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Sociedade
O que querem as mulheres
Pesquisas
mostram que brasileiras se
acham pouco atraentes e sonham com
uma vida que concilie sucesso profissional
com tempo para cuidar da família

Cynara Menezes
Ter sucesso
profissional, colher os benefícios materiais da ascensão
na carreira, mas ao mesmo tempo ser uma figura presente no dia-a-dia
dos filhos e manter-se jovem, atraente e, não menos importante,
equilibrada do ponto de vista emocional. Esses são os objetivos
prioritários da porção feminina do Brasil,
segundo uma pesquisa que ouviu 2.000 mulheres entre 18 e 49 anos,
realizada pelo Ibope a pedido da Editora Abril. Trata-se de uma
radiografia interessante pelo que mostra do presente e também
pelo que projeta para o futuro imediato. Quando perguntadas sobre
o que mais sonham ter nos próximos dez anos, nenhuma meta
profissional aparece como prioridade. As mulheres dizem querer amadurecer
esbanjando saúde, tendo mais tempo para os programas familiares
e usufruindo uma vida sexual mais ativa (veja quadro ao lado).
É um retrato bem diferente dos que emergiram nas duas décadas
passadas, em pesquisas semelhantes, quando as mulheres desembarcavam
no mercado de trabalho com apetite para conquistar espaço
e respeito profissional e colocavam a vida pessoal em segundo
plano. "O trabalho continua valorizado, mas elas descobriram que
não é excludente ao casamento e às relações
familiares", diz a socióloga Sílvia Borelli, da Pontifícia
Universidade Católica (PUC) de São Paulo.
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Retrato feminino
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A pesquisa
ajuda a desvendar e a confirmar outros aspectos da
mentalidade feminina. Um deles é que as mulheres vislumbram
um horizonte menos cor-de-rosa do que no passado. Elas acham que
os casamentos vão durar menos e que haverá cada vez
mais pessoas solitárias e sem filhos. Isso não as
impede, no entanto, de nutrir o mesmo sonho de suas avós:
oito de cada dez entrevistadas afirmam querer um bom casamento.
Na hora de descrever o parceiro ideal, dizem estar em busca de um
"companheiro" que dê provas de ser "responsável" e
"fiel". Como as pioneiras que lutavam pela emancipação
feminina na década de 60, as mulheres do início do
século XXI continuam a usar os mesmos adjetivos para descrever
os homens: autoritários, egoístas e exigentes.
As mulheres
brasileiras, aponta a pesquisa feita pelo Ibope, também são
muito vaidosas. Entre as suas prioridades, está a de "conquistar
tempo para cuidar da aparência". A obsessão das brasileiras
pelo físico fica ainda mais evidente quando se examinam os
dados de uma segunda pesquisa, encomendada pela Unilever e conduzida
pelas psicólogas Nancy Etcoff, da Universidade Harvard, e
Susie Orbach, da London School of Economics. Dos dez países
investigados, entre eles Estados Unidos, Inglaterra e França,
o Brasil desponta como aquele em que as mulheres declaram estar
mais preocupadas em ter um rosto bonito, a pele bem-cuidada, o corpo
em forma e uma imagem sexy. É também o país
campeão em consumo de produtos para unhas, tinturas de cabelo
e hidratantes para o corpo. Outro número que impressiona:
nada menos do que 58% das brasileiras afirmam que, caso a cirurgia
plástica fosse gratuita, recorreriam imediatamente ao bisturi.
"Considero esse dado chocante. A preocupação com a
aparência é tão importante para as brasileiras
que a cirurgia plástica virou parte do cotidiano", diz Susie
Orbach, que tratou da princesa Diana quando ela sofria de bulimia.
Compreende-se, assim, por que o Brasil se tornou o segundo país
do mundo em número de plásticas, perdendo apenas para
os Estados Unidos, onde as mulheres têm renda catorze vezes
maior que as brasileiras.
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Campeãs de vaidade
A comparação internacional
mostra que as brasileiras são as mais preocupadas com
a estética
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O excesso
de preocupação com a forma provoca um efeito colateral
incômodo para as mulheres no Brasil. Segundo revela a pesquisa,
elas vivem queixosas em relação ao que vêem
no espelho. São as que mais se enxergam "gordinhas" e "pouco
sexy", entre as mulheres nos dez países observados. Apenas
2% das brasileiras dizem achar-se bonitas, só ficando atrás
do Japão nesse quesito (veja quadro na pág. ao
lado). "Elas perseguem um ideal estético perfeito, que
é irreal, e por isso estão insatisfeitas", observa
Susie Orbach. A psicóloga inglesa está se referindo
ao padrão de beleza das modelos que desfilam nas passarelas:
magricelas de quadris estreitos, cabelo esticado e pele impecável.
Uma sondagem recente feita entre jovens de 12 a 20 anos no Rio de
Janeiro trouxe um dado inquietante sobre o assunto. Sete de cada
dez meninas declaram fazer algum tipo de dieta para emagrecer, mesmo
não tendo nenhum problema objetivo com a balança.
As entrevistadas na pesquisa sobre a auto-imagem da mulher dizem
não se sentir em nada identificadas com as mulheres glamourosas
e de aparência perfeita que são exibidas nas propagandas
da televisão. Se isso pode mudar? Dificilmente. A frustração
feminina com a própria imagem e a conseqüente busca
por uma aparência mais próxima dos padrões inculcados
pela mídia alimentam uma indústria poderosa. Só
no ano passado as brasileiras gastaram 17 bilhões de reais
na compra de produtos cosméticos e de perfumaria. Não
é fácil e é bem caro ser uma
mulher moderna.
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JAPONESAS:
CAMPEÃS DA MODÉSTIA
Uma
olhada superficial no estudo sobre a auto-imagem das
mulheres conduzido pelas psicólogas Nancy Etcoff
e Susie Orbach poderá levar à errônea
conclusão de que as japonesas são as mulheres
com a mais baixa auto-estima do mundo. Entrevistadas,
nenhuma se define como "bonita" ou "bela" e apenas 23%
afirmam estar felizes com sua "atratividade física"
(nos demais países, a média de satisfação
é de 71%). As japonesas também surgem
como as mais descontentes em relação ao
peso e à forma do próprio corpo (20%).
Ocorre que, por trás desse aparente conflito
com a imagem que as orientais vêem refletida no
espelho, se esconde um fenômeno cultural. No Japão,
a discrição é requisito obrigatório
quando se trata de beleza feminina. Auto-elogios são
considerados de mau gosto, enquanto a autodepreciação
é tida como uma atitude elegante. Isso significa
que, quando uma mulher nas ruas de Tóquio é
perguntada se se considera "bela", tenderá a
dizer que não mesmo que pense o contrário.
"Recorrer à autodepreciação para
se esquivar de um elogio é uma característica
da cultura japonesa", afirma Leiko Matsubara, professora
de línguas orientais da Universidade de São
Paulo. "Não dá para levar as conclusões
do estudo ao pé da letra porque esse tipo de
atitude faz parte do manual de boas maneiras local",
diz. Um conhecido provérbio japonês tenta
resumir a idéia: "Iwanu ga hana", algo como "Não
falar é flor". Esse excesso de zelo na auto-avaliação
da aparência não significa que as japonesas
sejam despidas de vaidade. O interesse que elas demonstram
pelas promessas da indústria da estética
é prova disso. Na comparação entre
dez países, as orientais surgem como campeãs
no consumo de maquiagem. No ano passado, só o
mercado de cremes para clarear a pele (para os japoneses,
a alvura do rosto é um dos principais componentes
da beleza feminina) movimentou 5 bilhões de dólares.
Como se vê, sobra vaidade.
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