Edição 1877 . 27 de outubro de 2004

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Energia
O núcleo da questão

A tecnologia atômica brasileira pode
ser fruto de pirataria ou ser original.
O mundo quer vê-la


Ronaldo França

Na semana passada, representantes da Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea) visitaram a fábrica de urânio em Resende, no Rio de Janeiro, para estabelecer os procedimentos da inspeção, que deverá ocorrer nos próximos meses. Ainda não há um acordo formal sobre o que será mostrado. Existem suspeitas de que o sigilo todo se deva ao fato de o desenho das centrífugas nacionais ser fruto de pirataria – e uma simples inspeção visual bastaria para desmascarar a cópia. As autoridades brasileiras rejeitam essa tese. Sustentam que, para checar a quantidade de urânio que entra e sai da fábrica, não é preciso ver as centrífugas. O argumento é que a tecnologia brasileira não apenas é original como desperta cobiça. Caso os equipamentos sejam exibidos, eles podem vir a ser copiados. O segredo industrial a ser preservado combinaria fatores como dimensão das máquinas, tipo de material utilizado e detalhes da tecnologia de levitação, desenvolvidos pela Marinha.

"Não vamos jogar fora uma vantagem competitiva enorme", afirma o almirante Alan Arthou, diretor do Centro Tecnológico da Marinha. O Brasil se beneficiou por ter demorado a entrar nas pesquisas do ciclo do urânio, o que fez somente no início dos anos 80. Incorporando tecnologias emergentes, o país chegou à levitação, que reduz o desgaste do equipamento e é trinta vezes mais econômica que outros métodos (veja quadro abaixo). Essa tecnologia é um dos trunfos do país para planos ambiciosos na geração de energia nuclear. Um artigo publicado na semana passada na revista Science, a mais prestigiada do mundo, afirma que a usina de Resende pode produzir urânio suficiente para seis ogivas nucleares. O artigo é apenas mais um round da inevitável e legítima pressão internacional para que o Brasil seja mais transparente nessa questão. A proliferação nuclear é um pesadelo atual equiparado ao terrorismo. É ingênuo imaginar que a comunidade internacional, por mais respeito que o pacifismo brasileiro suscite, vá dormir em paz sem saber em detalhes as reais intenções atômicas representadas pelas centrífugas de Resende.

 

Masao Goto
 
 
 
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