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Música
A pílula dos eruditos
Capazes de eliminar a ansiedade sem prejudicar
a técnica, os betabloqueadores tornaram-se
a "droga milagrosa" dos músicos de orquestra

Sérgio Martins
Viviana Morilla
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| A Osesp em ação: muitos músicos
recorrem ao remédio, mas poucos admitem |
Alberto Cesar Araujo
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| Marcelo Ramos: "Toquei com a tranqüilidade
de quem está no banheiro" |
O meio musical sempre foi um campo fértil para o consumo
de drogas. É longa a lista de artistas de jazz e de rock
que fizeram uso e apologia de todo tipo de aditivo
químico. Por muito tempo, acreditou-se que o mundo da música
erudita estava livre dessa praga seus representantes eram
vistos como os "caretas de casaca". Nos últimos anos, isso
mudou. Cada vez mais os instrumentistas eruditos recorrem ao uso
de um medicamento para superar, de forma artificial, o nervosismo
e a ansiedade que se abatem sobre eles na hora de subir ao palco:
os betabloqueadores. Trata-se de uma classe de remédios surgida
nos anos 60 e que representou uma revolução no tratamento
de problemas cardíacos. É uma prescrição
importante, por exemplo, às pessoas que foram vítimas
de infarto. No mundo erudito, sua utilidade tem sido outra. Muitos
instrumentistas transformaram os betabloqueadores numa muleta para
encarar o clima de tensão que costuma pairar sobre uma orquestra.
Além disso, começam a surgir polêmicas em torno
de seu consumo indiscriminado. Recentemente, a professora de uma
conceituada escola de música americana foi demitida por aconselhar
seus alunos a tomar o remédio. Os betabloqueadores também
já se tornaram populares nas orquestras nacionais. "Certa
vez, tomei antes de uma audição e me apresentei com
a tranqüilidade de quem está tocando no banheiro de
sua própria casa", diz Marcelo Ramos, regente titular da
Orquestra Sinfônica de Minas Gerais.

Como inibem a ação da adrenalina, os betabloqueadores
eliminam os efeitos desagradáveis da ansiedade, como a taquicardia,
os tremores e as palpitações. Ou seja, dão
ao músico a sensação de serenidade e autodomínio
(veja quadro ao lado). Até o aparecimento desses remédios,
as alternativas para um artista que tivesse dificuldades em encarar
uma platéia eram os calmantes ou as bebidas fortes. Esses
recursos, porém, tinham enormes desvantagens: prejudicavam
a atenção e a coordenação motora, efeitos
inadmissíveis numa profissão em que o apuro técnico
é fundamental. Grandes astros do passado pagaram um preço
alto por tocar de "cara limpa". O ucraniano Vladimir Horowitz e
o canadense Glenn Gould, dois dos maiores pianistas de todos os
tempos, diminuíram o número de seus recitais porque
se sentiam desconfortáveis diante de uma platéia.
Outra lenda erudita, o violoncelista catalão Pablo Casals,
ficava tão nervoso que tinha palpitações terríveis
no palco.
Os betabloqueadores são comprados em
qualquer farmácia, até mesmo sem receita médica.
Seu uso indiscriminado pode trazer danos à saúde.
"Eles não devem ser tomados sem orientação
médica rigorosa e sem que seja para seu fim específico",
diz o cardiologista Otávio Rizzi Coelho, da Unicamp. Os músicos
são reticentes a respeito de seu uso. "É como o Viagra.
Ninguém confessa que toma porque passa uma imagem de fraqueza",
declarou o instrumentista de uma grande orquestra americana ao jornal
The New York Times. A Orquestra Sinfônica do Estado
de São Paulo (Osesp) possui adeptos do remédio em
seus quadros. "Eu uso nos momentos de maior tensão. Sei de
companheiros que também o fazem, mas seria pouco ético
de minha parte revelar seus nomes", diz José Ananias, primeiro-flautista
da Osesp. John Neschling, diretor artístico da orquestra,
minimiza a polêmica. "Prefiro reger careta. Fico mais nervoso
nos ensaios do que na hora do concerto", diz.
Mas não é só no campo
médico que o fenômeno gera controvérsia. Pesquisas
na Juilliard School de Nova York, uma das mais respeitadas instituições
de ensino artístico do mundo, mostraram que os betabloqueadores
podem incrementar o desempenho técnico de um instrumentista,
mas tendem a reduzir a intensidade de suas interpretações.
Existe ainda uma questão ética: se eles realmente
tornam mais técnica uma apresentação, podem
dar vantagem ao seu usuário em relação aos
colegas "abstêmios" num concurso ou audição.
Os betabloqueadores já são considerados uma forma
de doping em esportes que exigem concentração e precisão
como o tiro ao alvo. Talvez, um dia, sua utilização
seja vista assim na música erudita.
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