Edição 1877 . 27 de outubro de 2004

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Gastronomia
Adrià na chapa

O mago da cozinha espanhola abre
uma lanchonete em Madri. A surpresa:
tudo é bem convencional


Juliana Vale, de Madri

No mundo da gastronomia, o catalão Ferran Adrià, o dono do restaurante El Bulli, é reverenciado como divindade. Primeiro, pelo impacto revolucionário de sua culinária, uma festa-surpresa para os olhos e para o paladar, ao produzir ovos de café que explodem na boca, sorvetes quentes, raviólis líquidos, sopas em forma de bolha e croquetes com água do mar. Depois, pela aura de experiência quase religiosa que cerca uma ida ao El Bulli: só funciona de abril a setembro, só atende oitenta pessoas por noite (recebe cerca de 300.000 pedidos de reserva por ano), só serve um cardápio único – renovado com freqüência –, de 120 euros por pessoa, que inclui ao redor de trinta pratos pequenos (escolhidos pelo chef, não pelo cliente) e se encerra, muitas vezes, em aplausos. Por tudo isso, Adrià é hoje considerado não apenas a maior estrela culinária do planeta mas uma das 100 pessoas mais influentes do mundo, segundo uma lista da revista Time. Credita-se a ele, sozinho, a explosão de criatividade que colocou a cozinha espanhola no patamar das excelentes, ou até mesmo no topo da lista, como crêem muitos. Com esse histórico todo, o que seria de esperar quando Adrià põe seu nome estrelado à frente de uma lanchonete? Pois o chef resolveu surpreender de novo. A Fast Good (assim mesmo, em inglês algo ingênuo), serve um hambúrguer absolutamente convencional – nada de gelatinas ou espumas aqui – entre outros produtos "normais", digamos. O que ele pretende? Ganhar dinheiro, oras. "Preciso me concentrar no lado empresarial por dois ou três anos, para alcançar a liberdade criativa. Sou feliz quando cozinho. E, quando estou no El Bulli, não quero ter de pensar 'Será que já fiz bastante dinheiro hoje?' ", declarou por ocasião da inauguração do Fast Good.

Deu certo: a lanchonete da rede de hotéis NH, com Adrià à frente, aberta em março, em Madri, é um dos lugares mais freqüentados da cidade – e funciona como a vitrine de uma futura rede, onde, aí sim, o dinheiro começaria a jorrar. O serviço é meio lento e os preços são mais altos que os do McDonald's. Mas quem resiste a uma comida simples feita com ótimos ingredientes, no ponto certo e, acima de tudo, com a grife Ferran Adrià? O hambúrguer (de 4 a 9 euros, ou de 14 a 32 reais) é feito com pura carne bovina espanhola, com acompanhamentos como tapenade, a pasta de azeitona preta, ou rúcula no lugar da previsível alface. Outros sanduíches – chamados de panini, como na Itália – levam presunto ibérico, berinjela, queijo brie, passas e outras matérias-primas que não circulam em lanchonetes comuns. A salada de parmesão tem o toque requintado de frutas vermelhas e as batatas são fritas em azeite de oliva. Os sucos são de frutas "exóticas", como lichia, maracujá e pêssego vermelho. Água mineral, só Vichy e Perrier. Serve refrigerante, Coca-Cola inclusive. O café pode levar creme de coco ou perfume de baunilha.

 
Fotos divulgação
Hambúrguer, panini e suco no Fast Good: ingredientes finos fiscalizados toda semana pelo mestre

"Só aqui posso comer um cardápio assinado por Ferran Adrià sem gastar um dinheirão", diz Miguel Moya, executivo que trabalha perto do restaurante e já se tornou freguês – por cerca de 17 euros (60 reais), faz uma típica refeição espanhola, com entrada, prato principal, bebida, sobremesa e café, "sem perder tempo nem qualidade e pagando metade do que me cobraria um bom restaurante de Madri". Adrià considera inútil pregar contra o fast-food – mas também não quer apenas "brincar" de fazer um hambúrguer particularmente divino, como outros grandes chefs (veja quadro abaixo). O melhor, diz, é "estudar o adversário e vencê-lo com suas próprias armas". Por vencer entenda-se fazer melhor, como explicou a VEJA a gerente do Fast Good, Susana Acle: "Aqui cada hambúrguer leva oito minutos para ser preparado, porque são 180 gramas de carne e o cozinheiro respeita as preferências do cliente – bem passado, ao ponto, malpassado. A lanchonete de Adrià tem um componente self-service. O cliente pega na prateleira os petiscos frios e a bebida, coloca em uma cestinha, leva ao caixa, paga e escolhe o prato quente, o café e a sobremesa, que são servidos na mesa por um garçom.

A decoração lembra a casa dos Jetsons, a família futurista do desenho animado: num ambiente verde-abacate, fúcsia, azul e lilás, o mobiliário mistura plástico, vidro, madeira e formas esféricas, como as luminárias com jeitão anos 70 e as cadeiras de acrílico – nada muito diferente das lanchonetes moderninhas das grandes cidades brasileiras. Os talheres são descartáveis, as toalhas são de papel. Uma mesa alta, redonda, de oito lugares, é comunitária. "Antes de inaugurar o restaurante, a equipe do Adrià passou meses aqui, treinando funcionários e provando receitas. Agora, eles vêm supervisionar semanalmente", conta Lucas Martínez, responsável pela comunicação do Fast Good. Já receberam uns 300 pedidos de franquia, mas ainda não assinaram nenhum contrato. "Não queremos nos expandir rápido demais, para não perder a qualidade." Vão assinar, porém – e a futura rede tem ambições internacionais. No Brasil também? "Por que não?", diz Martínez.

 
Salada de parmesão: o diferencial está nas frutas vermelhas

 

O MAIS CARO

O DB Bistro Moderne, em Nova York, é procurado tanto pela comida quanto pela grife: o dono é Daniel Boulud, chef do estreladíssimo Daniel. Gaba-se de servir o hambúrguer mais caro do mundo – 29 dólares (87 reais) o mais simplesinho, 50 dólares (150 reais), que leva foie gras e duas camadas de trufas negras. "Se é para ter um bistrô, que seja o melhor da cidade", justificou Boulud a VEJA, em visita ao Brasil na semana passada.

 

 
 
 
 
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