|
|
Gastronomia Adrià
na chapa O
mago da cozinha espanhola
abre uma lanchonete em Madri. A surpresa: tudo é bem convencional
 Juliana
Vale, de Madri
No mundo da gastronomia, o catalão Ferran Adrià, o dono do restaurante
El Bulli, é reverenciado como divindade. Primeiro, pelo impacto revolucionário
de sua culinária, uma festa-surpresa para os olhos e para o paladar, ao
produzir ovos de café que explodem na boca, sorvetes quentes, raviólis
líquidos, sopas em forma de bolha e croquetes com água do mar. Depois,
pela aura de experiência quase religiosa que cerca uma ida ao El Bulli:
só funciona de abril a setembro, só atende oitenta pessoas por noite
(recebe cerca de 300.000 pedidos de reserva por ano), só serve um cardápio
único renovado com freqüência , de 120 euros por
pessoa, que inclui ao redor de trinta pratos pequenos (escolhidos pelo chef, não
pelo cliente) e se encerra, muitas vezes, em aplausos. Por tudo isso, Adrià
é hoje considerado não apenas a maior estrela culinária do
planeta mas uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, segundo uma lista da
revista Time. Credita-se a ele, sozinho, a explosão de criatividade
que colocou a cozinha espanhola no patamar das excelentes, ou até mesmo
no topo da lista, como crêem muitos. Com esse histórico todo, o que
seria de esperar quando Adrià põe seu nome estrelado à frente
de uma lanchonete? Pois o chef resolveu surpreender de novo. A Fast Good (assim
mesmo, em inglês algo ingênuo), serve um hambúrguer absolutamente
convencional nada de gelatinas ou espumas aqui entre outros produtos
"normais", digamos. O que ele pretende? Ganhar dinheiro, oras. "Preciso me concentrar
no lado empresarial por dois ou três anos, para alcançar a liberdade
criativa. Sou feliz quando cozinho. E, quando estou no El Bulli, não quero
ter de pensar 'Será que já fiz bastante dinheiro hoje?' ", declarou
por ocasião da inauguração do Fast Good.
Deu certo: a lanchonete da rede de hotéis NH, com Adrià à
frente, aberta em março, em Madri, é um dos lugares mais freqüentados
da cidade e funciona como a vitrine de uma futura rede, onde, aí
sim, o dinheiro começaria a jorrar. O serviço é meio lento
e os preços são mais altos que os do McDonald's. Mas quem resiste
a uma comida simples feita com ótimos ingredientes, no ponto certo e, acima
de tudo, com a grife Ferran Adrià? O hambúrguer (de 4 a 9 euros,
ou de 14 a 32 reais) é feito com pura carne bovina espanhola, com acompanhamentos
como tapenade, a pasta de azeitona preta, ou rúcula no lugar da previsível
alface. Outros sanduíches chamados de panini, como na Itália
levam presunto ibérico, berinjela, queijo brie, passas e outras
matérias-primas que não circulam em lanchonetes comuns. A salada
de parmesão tem o toque requintado de frutas vermelhas e as batatas são
fritas em azeite de oliva. Os sucos são de frutas "exóticas", como
lichia, maracujá e pêssego vermelho. Água mineral, só
Vichy e Perrier. Serve refrigerante, Coca-Cola inclusive. O café pode levar
creme de coco ou perfume de baunilha. Fotos
divulgação
 | | Hambúrguer,
panini e suco no Fast Good: ingredientes finos fiscalizados toda semana pelo mestre
|
"Só
aqui posso comer um cardápio assinado por Ferran Adrià sem gastar
um dinheirão", diz Miguel Moya, executivo que trabalha perto do restaurante
e já se tornou freguês por cerca de 17 euros (60 reais), faz
uma típica refeição espanhola, com entrada, prato principal,
bebida, sobremesa e café, "sem perder tempo nem qualidade e pagando metade
do que me cobraria um bom restaurante de Madri". Adrià considera inútil
pregar contra o fast-food mas também não quer apenas "brincar"
de fazer um hambúrguer particularmente divino, como outros grandes chefs
(veja quadro abaixo). O melhor, diz, é "estudar o adversário
e vencê-lo com suas próprias armas". Por vencer entenda-se fazer
melhor, como explicou a VEJA a gerente do Fast Good, Susana Acle: "Aqui cada hambúrguer
leva oito minutos para ser preparado, porque são 180 gramas de carne e
o cozinheiro respeita as preferências do cliente bem passado, ao
ponto, malpassado. A lanchonete de Adrià tem um componente self-service.
O cliente pega na prateleira os petiscos frios e a bebida, coloca em uma cestinha,
leva ao caixa, paga e escolhe o prato quente, o café e a sobremesa, que
são servidos na mesa por um garçom.
A decoração lembra a casa dos Jetsons, a família futurista
do desenho animado: num ambiente verde-abacate, fúcsia, azul e lilás,
o mobiliário mistura plástico, vidro, madeira e formas esféricas,
como as luminárias com jeitão anos 70 e as cadeiras de acrílico
nada muito diferente das lanchonetes moderninhas das grandes cidades brasileiras.
Os talheres são descartáveis, as toalhas são de papel. Uma
mesa alta, redonda, de oito lugares, é comunitária. "Antes de inaugurar
o restaurante, a equipe do Adrià passou meses aqui, treinando funcionários
e provando receitas. Agora, eles vêm supervisionar semanalmente", conta
Lucas Martínez, responsável pela comunicação do Fast
Good. Já receberam uns 300 pedidos de franquia, mas ainda não assinaram
nenhum contrato. "Não queremos nos expandir rápido demais, para
não perder a qualidade." Vão assinar, porém e a futura
rede tem ambições internacionais. No Brasil também? "Por
que não?", diz Martínez.  | | Salada
de parmesão: o diferencial está nas frutas vermelhas |
O MAIS CARO
O DB Bistro Moderne, em Nova
York, é procurado tanto pela comida quanto pela grife: o dono é
Daniel Boulud, chef do estreladíssimo Daniel. Gaba-se de servir o hambúrguer
mais caro do mundo 29 dólares (87 reais) o mais simplesinho, 50
dólares (150 reais), que leva foie gras e duas camadas de trufas negras.
"Se é para ter um bistrô, que seja o melhor da cidade", justificou
Boulud a VEJA, em visita ao Brasil na semana passada. | |
|