Edição 1877 . 27 de outubro de 2004

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As grifes que vendem acessórios
caríssimos criam uma nova categoria
de produtos:
os mais caros ainda


Bel Moherdaui

 
Fotos divulgação
Louis Vuitton
12 500 dólares
(no Brasil, 47500 reais)
Prada
5 950 dólares

Somadas, as etiquetas das bolsas que ilustram estas páginas chegam perto dos 90.000 reais, o equivalente a um carro importado de porte médio ou um apartamento de dois quartos – coisas que a provável consumidora dessas preciosidades em couro ou já tem, ou nem cogita ter, ou não vai ter jamais porque gasta tudo o que possui em bolsas de grife. São modelos exclusivíssimos, caríssimos, exemplares típicos de uma nova classe de produtos: o luxo do luxo. Com eles, as marcas mais poderosas estão atingindo um novo patamar em sua incessante escalada rumo a artigos cada vez mais caros. Procuram, assim, recuperar a aura de exclusividade ligeiramente tisnada pela disseminação das grifes de luxo – mas sem perder de vista a consumidora média (para esses padrões, claro), que já se acostumou a pagar em prestações a bolsinha de 2.000 dólares que hoje "todo mundo tem". Há situações em que o acessório, de tão raro, ultrapassa em valor, e aura fetichista, jóias de qualidade. Tome-se o caso da bolsa Alberta, da Louis Vuitton. Só para recobrir cada mimo desses com couro de jacaré, flores de visom e organza, pedras, cristais e madrepérolas, os artesãos levam doze horas. Resultado: produção ultralimitada e preço na estratosfera. Para o Brasil virão menos de dez, a 47.500 reais cada uma (na Europa e nos Estados Unidos saem mais em conta –12 500 dólares). Perto dela, fica até acanhada a bolsinha New Look, da Christian Dior, de cetim com aplicação de contas de cristal, que custa 3.130 dólares no exterior e mais de 10.000 reais na loja da grife em São Paulo, onde as dez primeiras estão prometidas para a semana que vem.

 
Gucci
4 500 dólares
Dior
3 130 dólares
(cerca de 10 000 reais no Brasil)

Os sinais de expansão dessa indústria do superluxo podem ser detectados no epicentro mundial dos artigos de couro de altíssima qualidade: Milão, mais especificamente o quadrilátero formado pelas vias della Spiga, Montenapoleone, Sant'Andrea e Manzoni. Na loja da grife Dolce&Gabbana, enquanto a plebe fica de queixo caído diante dos dramáticos lustres de cristal preto no piso principal, as clientes vips se deliciam com produtos especialíssimos (únicos ou numerados) em uma sala reservada. "Nós começamos a fazer essas peças sem alarde, há três anos, em Milão, e todo mundo ficou louco", diz Stefano Gabbana. Loucura, aí, significa oferecer produtos de linha tão exclusivos que funcionam quase como se fossem roupas de alta-costura. "Se o sapato que pusemos na loja é tamanho 37 e a cliente calça 39, eu posso até atendê-la, mas aviso: outra pode entrar, comprar o 37 e você não será mais única", explica, em tom ameaçador. Na Gucci da via Montenapoleone, uma pequena quantidade das bolsas da pré-coleção de primavera-verão (fundo branco e estampa de flores) que só chegam às lojas no fim de novembro saiu da caixa rumo ao armário de clientes especiais no fim de setembro. A mais elaborada, toda bordada, com alça de corrente com bambu, é vendida apenas sob encomenda, pelo equivalente a 1 750 dólares (5 000 reais). Uma pechincha perto da bolsinha de veludo e couro de crocodilo, com um dragão de duas cabeças no fecho dourado com strass, pérolas e ametista, também lançada com antecedência em Milão, a 4 500 dólares (pouco menos de 13 000 reais). Na Prada, algumas das bolsas de patchwork da pré-coleção – que só chegará ao mundo das ricas comuns, coitadinhas, em novembro – esgotaram-se antes de outubro. Eram bolsinhas simples, de náilon, nada que se compare à versão em couro com bordado em cristais que será vendida a 6.000 dólares (17.000 reais).

Além dos produtos caríssimos e ultra-exclusivos, outras táticas vêm sendo usadas pelas marcas, em conjunto com o varejo, para insuflar os instintos de consumo em clientes que circulam no Everest da faixa de renda. Uma delas é o trunk show, um tipo de venda quase fechada, de coleções que ainda não chegaram às prateleiras comuns, destinada a freguesas que já demonstraram seu poder de fogo. No último trunk show da Chanel na loja de departamentos Bergdorf Goodman, de Nova York, o faturamento foi equivalente ao que uma empresa brasileira de porte médio leva um ano para acumular: 3,1 milhões de dólares em um único dia.

 
 
 
 
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