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Militares O
pastelão da semana Com
fotos que não eram
as fotos e nota que não era a nota, Brasília vive uma crise
militar real  Otávio
Cabral
Reprodução/Correio
Braziliense
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homem nu: de jornalista
a padre canadense em apenas cinco dias |
Brasília
viveu, na semana passada, um enredo de pastelão tão completo que,
escrito em ficção, talvez carecesse de verossimilhança
mas aconteceu de verdade. No domingo 17, o jornal Correio Braziliense divulgou
três fotos que seriam do jornalista Vladimir Herzog, feitas horas antes
de ser assassinado por seus captores, em 1975, em um porão do Exército
durante o regime militar. Em resposta, o Exército lançou uma nota
em que justifica a tortura quando usada contra "a violência dos que recusaram
o diálogo e optaram pelo radicalismo e pela ilegalidade". A nota não
esquece de mencionar que durante os anos em que os militares governaram o Brasil
a economia cresceu e a infra-estrutura do país foi modernizada. Não
bastasse admitir a tese abominável de que para combater o terrorismo é
aceitável montar um aparato de terror dentro do Estado, a nota sugere que,
se o preço do sucesso econômico foi a violação de direitos
humanos, saiu barato. Acontece que nada era o que parecia ser. Cinco dias depois,
soube-se que as fotos muito provavelmente nem eram de Herzog, mas de um padre
canadense que morou vinte anos no Brasil e, tendo escapado da morte, fora vítima
de humilhação semelhante à que passou o jornalista. A nota
acabou substituída por outra, divulgada dois dias depois, na qual o comandante
do Exército, general Francisco Albuquerque, ainda iludido pela confusão
fotográfica, chega a respeitosamente lamentar a morte do preso. Com
fotos que não eram as fotos e nota que não era a nota, o pastelão
da semana passada produziu uma crise real. O presidente Lula exigiu uma segunda
versão. E exigiu também que ela ressaltasse o compromisso dos militares
com a democracia. O general Francisco Albuquerque desculpou-se dizendo que não
vira o conteúdo da primeira nota porque se encontrava em viagem ao exterior
e, prontamente, lançou a segunda versão nos termos ditados pelo
presidente. Assim, Lula superou o caso com firmeza e rapidez.
Roberto
Castro/AE
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general Albuquerque: ele disse que não sabia da nota, mas sabia, sim |
As
razões para a divulgação da primeira nota equivocada do Exército
ficaram escamoteadas. O general Francisco Albuquerque conhecia o teor do texto
original. Na sexta-feira 15, dois dias antes da divulgação da nota,
ele estava em Nova York e recebeu, por fax, uma cópia, enviada pelo general
Antônio Gabriel Esper, comandante do Centro de Comunicação
Social do Exército. Horas mais tarde, o general Francisco Albuquerque telefonou
a seu subordinado autorizando a publicação. O presidente Lula, que
publicamente aceitou a versão de que o general Albuquerque nada sabia,
foi informado do trâmite verdadeiro do documento. Chegou, inclusive, a convocar
uma reunião na terça-feira para discutir a demissão do general
e de seu chefe, o ministro José Viegas, da Defesa. Na reunião, os
ministros da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, e da Secretaria de Comunicação,
Luiz Gushiken, defenderam a imediata demissão de ambos. O ministro da Casa
Civil, José Dirceu, argumentou que a demissão geraria um rebuliço
na caserna e, conciliatório, acabou salvando a cabeça da dupla da
guilhotina. Pastelão que se preza acaba em pizza.
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