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Empresas A
cobra que não quer morder Compras
sem licitação dão fôlego à estatal
de informática símbolo da ruinosa
política de reserva de mercado
 Leandro
Beguoci Marco
Antonio Rezende/Photocamera
 | | Sede
da Cobra, no Rio de Janeiro: contratos com prefeituras são uma das maiores prioridades
da empresa |
Pouca
gente ainda se lembra da Cobra, a estatal brasileira que queimou milhões
de dólares durante o regime militar a pretexto de reinventar o computador.
Criada em 1974, a empresa só conseguiu produzir clones ineficientes e dezenas
de vezes mais caros que os computadores à venda no mercado. A festa terminou
em 1991, com o fim da reserva de mercado, que proibia a importação
de computadores pessoais e regulava a entrada de quase todos os produtos de alta
tecnologia no país. A reserva acabou quando o governo se rendeu à
evidência de que a idéia cômica de competir em inventividade
e produtividade com o Vale do Silício criara no Brasil uma trágica
defasagem tecnológica. A Cobra parecia, então, fadada à inanição.
A notícia assombrosa é que ela vive e está muito bem de saúde.
Fóssil vivo daqueles tempos sombrios, a empresa agora se especializou em
fazer contratos com prefeituras por meio dos quais oferece, principalmente, bens
e serviços produzidos por terceiros. Com um detalhe, digamos, importante:
tudo sem licitação.
Os primeiros contratos dessa nova fase foram assinados ainda no governo de Fernando
Henrique Cardoso. Mas foi na atual administração que se transformaram
numa espécie de coqueluche envolta em circunstâncias, no mínimo,
questionáveis. Sem licitação, a Cobra assinou dois contratos
para ajudar a prefeitura de São Paulo, do PT, a implantar o sistema do
bilhete único. Estima-se que eles totalizem 266 milhões de reais
e tenham como objeto a instalação de um centro de dados para captar
a movimentação da frota de ônibus da cidade de São
Paulo via satélite. A Cobra terceirizou cerca de 45% do valor total desses
dois contratos. Ou seja: repassou parte da tarefa, também sem licitação,
a várias empresas. Pelo menos outras 22 prefeituras fizeram contratos com
a Cobra. Ao todo, dez são administradas pelo PT. PSB e PMDB aparecem em
seguida com três. O PFL tem duas. Já PP, PPS, PL, PSD e PDT têm
uma prefeitura cada um. Em Santo André, gerida pelo PT, o contrato está
suspenso por uma liminar. Em abril de 2004, a empresa foi chamada pela prefeitura
dessa cidade para implantar um sistema de arrecadação do ISS (imposto
sobre serviços) e, de quebra, promover serviços de engenharia e
de arquitetura e fornecer até carros de som. Sem licitação,
é claro. Pelo serviço, a prefeitura de Santo André comprometeu-se
a pagar 12,1 milhões de reais em trinta meses.
Marisa
Cauduro/Folha Imagem
 | | Santos
Neto, da Cobra: "Não venderia a empresa nem por 2 bilhões de reais" |
Mas
nem todo mundo contrata a Cobra dessa maneira. A Dataprev, por exemplo, abriu
licitação depois que seu contrato de trinta anos com a Unisys acabou,
no ano passado. A Cobra foi a única concorrente. Venceu e levou uma bolada
de 180,5 milhões de reais. Mas, como não sabia lidar com o sistema
anterior, repassou grande parte do serviço. Para quem? Para a Unisys. Contratos
como esses estão injetando uma montanha de dinheiro na Cobra, que pertence
hoje ao Banco do Brasil. A empresa deve faturar 1,4 bilhão de reais em
2004, valor 240% superior ao de suas receitas em 2002. Tal sucesso se deve à
sua atual diretoria. Em março de 2003, o governo nomeou para a presidência
da Cobra o engenheiro Graciano Santos Neto. Ele era gerente de uma antiga subsidiária
da GTech a mesma empresa que está no centro do escândalo Waldomiro
Diniz. A Cobra nega quaisquer irregularidades e responde da seguinte maneira às
dúvidas relativas a seus contratos:
POR
QUE A COBRA NÃO PARTICIPA DE LICITAÇÕES? "A empresa
se considera uma estatal e, como tal, beneficiária de um dispositivo que
dispensa licitação quando um órgão público
contrata outro órgão público."
SE
A EMPRESA É UMA ESTATAL, NÃO DEVERIA FAZER LICITAÇÕES
AO MENOS QUANDO COMPRA PRODUTOS DE EMPRESAS PARA REPASSÁ-LOS ADIANTE? "A
Cobra tem 'atividade lucrativa como objetivo' e, portanto, não pode ser
compelida a cumprir regras rígidas que a colocariam em desvantagem com
relação às empresas privadas."
VEJA consultou dez autoridades e especialistas em direito administrativo. Entre
eles o presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), o procurador-geral
do Ministério Público junto ao tribunal e o presidente da Sociedade
Brasileira de Direito Público, além de outros. Todos identificaram
problemas sérios na atuação da Cobra. O principal deles diz
respeito à oportunista "crise de identidade": a empresa diz ser estatal
para escapar de licitações e assume a personalidade privada para
fugir dos princípios públicos da moralidade e da transparência.
"Ou ela é uma coisa ou é outra", diz Lucas Rocha Furtado, procurador-geral
junto ao TCU. Para o presidente do tribunal, Valmir Campelo, a Cobra se vale indevidamente
da prerrogativa de sociedade de economia mista para intermediar a aquisição
de bens. "Ela firma contratos para fornecer produtos que não fabrica e
às vezes nem são relacionados à sua atividade-fim. Ela está
obrigada a abrir licitações quando quer contratar um serviço
ou comprar um produto não relacionado à sua atividade-fim." A Cobra
alega selecionar seus fornecedores com rigor, mas uma das empresas contratadas,
a Novadata, pertence a Mauro Dutra, aquele amigo de pescaria de Lula que já
arrecadou doações em campanhas presidenciais do partido. Na contabilidade
da ONG de Dutra, a Ágora, auditores do governo acharam uma pilha de notas
fiscais frias. Nos próximos quarenta dias, o TCU promete reunir as explicações
do porquê de a empresa ter reencontrado o mesmo carinho dedicado a ela pelo
regime militar. Diz Graciano Santos Neto, presidente da empresa: "Hoje eu não
venderia a Cobra nem por 2 bilhões de reais". O mais certo seria dizer
que ninguém compraria a Cobra nem por 2 reais. O que vale a Cobra sem as
facilidades que desfruta no zoológico estatal? |