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Em
foco: Gustavo Franco O
crédito público e os juros
"Para
todo problema econômico de grande
complexidade
sempre existe uma solução muito
simples, e errada"
O crédito público diz respeito à capacidade do nosso governo
de cumprir obrigações financeiras com quem quer que seja, inclusive
e principalmente com os próprios cidadãos.
O assunto é da maior importância porque está na raiz de uma
grande questão nacional, talvez a mais importante e polêmica dos
últimos anos: as taxas de juros. O pensamento dominante sobre o assunto
adota a tese de que os juros são excepcionalmente altos no Brasil porque
o crédito público é muito ruim. Mas há os que pensam
ao contrário, os heterodoxos principalmente, segundo os quais o crédito
público é ruim porque os juros são altos.
Onde está a razão? Ou será um problema de ovo e galinha?
A tese heterodoxa
em muito se parece, em sua lógica, com a famosa "teoria" (de triste memória)
segundo a qual a inflação brasileira era "apenas inercial", o que
servia para dizer que não tinha nenhuma "causa fundamental", que existia
hoje apenas porque existiu ontem, e poderia ser eliminada facilmente por um "truque",
a "desindexação".
A tese ortodoxa, e vitoriosa, era simples como a inexistência de Papai Noel:
não há "empobrecimento sem causa". A inflação, como
qualquer patologia econômica, devia ter causas fundamentais, cuja eliminação
era essencial para curar a doença.
Pois bem, essa é uma história antiga, mas que parece se repetir
nesse assunto dos juros e do crédito público. Se a tese heterodoxa
fosse verdadeira, bastaria alguém tão inteligente quanto os que
acreditam na "teoria da inflação inercial" assumir o Banco Central
e fixar os juros em 12%, ou 8%, ou 5%, por que não? e tudo
estaria resolvido. Fácil como fixar o salário mínimo em 500
dólares. Se
é tão simples, por que será que nunca se fez?
Ilustração
Ale Setti
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Nosso
ex-ministro Pedro Malan tinha, para essa pergunta, uma excelente resposta: para
todo problema econômico de grande complexidade sempre existe uma solução
muito simples, e errada. É claro que o crédito público é
ruim por razões que transcendem os juros altos. O governo brasileiro, ao
longo de nossa história, e mesmo nos anos recentes, tem um desempenho péssimo
em matéria de cumprimento de suas obrigações financeiras,
e por isso as pessoas que emprestam dinheiro ao governo apenas o fazem cobrando
16,75% ao ano com prazo de um dia. Quem é que acha bom emprestar a um mau
pagador?
Um estudo
recente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) sobre o que seus pesquisadores
chamaram de "caloteiros seriais" revela que o Brasil deu cinco "calotes" em sua
dívida externa no século XX (em 1902, 1914, 1931, 1937 e 1983),
um a cada vinte anos em média. Mas, apesar do esforço, não
fomos os primeiros nesse triste ranking porque quatro outros países aplicaram
seis "calotes" no mesmo período: Equador, Turquia, Libéria e Uruguai.
Como ficar surpreso
em ver o Brasil pagar "prêmios de risco" altíssimos, entre os maiores
do mundo, quando vai tomar dinheiro emprestado no exterior?
Dentro de casa, quando se trata de dívida interna carregada por cidadãos
brasileiros, o registro é ainda pior, e não precisamos recuar no
tempo além dos planos econômicos iniciados com o Cruzado, em 1986.
Uma agência classificadora de risco contou três "calotes" na dívida
interna desde então, mas gentilmente observou apenas as obrigações
do Estado na forma de títulos. Na verdade, os planos econômicos,
com destaque para o Plano Collor, e com a honrosa exceção do Plano
Real, ampliaram consideravelmente o conceito de "calote" na medida em que ensinaram
que o Estado pode "tungar" não apenas os títulos como também
os "empréstimos compulsórios", a poupança, os contratos com
fornecedores, os salários do funcionalismo, os benefícios da Previdência,
e mais o que o Príncipe entenda apropriado legislar em causa própria.
O "calote" parece
ter se tornado parte da relação entre Estado e sociedade no Brasil;
talvez porque esta tenha criado obrigações demais para o Estado,
como se o dinheiro não viesse da própria sociedade. Nessas condições,
a melhoria no crédito público vai ocorrer no ritmo das reformas
que ajustem as obrigações do Estado ao que a sociedade está
efetivamente disposta a bancar. Gustavo
Franco é economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com;
www.gfranco.com.br)
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