Edição 1877 . 27 de outubro de 2004

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Cuba
Fidel caiu!
Calma...foi só um tombo

Mas o tropeço em público reabre os rumores
sobre a saúde precária do ditador de 78 anos


Fotos AP
O tombo de Fidel na praça, diante das câmeras e do público: rótula do joelho esquerdo fraturada e fissura no braço
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Fidel Castro caiu. Não foi, como seria desejável, a queda da ditadura – mas, ao tropeçar em público e se estatelar no chão, o ditador pôs fogo nas especulações sobre sua capacidade de continuar a governar. A idade é um inimigo que el comandante en jefe não pode prender, torturar nem fuzilar no paredón. Aos 78 anos, ele tem dificuldade cada vez maior para convencer os cubanos de que são falsos os rumores sobre seus problemas de saúde. O tombo foi na quarta-feira à noite, depois de um discurso de formatura em Santa Clara, no interior da ilha. Muitos dos espectadores das primeiras filas no auditório simplesmente saíram correndo, querendo distância do que estava ocorrendo – seja lá o que fosse. Socorrido pelos guarda-costas, Castro pegou o microfone e tentou tranqüilizar o público presente à cerimônia. Com expressão de dor, explicou que havia caído, machucado o braço e o joelho, e avisou: "Estou inteiro".

Apesar de a queda ter sido registrada pelas câmeras de TV e pelos fotógrafos, a TV cubana não exibiu uma só cena do acidente. Só os cubanos com acesso às transmissões internacionais souberam o que tinha acontecido. O restante da população tomou conhecimento por descrições passadas de boca em boca – e, no íntimo de muitos deles, deve ter tremulado a esperança de que o ditador houvesse finalmente desaparecido da vida deles. Logo as autoridades pediram calma à população, confirmaram a queda e deram detalhes (Fidel fraturou a rótula do joelho esquerdo e sofreu uma fissura no braço direito, usado para proteger o rosto na queda). Desde junho de 2001, quando Fidel desmaiou durante um discurso ao ar livre, o real estado de saúde do ditador é a principal especulação política em Cuba. O desmaio deixou claro que a idade começa a pesar-lhe. É arriscado fazer prognósticos sobre o futuro de Cuba. Não há provas concretas de que Fidel esteja doente, e, como seu pai, ele pode muito bem viver além dos 80 anos. De qualquer forma, a pergunta está no ar: depois dele, quem?

Esse é um dilema que atordoa os países nos quais uma só pessoa concentra todo o poder, como é o caso de Cuba. Nenhum regime comunista conseguiu criar um padrão de transição do poder. Na maioria das vezes, a sucessão só ocorreu depois da morte do manda-chuva, mesmo que ele tenha passado longo tempo incapacitado de governar – a exemplo do chinês Mao Tsé-tung e do soviético Leonid Brejnev. Num livro recente sobre o futuro da ilha, o mexicano Ricardo Pascoe Pierce, embaixador em Havana até 2002, diz que depois do desmaio do ditador em 2001 a luta pelo poder corre solta em Cuba. Primeiro, Fidel precisou rever o plano de deixar a Presidência para o irmão, Raúl, que comanda as Forças Armadas. Fez isso porque a nomeação do primeiro-irmão foi rejeitada numa votação secreta, da qual só participou a cúpula comunista. Fidel passou então a delegar poderes ao ministro da Economia, Carlos Lage. De acordo com Pierce, Raúl ficou furioso e começou a tentar ampliar sua base de poder e – para espanto dos visitantes estrangeiros – a fazer piada a respeito do irmão em público. Essa luta de bastidores pôde ser percebida, nos últimos meses, pela substituição de dirigentes comunistas acusados de corrupção por militares de confiança de Raúl.

AFP
O ditador explica o que aconteceu, minutos depois do incidente: "Estou inteiro"

Oficialmente, o primeiro-irmão continua o príncipe herdeiro. "Há uma coisa que pode complicar o processo sucessório em Cuba: a morte prematura de Raúl", disse a VEJA Hans De Salas-del Valle, professor da Universidade de Miami. Existem rumores de que sua saúde está debilitada após o tratamento de um câncer no cólon. Fidel Castro, há 45 anos no poder, deixou claro que não pretende abrir mão em vida de nenhum dos inúmeros cargos que ocupa. Ele se recusa a fazer concessões ideológicas, mesmo que sejam urgentes para amenizar a gravíssima crise econômica da ilha. No momento, o ditador está empenhado em esmagar, com impostos pesadíssimos, os pequenos negócios privados (restaurantes e pensões) que ele mesmo permitiu que fossem abertos no início da década passada. Raúl e Lage são favoráveis à abertura da economia. Não se pense, contudo, numa revolução ao contrário. A exemplo do que aconteceu na Rússia pós-soviética, cada um deles trabalha para conservar sua área de influência na economia. Raúl cuida do turismo e da aviação comercial, enquanto Lage controla os serviços públicos, o petróleo, a eletricidade e a mineração. O plano deles é reproduzir o modelo chinês, com uma economia de mercado sob o controle do Partido Comunista. A diferença é que o comunismo em Cuba só tem uma bandeira – o carisma de Fidel e seu antiamericanismo. A questão, evidentemente, é outra: a criatura sobreviverá ao criador?

 
 
 
 
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