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Comportamento
Quando aquele dia chega
Pesquisa mostra como as meninas de
hoje encaram a primeira menstruação.
E não é muito diferente de suas avós, não

Giuliana Bergamo
Roberto Setton
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| As amigas Fernanda (à esq.)
e Camila: vergonha de contar à família |
Ao longo da história, a menstruação
recebeu inúmeras conotações sempre negativas.
No século I, o pensador romano Plínio, o Velho, defendia
que nada poderia ser mais nocivo do que o fluxo menstrual. "Mulheres
menstruadas tornam o leite azedo e as sementes estéreis (...)
O olhar delas faz o espelho opaco, cega as lâminas, tira o
brilho do marfim", lê-se em sua enciclopédia História
Natural. Na Idade Média, a Igreja proibia as mulheres
menstruadas de comungar. Na Inglaterra vitoriana de meados do século
XIX, o mênstruo foi catalogado como enfermidade. Sob a ótica
das feministas, tratar o sangue menstrual como veneno, impureza
ou doença era uma forma de subjugar as mulheres e reprimir
a sexualidade feminina. Com a revolução de costumes
dos anos 60, o sexo e tudo relacionado a ele passou
a ser encarado com mais naturalidade. Era de esperar, portanto,
que as meninas de hoje passassem pela menarca mais tranqüilamente
do que suas avós e bisavós. Mas não. Menstruar
pela primeira vez é ainda uma experiência que acarreta
vergonha, medo e muita angústia. Toda essa inquietude foi
captada por uma pesquisa qualitativa do Instituto Ipsos, com meninas
entre 10 e 15 anos, de classes A e B, em quatro países da
América Latina Brasil, Argentina, Costa Rica e Colômbia.
"É impressionante como esse assunto continua um tabu, mesmo
para as jovens de agora", diz a psicóloga Andrea de Paula
Gallatti, uma das responsáveis pela análise dos dados
brasileiros.
A aura de segredo que paira sobre a primeira
menstruação nos dias atuais nada tem a ver com a falta
de informação das meninas de gerações
passadas. Antigamente, a maioria era pega de surpresa, não
entendia o que estava acontecendo. Muitas imaginavam-se doentes
ou vítimas de algum machucado sério. Hoje, não.
As adolescentes sabem, desde pequenas, o que é menstruação
uma mudança biológica natural que toda menina
saudável um dia enfrentará. Elas aprendem isso em
casa, geralmente com as mães, e na escola, durante as aulas
de educação sexual. Os prenúncios da menarca
costumam se manifestar dois anos antes de ela ocorrer. O corpo ganha
formas arredondadas, os seios se avolumam e os pêlos pubianos
começam a crescer. Ainda assim, quando o dia chega, é
um drama (veja quadro).
Um dos fatores mais importantes para a manutenção
do tabu em torno da primeira menstruação é
que as meninas estão menstruando cada vez mais cedo
e, quanto menores elas são, mais intensas são suas
aflições. "Hoje é normal uma menina de 8 anos
ter seios e menstruar com 9 ou 10 anos", diz Maurício de
Souza Lima, hebiatra do Hospital das Clínicas de São
Paulo. Na cabecinha dessas meninas, é uma confusão
só. Do ponto de vista físico, elas já são
mulheres. Mas continuam crianças no que se refere a seus
anseios e preocupações. Muitas têm a clara percepção
desse descompasso. Uma das frases mais repetidas pelas garotas brasileiras
ouvidas no levantamento do Ipsos foi: "De repente, eu virei mulher,
mas continuava com vontade de brincar como criança".
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| Cenas das novelas Senhora do Destino, Malhação
e Celebridade: exposição a cenas de erotismo
contribui para a menarca precoce |
A menarca precoce é uma característica
da vida moderna. Durante o último século, a idade
média em que ocorre a primeira menstruação
caiu de 16 para 12 anos. Um dos fatores mais importantes para essa
redução é o aumento da exposição
das meninas a cenas de erotismo desde muito pequenas (veja
quadro). O bombardeio de mensagens desse tipo sobre
as meninas ativa uma região do cérebro responsável
pelas emoções e pelos impulsos sexuais. A produção
de hormônios sexuais aumenta e, com isso, é acelerada
a vinda da primeira menstruação.
A estudante Fernanda Campi Sophia, de 16 anos,
menstruou pela primeira vez aos 11. Nenhuma colega ainda tinha passado
pela experiência. "Eu não quis contar para ninguém",
diz ela. "Pior foi quando meu pai soube: ele até chorou."
Além da vergonha, Fernanda sentiu-se responsável pelo
que parecia ser um sofrimento para o pai. "Fiquei com medo de que
ele achasse que estava me perdendo, que eu não dependeria
mais dele e que poderia até engravidar." O choro do pai,
na verdade, era por pura emoção. Encarar com naturalidade
a primeira menstruação da filha não é
fazer festa, dar presentes, muito menos oferecer rosas. É
não fazer alarde em torno do assunto, para evitar constrangimentos.
Camila Castro de Toledo, de 15 anos, amiga de Fernanda, menstruou
pela primeira vez dois anos atrás. Ela só contou para
a mãe, Lucila, e pediu segredo. Lucila não conteve
a felicidade e espalhou a notícia para toda a família
uma família, diga-se, predominantemente masculina.
"Todos vieram me cumprimentar e brincar comigo", lembra Camila.
"Eu sei que estavam contentes por mim, mas fiquei muito brava."
E com razão. "A menarca é um acontecimento muito íntimo
e, por isso, deve ser respeitado", diz a psicóloga Célia
Horta, especialista em adolescentes. Por respeito entenda-se estar
sempre pronto para uma conversa franca, mas sem forçar nenhuma
situação. Por exemplo: se a menina, ainda que num
calorão danado, insistir em sair de casa com um casaco amarrado
à cintura, deixe. Essa é uma das formas mais comuns
de as meninas lidarem com a novidade. Proferir frases do tipo "não
estamos mais no tempo da sua avó" ou "pare com essa frescura"
tende a aumentar a angústia da garota e fazê-la demorar
a encarar a menstruação com naturalidade o
que pode, segundo os especialistas, vir a comprometer a qualidade
de sua vida sexual.
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