Edição 1877 . 27 de outubro de 2004

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Música
A pílula dos eruditos

Capazes de eliminar a ansiedade sem prejudicar
a técnica, os betabloqueadores tornaram-se
a "droga milagrosa" dos músicos de orquestra


Sérgio Martins


Viviana Morilla
A Osesp em ação: muitos músicos recorrem ao remédio, mas poucos admitem


Alberto Cesar Araujo
Marcelo Ramos: "Toquei com a tranqüilidade de quem está no banheiro"


O meio musical sempre foi um campo fértil para o consumo de drogas. É longa a lista de artistas de jazz e de rock que fizeram uso – e apologia – de todo tipo de aditivo químico. Por muito tempo, acreditou-se que o mundo da música erudita estava livre dessa praga – seus representantes eram vistos como os "caretas de casaca". Nos últimos anos, isso mudou. Cada vez mais os instrumentistas eruditos recorrem ao uso de um medicamento para superar, de forma artificial, o nervosismo e a ansiedade que se abatem sobre eles na hora de subir ao palco: os betabloqueadores. Trata-se de uma classe de remédios surgida nos anos 60 e que representou uma revolução no tratamento de problemas cardíacos. É uma prescrição importante, por exemplo, às pessoas que foram vítimas de infarto. No mundo erudito, sua utilidade tem sido outra. Muitos instrumentistas transformaram os betabloqueadores numa muleta para encarar o clima de tensão que costuma pairar sobre uma orquestra. Além disso, começam a surgir polêmicas em torno de seu consumo indiscriminado. Recentemente, a professora de uma conceituada escola de música americana foi demitida por aconselhar seus alunos a tomar o remédio. Os betabloqueadores também já se tornaram populares nas orquestras nacionais. "Certa vez, tomei antes de uma audição e me apresentei com a tranqüilidade de quem está tocando no banheiro de sua própria casa", diz Marcelo Ramos, regente titular da Orquestra Sinfônica de Minas Gerais.


Como inibem a ação da adrenalina, os betabloqueadores eliminam os efeitos desagradáveis da ansiedade, como a taquicardia, os tremores e as palpitações. Ou seja, dão ao músico a sensação de serenidade e autodomínio (veja quadro ao lado). Até o aparecimento desses remédios, as alternativas para um artista que tivesse dificuldades em encarar uma platéia eram os calmantes ou as bebidas fortes. Esses recursos, porém, tinham enormes desvantagens: prejudicavam a atenção e a coordenação motora, efeitos inadmissíveis numa profissão em que o apuro técnico é fundamental. Grandes astros do passado pagaram um preço alto por tocar de "cara limpa". O ucraniano Vladimir Horowitz e o canadense Glenn Gould, dois dos maiores pianistas de todos os tempos, diminuíram o número de seus recitais porque se sentiam desconfortáveis diante de uma platéia. Outra lenda erudita, o violoncelista catalão Pablo Casals, ficava tão nervoso que tinha palpitações terríveis no palco.

Os betabloqueadores são comprados em qualquer farmácia, até mesmo sem receita médica. Seu uso indiscriminado pode trazer danos à saúde. "Eles não devem ser tomados sem orientação médica rigorosa e sem que seja para seu fim específico", diz o cardiologista Otávio Rizzi Coelho, da Unicamp. Os músicos são reticentes a respeito de seu uso. "É como o Viagra. Ninguém confessa que toma porque passa uma imagem de fraqueza", declarou o instrumentista de uma grande orquestra americana ao jornal The New York Times. A Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp) possui adeptos do remédio em seus quadros. "Eu uso nos momentos de maior tensão. Sei de companheiros que também o fazem, mas seria pouco ético de minha parte revelar seus nomes", diz José Ananias, primeiro-flautista da Osesp. John Neschling, diretor artístico da orquestra, minimiza a polêmica. "Prefiro reger careta. Fico mais nervoso nos ensaios do que na hora do concerto", diz.

Mas não é só no campo médico que o fenômeno gera controvérsia. Pesquisas na Juilliard School de Nova York, uma das mais respeitadas instituições de ensino artístico do mundo, mostraram que os betabloqueadores podem incrementar o desempenho técnico de um instrumentista, mas tendem a reduzir a intensidade de suas interpretações. Existe ainda uma questão ética: se eles realmente tornam mais técnica uma apresentação, podem dar vantagem ao seu usuário em relação aos colegas "abstêmios" num concurso ou audição. Os betabloqueadores já são considerados uma forma de doping em esportes que exigem concentração e precisão – como o tiro ao alvo. Talvez, um dia, sua utilização seja vista assim na música erudita.

 
 
 
 
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