Edição 1877 . 27 de outubro de 2004

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Comportamento
Quando aquele dia chega

Pesquisa mostra como as meninas de
hoje encaram a primeira menstruação.
E não é muito diferente de suas avós, não


Giuliana Bergamo


Roberto Setton
As amigas Fernanda (à esq.) e Camila: vergonha de contar à família

Ao longo da história, a menstruação recebeu inúmeras conotações – sempre negativas. No século I, o pensador romano Plínio, o Velho, defendia que nada poderia ser mais nocivo do que o fluxo menstrual. "Mulheres menstruadas tornam o leite azedo e as sementes estéreis (...) O olhar delas faz o espelho opaco, cega as lâminas, tira o brilho do marfim", lê-se em sua enciclopédia História Natural. Na Idade Média, a Igreja proibia as mulheres menstruadas de comungar. Na Inglaterra vitoriana de meados do século XIX, o mênstruo foi catalogado como enfermidade. Sob a ótica das feministas, tratar o sangue menstrual como veneno, impureza ou doença era uma forma de subjugar as mulheres e reprimir a sexualidade feminina. Com a revolução de costumes dos anos 60, o sexo – e tudo relacionado a ele – passou a ser encarado com mais naturalidade. Era de esperar, portanto, que as meninas de hoje passassem pela menarca mais tranqüilamente do que suas avós e bisavós. Mas não. Menstruar pela primeira vez é ainda uma experiência que acarreta vergonha, medo e muita angústia. Toda essa inquietude foi captada por uma pesquisa qualitativa do Instituto Ipsos, com meninas entre 10 e 15 anos, de classes A e B, em quatro países da América Latina – Brasil, Argentina, Costa Rica e Colômbia. "É impressionante como esse assunto continua um tabu, mesmo para as jovens de agora", diz a psicóloga Andrea de Paula Gallatti, uma das responsáveis pela análise dos dados brasileiros.

A aura de segredo que paira sobre a primeira menstruação nos dias atuais nada tem a ver com a falta de informação das meninas de gerações passadas. Antigamente, a maioria era pega de surpresa, não entendia o que estava acontecendo. Muitas imaginavam-se doentes ou vítimas de algum machucado sério. Hoje, não. As adolescentes sabem, desde pequenas, o que é menstruação – uma mudança biológica natural que toda menina saudável um dia enfrentará. Elas aprendem isso em casa, geralmente com as mães, e na escola, durante as aulas de educação sexual. Os prenúncios da menarca costumam se manifestar dois anos antes de ela ocorrer. O corpo ganha formas arredondadas, os seios se avolumam e os pêlos pubianos começam a crescer. Ainda assim, quando o dia chega, é um drama (veja quadro). Um dos fatores mais importantes para a manutenção do tabu em torno da primeira menstruação é que as meninas estão menstruando cada vez mais cedo – e, quanto menores elas são, mais intensas são suas aflições. "Hoje é normal uma menina de 8 anos ter seios e menstruar com 9 ou 10 anos", diz Maurício de Souza Lima, hebiatra do Hospital das Clínicas de São Paulo. Na cabecinha dessas meninas, é uma confusão só. Do ponto de vista físico, elas já são mulheres. Mas continuam crianças no que se refere a seus anseios e preocupações. Muitas têm a clara percepção desse descompasso. Uma das frases mais repetidas pelas garotas brasileiras ouvidas no levantamento do Ipsos foi: "De repente, eu virei mulher, mas continuava com vontade de brincar como criança".

Cenas das novelas Senhora do Destino, Malhação e Celebridade: exposição a cenas de erotismo contribui para a menarca precoce

A menarca precoce é uma característica da vida moderna. Durante o último século, a idade média em que ocorre a primeira menstruação caiu de 16 para 12 anos. Um dos fatores mais importantes para essa redução é o aumento da exposição das meninas a cenas de erotismo desde muito pequenas (veja quadro). O bombardeio de mensagens desse tipo sobre as meninas ativa uma região do cérebro responsável pelas emoções e pelos impulsos sexuais. A produção de hormônios sexuais aumenta e, com isso, é acelerada a vinda da primeira menstruação.

A estudante Fernanda Campi Sophia, de 16 anos, menstruou pela primeira vez aos 11. Nenhuma colega ainda tinha passado pela experiência. "Eu não quis contar para ninguém", diz ela. "Pior foi quando meu pai soube: ele até chorou." Além da vergonha, Fernanda sentiu-se responsável pelo que parecia ser um sofrimento para o pai. "Fiquei com medo de que ele achasse que estava me perdendo, que eu não dependeria mais dele e que poderia até engravidar." O choro do pai, na verdade, era por pura emoção. Encarar com naturalidade a primeira menstruação da filha não é fazer festa, dar presentes, muito menos oferecer rosas. É não fazer alarde em torno do assunto, para evitar constrangimentos. Camila Castro de Toledo, de 15 anos, amiga de Fernanda, menstruou pela primeira vez dois anos atrás. Ela só contou para a mãe, Lucila, e pediu segredo. Lucila não conteve a felicidade e espalhou a notícia para toda a família – uma família, diga-se, predominantemente masculina. "Todos vieram me cumprimentar e brincar comigo", lembra Camila. "Eu sei que estavam contentes por mim, mas fiquei muito brava." E com razão. "A menarca é um acontecimento muito íntimo e, por isso, deve ser respeitado", diz a psicóloga Célia Horta, especialista em adolescentes. Por respeito entenda-se estar sempre pronto para uma conversa franca, mas sem forçar nenhuma situação. Por exemplo: se a menina, ainda que num calorão danado, insistir em sair de casa com um casaco amarrado à cintura, deixe. Essa é uma das formas mais comuns de as meninas lidarem com a novidade. Proferir frases do tipo "não estamos mais no tempo da sua avó" ou "pare com essa frescura" tende a aumentar a angústia da garota e fazê-la demorar a encarar a menstruação com naturalidade – o que pode, segundo os especialistas, vir a comprometer a qualidade de sua vida sexual.





 
 
 
 
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