem talhado sob medida para ele pelo francês François Dupeyron.


Columbia Pictures
Com O'Toole, em Lawrence da Arábia: para arrebatar a platéia e o protagonista

Em Uma Amizade sem Fronteiras (Monsieur Ibrahim et les Fleurs du Coran, França, 2003), que estréia nesta sexta-feira no país, Sharif é Ibrahim, que na Paris dos anos 60 (não a Paris fotogênica, mas a do meretrício da Place Pigalle) toca uma mercearia, de cujo balcão acompanha os movimentos do jovem Momo (Pierre Boulanger). Abandonado pela mãe, Momo vive à sombra do irmão ausente, que, segundo seu pai não cansa de lhe dizer, era melhor do que ele em tudo. Momo cozinha para o pai, se entedia em seu quarto, sonha com as prostitutas que vê pela janela e, vez por outra, furta algum artigo da mercearia de Ibrahim, que finge não ver. Melhor que o menino roube ali, diz, do que em algum lugar no qual possa se meter em confusão. Na tradição do cinema francês, Momo enfrenta a passagem da infância à vida adulta em meio à indiferença familiar, solitariamente e sem referências. Ao menos até se render à amizade com o árabe (na verdade, turco, como Ibrahim explicará depois ao rapaz) – e o fato de Momo ser judeu não passa, aqui, de um detalhe. Desde o momento em que os dois conversam pela primeira vez, o assunto que toma quase todo o filme é a conversão de Ibrahim, que não tem filhos, em figura paterna.

Aos 72 anos e bem mais completo, como ator, do que nos seus tempos de galã, Sharif combina, em Uma Amizade sem Fronteiras, seu antigo magnetismo com um sentimento próximo da gratidão – a Momo, no caso do personagem, e ao diretor Dupeyron, no seu próprio, por tê-lo tirado de uma aposentadoria que o ator adotara como último recurso à dignidade. Sharif mora há alguns anos num hotel de Paris por cortesia do dono, que é seu amigo, e desde que sofreu um infarto praticamente não bebe e não joga mais. Abdicou até do bridge, no qual é campeão mundial e do qual vem a maior parte de seu dinheiro, com a publicação de manuais e jogos para computador com seu nome. Também deixou de ser um cortejador. Ainda aprecia, e muito, as mulheres, diz, mas hoje só como parte da paisagem. Dos antigos hábitos, mantém apenas o de nunca acordar antes do almoço – e o de vencer qualquer resistência com seus famosos olhos negros, tão luminosos quanto na juventude.

 
 
 
 
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