|
|
Parlamento
Vende-se uma CPI O
caso do deputado que tentou extorquir 4 milhões de reais de Carlos
Cachoeira, oferecendo proteção em uma CPI. Seu
azar: os interlocutores gravaram todos os diálogos 
Policarpo Junior
Fotos Ana Araujo  |
"São quarenta deputados, a 100 cada
um, dá 4 milhões. Quando acabar a votação a gente
chama os caras. Divide em dois (pagamentos). Na primeira votação,
xis. Na segunda votação, o restante." Do deputado
André Luiz (foto menor), dizendo quanto custará a Carlos
Cachoeira (foto maior) para subornar metade da Assembléia Legislativa
do Rio | Durante
os últimos sete meses, deputados da Assembléia Legislativa do Rio
de Janeiro esmiuçaram os meandros do mais barulhento escândalo do
governo Lula aquele em que Waldomiro Diniz, ex-assessor do ministro José
Dirceu, foi flagrado pedindo propina ao empresário Carlos Cachoeira. Nesse
período, a CPI ouviu sessenta depoentes, analisou documentos e produziu
um relatório de 296 páginas, cuja capa é enfeitada por um
desenho festivamente exótico de aviões, mesa de negociações
e maços de dinheiro. No relatório, lê-se que a CPI descobriu
a existência de crimes de corrupção e formação
de quadrilha e pediu a prisão preventiva da dupla Waldomiro Diniz e Carlos
Cachoeira. A próxima etapa é submeter o relatório ao plenário
da Assembléia Legislativa. Nesses sete meses, em paralelo à investigação,
aconteceu uma negociação subterrânea na qual o resultado da
CPI, que o público em boa-fé acredita ser sagrado, foi colocado
no pano verde por alguns de seus responsáveis. No início, negociou-se
a CPI por 1 milhão de dólares. Depois, o preço caiu para
750 000 dólares. Nos últimos tempos, a quantia passou a ser cotada
em moeda nacional, mas mesmo assim subiu muito.
Agora vai custar 4 milhões de reais exigiu o deputado André
Luiz, do PMDB do Rio de Janeiro, numa conversa na noite de 16 de setembro, em
sua residência no Lago Sul, bairro nobre de Brasília. O deputado
André Luiz estava à vontade. Vestia bermuda e camiseta e calçava
um par de chinelos. A conversa deu-se na sala de televisão, onde a peça
de decoração que mais chama atenção é um tapete
branco com cara de urso. Era noite alta, a televisão exibia o programa
Linha Direta, da Rede Globo, e o volume estava excessivamente alto, pois
o deputado parecia querer evitar que qualquer microfone captasse a conversa. Seu
interlocutor, porém, era o publicitário Alexandre Chaves, sócio
de Carlos Cachoeira, que registrou tudo com um gravador digital escondido no bolso
do paletó. "Meu objetivo era reunir provas de que estávamos sendo
vítimas de uma tentativa de extorsão", explica Alexandre Chaves.
Na conversa, o publicitário quis saber a razão do aumento para 4
milhões de reais. Sem constrangimento, o deputado André Luiz explicou
que, agora, o relatório da CPI será examinado no plenário
da Assembléia e, para mudá-lo, será preciso obter a maioria
dos votos de um total de setenta deputados.
Ana Araujo  |
| A casa do deputado André Luiz no Lago Sul, em
Brasília: ali, bem à vontade, de bermuda e camiseta, o parlamentar
pediu 4 milhões de reais |
São quarenta deputados a 100 cada um. Dá 4 milhões.
É antiga a suspeita de que algumas
CPIs degeneram em gazuas para parlamentares desonestos, que as usam para chantagear
e extorquir suspeitos. Mas é a primeira vez que se revelam os bastidores
de uma negociação entre deputados e suas vítimas para moldar
o resultado de um inquérito parlamentar. Nas últimas oito semanas,
VEJA apurou o caso e trouxe à tona uma transação minuciosa
e despudorada, na qual se fala desinibidamente de corrupção. A revista
teve acesso a mais de cinco horas de gravações feitas por emissários
de Carlos Cachoeira, que negociaram o preço da extorsão com o deputado
federal André Luiz e o deputado estadual Alessandro Calazans, do Partido
Verde, presidente da CPI na Assembléia do Rio. Além das gravações,
VEJA entrevistou acusadores e acusados. A soma de entrevistas e gravações
desnuda uma história que compromete deputados estaduais e um federal que
mantêm laços políticos com o ex-governador Anthony Garotinho
e abre algumas conexões estranhas com o Palácio do Planalto em Brasília
especificamente, com a Casa Civil, comandada pelo ministro José
Dirceu.
Fabio Motta/AE  | Bruno
Stuckert/Folha Imagem  |
| Marcelo Sereno (à esq.) e Waldomiro
Diniz, que foram colegas de trabalho na Casa Civil: Sereno nem chegou a ser chamado
a depor | As abordagens do
deputado André Luiz começaram uma semana depois da instalação
da CPI na Assembléia do Rio, em março passado. Seu bote inicial
foi no advogado Celso d'Ávila, que trabalhava para Carlos Cachoeira e já
foi sócio de um escritório com o ex-ministro Maurício Corrêa,
do Supremo Tribunal Federal. O deputado telefonou para o advogado e convidou-o
a ir à sua casa no Lago Sul. Na conversa, foi direto ao assunto. Disse
que a CPI recém-instalada seria muito dura com Cachoeira, mas que seus
amigos poderiam evitar que o nome do empresário aparecesse no rol dos indiciados
no relatório final. O preço para tanto: 1 milhão de dólares.
A certa altura, enquanto o deputado e o advogado conversavam, outro personagem
apareceu na sala. Era o deputado Alessandro Calazans, presidente da CPI. "Sempre
que Calazans vem a Brasília, ele dorme aqui na minha casa", explicou André
Luiz, querendo, na verdade, certificar o advogado de que tinha tanto poder sobre
a CPI que até hospedava seu presidente. "Meu advogado me relatou a conversa,
disse que era uma tentativa de extorsão e que não negociássemos
nada", conta Cachoeira. Desse momento
em diante, a transação passou por diversas etapas. Querendo recolher
evidências da extorsão, os emissários de Cachoeira se empenharam
em simular interesse na negociação. Regatearam o preço. Conseguiram
reduzir a mordida para 750.000 dólares, equivalente
a 2,2 milhões de reais. Mas, como não houve pagamento, o relatório
final saído da CPI acabou pedindo a prisão preventiva de Cachoeira.
Agora, prestes a ser submetido ao plenário, o preço voltou a subir
para 4 milhões de reais. "Vocês vacilaram muito", advertiu André
Luiz numa conversa com emissários de Cachoeira. "Antes, era 1 milhão
de dólares, 3 milhões de reais..." Na conversa de 16 de setembro,
André Luiz explica que nem todos os deputados recebem a mesma quantia.
É 100.000 reais por cabeça em média.
Conforme a versão que ele deu ao pessoal de Cachoeira, os presidentes de
comissão e líderes de bancada, por exemplo, ganham um pouco mais.
Os que se limitam a votar como quer o comprador recebem um pouco menos. A divisão
desigual não costuma gerar desavença. "É tudo fácil.
Não tem nada difícil ali", comentou André Luiz, que já
exerceu dois mandatos de deputado estadual.
Ricardo Leoni/Ag. O Globo  | Ana
Araujo  |
| Deputado Picciani (à esq.), presidente
da Assembléia do Rio, e Bispo Rodrigues, que soube de tudo e denunciou
a extorsão | O deputado
André Luiz foi a detalhes. "Quando acabar a votação a gente
chama os caras. Divide em dois (pagamentos). Na primeira votação,
xis. Na segunda votação, o restante." André Luiz informa
que o pagamento poderia ser feito no gabinete da deputada estadual Eliana Ribeiro,
do PMDB, sua esposa. Para chegar aos quarenta deputados que teriam de ser remunerados,
André Luiz explica que algum dinheiro também precisa ser destinado
aos deputados que vão anunciar voto contrário. A encenação
é assim: eles votam contra, fazem barulho, satisfazem suas bases, mas são
remunerados por baixo do pano para que estejam no plenário garantindo quórum
mínimo. "Quem vota contra ganha um pouquinho menos", contabiliza André
Luiz. Para tranqüilizar seu interlocutor, ele promete que, na hora certa,
deixará Brasília e desembarcará no Rio para acompanhar a
votação. "Vou sentar no gabinete da minha esposa e ficar manipulando
as coisas, chamando fulano, sicrano."
No curso das negociações, André Luiz contou aos homens de
Cachoeira que o presidente da Assembléia Legislativa do Rio, o deputado
Jorge Picciani, do PMDB, também participa do esquema, mas tem mais interesses
na área federal. Explicou que, devido aos interesses federais de Picciani,
a CPI logo arrolou dois personagens para ouvir. Um era Rogério Buratti,
ex-secretário do ex-prefeito Antonio Palocci e acusado de pedir propina
a uma multinacional para intermediar um contrato com a Caixa Econômica Federal.
Buratti chegou a ser convocado para depor na CPI, não apareceu e nunca
ninguém reclamou. O outro personagem era Marcelo Sereno, que fora colega
de Waldomiro Diniz e, na época, ainda trabalhava na Casa Civil. "Picciani
sabe que o Marcelo Sereno era caixa do PT no Rio e, se aproveitando disso, negociou
cargos para que ele não fosse convocado", explicou André Luiz, numa
conversa na manhã do dia 17 de setembro, em Brasília. O nome de
Marcelo Sereno apareceu no rol dos indiciados, mas acabou sumindo depois de uma
sessão secreta da CPI. "Picciani não tem nenhum cargo no governo
federal", garantiu Marcelo Sereno.
A idéia de propor a convocação de Marcelo Sereno foi apresentada
pelo deputado estadual Paulo Ramos, do PDT. "O Picciani foi quem mandou o Paulo
Ramos pedir a convocação", contou André Luiz. Mas, numa sessão
secreta, realizada em 31 de março, o requerimento foi indeferido de goleada
9 votos contra 1. "Logo depois disso houve duas nomeações
negociadas diretamente com a Casa Civil. Uma para um fundo de pensão e
outra numa estatal", detalha André Luiz. A próxima bala de Picciani
parece já ter sido colocada na agulha. O Supremo Tribunal Federal autorizou
a CPI a quebrar o sigilo bancário de Waldomiro Diniz. Picciani, de acordo
com os comentários de André Luiz feitos durante uma conversa gravada,
estaria esfregando as mãos para trabalhar com a ameaça de vasculhar
as contas bancárias do ex-assessor do ministro José Dirceu. "O Waldomiro
era um dos caixas do José Dirceu, todos sabem disso, Picciani sabe."
Apesar das evidências de que o deputado
André Luiz tinha ascendência sobre os deputados estaduais envolvidos
na CPI, os emissários de Cachoeira resolveram pedir provas concretas de
seu poder de entregar a mercadoria que estava oferecendo. Pediram três coisas:
que o depoimento de Cachoeira fosse tomado em Goiânia, e não no Rio;
que duas testemunhas escolhidas por Cachoeira fossem convocadas para depor na
CPI; e que uma lista de perguntas, previamente preparadas por Cachoeira, fosse
feita às testemunhas durante o depoimento. André Luiz então
provou que realmente mandava no pedaço. No dia 5 de abril passado, os membros
da CPI desembarcaram em Goiânia para tomar o depoimento de Cachoeira. As
duas testemunhas indicadas foram devidamente convocadas. Uma delas, Messias Ribeiro
Neto, ex-sócio de Cachoeira, depôs em 30 de março. A outra,
Carlos Martins, um empresário em Goiás, compareceu à CPI
em 20 de maio. E as cerca de quinze perguntas redigidas pelos advogados de Cachoeira
foram integralmente formuladas às testemunhas por membros da CPI.
Houve um momento em que a negociação
pareceu correr o risco de desandar. O deputado federal Bispo Rodrigues, do PL
do Rio, soube dos achaques no âmbito da CPI e resolveu denunciar. Em conversa
com Picciani, seu amigo e presidente da Assembléia, o deputado Bispo Rodrigues
contou o que sabia. Picciani comentou que o deputado André Luiz "vivia
fazendo isso" quando tinha mandato na Assembléia Legislativa. "Ainda bem
que ele foi para Brasília", disse. Passaram-se duas semanas e nada. Bispo
Rodrigues voltou a Picciani para reforçar a denúncia e seu pedido
de providências. De novo, nada. "Fiz o que minha consciência mandou.
Não quero mais falar sobre esse assunto", disse a VEJA o deputado Bispo
Rodrigues. Em Brasília, o deputado André Luiz soube da denúncia
de Bispo Rodrigues graças à amizade com Picciani. "Picciani me disse
que o bispo esteve com ele. O bispo contou tudo. Imagina se o Picciani não
fosse meu irmão, meu parceiro. Se é outra pessoa, essa p.... tinha
explodido para a imprensa", disse ele, na conversa de 17 de setembro. "Nós
formamos um grupo só: Sérgio Cabral, Picciani, eu, Calazans, Paulo
Melo." Referia-se ao senador Sérgio Cabral (PMDB-RJ) e aos deputados Picciani,
presidente da Assembléia, Alessandro Calazans, que preside a CPI, e Paulo
Melo, relator da CPI. Numa negociação,
não é incomum que o vendedor, no afã de parecer merecedor
do dinheiro e da confiança de seu interlocutor, acabe garganteando vantagens
que não tem. Pode ser que, no incontido desejo de colocar a mão
no dinheiro, o deputado André Luiz tenha inventado que participa de um
grupo influente. As relações entre eles são inequívocas.
Em suas viagens a Brasília, os deputados Alessandro Calazans e Paulo Melo
costumam ficar hospedados na residência de André Luiz.
Vamos fechar 100 agora e 100 depois.
A frase acima apareceu no último encontro entre André Luiz e auxiliares
de Cachoeira. Foi no dia 6 de outubro passado, à tarde, no gabinete do
deputado. André Luiz estava nervoso. Seu filho, conhecido como Andrezinho,
candidato a vereador no Rio, perdera a eleição por apenas 1 000
votos e sua campanha deixara dívidas na praça. Em meio ao nervosismo,
o deputado André Luiz contou que estava marcado o encontro com Calazans
para concluir a negociação dos 4 milhões de reais e retirar
o pedido de prisão preventiva de Cachoeira do relatório da CPI
mas exigiu que, desta vez, antes de qualquer movimento, fosse feito um adiantamento
de 200.000 reais, com metade à vista e metade
depois da reunião. "Estou precisando resolver um negócio", disse
ele, referindo-se às dívidas de campanha do filho. "Preciso de 100.000
de pronto. Essa é a minha proposta." Em tom nervoso, despachou uma ameaça
a Cachoeira. "Se ele não aceitar, vai perder muito mais do que isso."
A biografia de André Luiz já
se cruzou antes com episódios semelhantes. Como atuante membro da Comissão
de Defesa do Consumidor na Câmara Federal, André Luiz conseguiu aprovar
a convocação de todos os presidentes de empresas de telefonia. Dias
depois dessa decisão, as companhias começaram a ser vítimas
de achaque. Os rumores de que por trás das tentativas de extorsão
estava o deputado André Luiz chegaram ao presidente da Câmara, deputado
João Paulo Cunha, e ao então líder do PMDB, deputado Eunício
Oliveira. Por precaução, Eunício afastou André Luiz
da comissão do consumidor, mas o deputado conseguiu voltar a integrá-la
mais tarde. Os deputados cujas vozes aparecem nas gravações foram
ouvidos por VEJA. Por meio de uma nota, Jorge Picciani, presidente da Assembléia,
desmente que tenha sido alertado por Bispo Rodrigues de que membros da CPI estavam
se envolvendo em corrupção. "Isso é uma piada. O relatório
não protege Cachoeira. Agora, se o André Luiz tomou dinheiro de
alguém não tenho nada a ver com isso", reagiu Alessandro Calazans,
presidente da CPI. O principal protagonista das fitas, o deputado federal André
Luiz, fez sua defesa: "Eu estou em Brasília. Não tenho nada a ver
com a Assembléia do Rio. Faz muito tempo que não falo com o Picciani.
Ele está ligado ao Garotinho. Eu, ao governo federal". As fitas a que a
revista teve acesso foram periciadas e sua autenticidade confirmada.
| "Picciani
foi quem mandou convocar
(Marcelo Sereno).
Logo depois disso, houve
duas nomeações
negociadas diretamente
com a Casa Civil." Do
deputado André Luiz, ao
comentar que Jorge Picciani, presidente da
Assembléia do Rio, fez pressão
na área federal
"Imagina
se o Picciani não fosse
meu irmão, meu parceiro.
Se é outra pessoa,
essa p... tinha explodido
para a imprensa."
Do deputado André Luiz, festejando o fato de Bispo Rodrigues
tê-lo denunciado justamente para seu amigo Picciani "Logo
depois do primeiro turno das
eleições, vou marcar
uma reunião no
escritório. Vou chamar o
Calazans (presidente da
CPI). Ele vai ajudar." Do
deputado André Luiz, agendando encontro com emissário de Cachoeira para negociar
pagamento de 4 milhões de reais | |
|