Edição 1877 . 27 de outubro de 2004

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Militares
O pastelão da semana

Com fotos que não eram as fotos
e nota que não era a nota, Brasília
vive uma crise militar real


Otávio Cabral

 
Reprodução/Correio Braziliense
O homem nu: de jornalista a padre canadense em apenas cinco dias

Brasília viveu, na semana passada, um enredo de pastelão tão completo que, escrito em ficção, talvez carecesse de verossimilhança – mas aconteceu de verdade. No domingo 17, o jornal Correio Braziliense divulgou três fotos que seriam do jornalista Vladimir Herzog, feitas horas antes de ser assassinado por seus captores, em 1975, em um porão do Exército durante o regime militar. Em resposta, o Exército lançou uma nota em que justifica a tortura quando usada contra "a violência dos que recusaram o diálogo e optaram pelo radicalismo e pela ilegalidade". A nota não esquece de mencionar que durante os anos em que os militares governaram o Brasil a economia cresceu e a infra-estrutura do país foi modernizada. Não bastasse admitir a tese abominável de que para combater o terrorismo é aceitável montar um aparato de terror dentro do Estado, a nota sugere que, se o preço do sucesso econômico foi a violação de direitos humanos, saiu barato. Acontece que nada era o que parecia ser. Cinco dias depois, soube-se que as fotos muito provavelmente nem eram de Herzog, mas de um padre canadense que morou vinte anos no Brasil e, tendo escapado da morte, fora vítima de humilhação semelhante à que passou o jornalista. A nota acabou substituída por outra, divulgada dois dias depois, na qual o comandante do Exército, general Francisco Albuquerque, ainda iludido pela confusão fotográfica, chega a respeitosamente lamentar a morte do preso.

Com fotos que não eram as fotos e nota que não era a nota, o pastelão da semana passada produziu uma crise real. O presidente Lula exigiu uma segunda versão. E exigiu também que ela ressaltasse o compromisso dos militares com a democracia. O general Francisco Albuquerque desculpou-se dizendo que não vira o conteúdo da primeira nota porque se encontrava em viagem ao exterior e, prontamente, lançou a segunda versão nos termos ditados pelo presidente. Assim, Lula superou o caso com firmeza e rapidez.

Roberto Castro/AE
O general Albuquerque: ele disse que não sabia da nota, mas sabia, sim


As razões para a divulgação da primeira nota equivocada do Exército ficaram escamoteadas. O general Francisco Albuquerque conhecia o teor do texto original. Na sexta-feira 15, dois dias antes da divulgação da nota, ele estava em Nova York e recebeu, por fax, uma cópia, enviada pelo general Antônio Gabriel Esper, comandante do Centro de Comunicação Social do Exército. Horas mais tarde, o general Francisco Albuquerque telefonou a seu subordinado autorizando a publicação. O presidente Lula, que publicamente aceitou a versão de que o general Albuquerque nada sabia, foi informado do trâmite verdadeiro do documento. Chegou, inclusive, a convocar uma reunião na terça-feira para discutir a demissão do general e de seu chefe, o ministro José Viegas, da Defesa. Na reunião, os ministros da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e da Secretaria de Comunicação, Luiz Gushiken, defenderam a imediata demissão de ambos. O ministro da Casa Civil, José Dirceu, argumentou que a demissão geraria um rebuliço na caserna e, conciliatório, acabou salvando a cabeça da dupla da guilhotina. Pastelão que se preza acaba em pizza.

 
 
 
 
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