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Prova de fogo para executivos

Candidatos a cargos de direção, brasileiros
se beneficiam de treinamento em países
remotos e mercados promissores

Maurício Oliveira


Ricardo Benichio
Fernanda foi chefe na Turquia: salto na carreira do Citibank


A primeira reação de um jovem executivo diante de uma proposta para ir trabalhar no Casaquistão certamente seria soltar uma gargalhada na frente do chefe. Só que no caso do administrador de empresas Fernando Souza, 39 anos, não se tratava de uma piada. Em 1998, o Citibank queria ampliar sua presença em mercados emergentes e ele foi convocado para desbravar a ex-república soviética localizada no centro-oeste asiático, a 14.000 quilômetros do Brasil. "Corri para procurar um mapa, porque nunca tinha ouvido aquele nome esquisito", ele lembra. Dois meses depois, Fernando, a mulher e o filho de 3 anos estavam se mudando para Almaty, a capital comercial do imenso território que faz fronteira com a China, o Usbequistão e o Turcomenistão. O brasileiro inaugurou o cargo de vice-presidente do Citibank no Casaquistão e organizou a filial no país. Começou com 21 funcionários e 800 operações por mês. Hoje, dois anos depois, são 65 comandados e 15.000 transações mensais. A família ainda não sabe quando vai voltar do "Kazak", forma como o país é chamado na intimidade, mas o executivo já tem certeza de uma coisa – estes têm sido os anos mais estimulantes de sua profissão. "Acho que nunca mais vou ter a chance de fundar um banco num país que fala russo", brinca.

Com o avanço da globalização, abriram-se novas rotas para as carreiras que deságuam na alta direção empresarial. Neste momento, há brasileiros em quadrantes asiáticos como Vietnã, Cingapura, Coréia do Sul e China. Ou em países da Oceania (Austrália e Nova Zelândia), do Oriente Médio (Emirados Árabes Unidos), da Europa Central (República Checa) e na África do Sul (veja o mapa). Conhecida como "expatriação", tal prática visa adestrar as habilidades gerenciais em ambientes econômicos desafiadores, tanto pelas adversidades que o enviado possa vir a encontrar em locais exóticos quanto pelo contato direto com tendências de ponta em seu setor. É uma espécie de prova de fogo que pode valer tanto quanto um MBA, ou mais. Até não muito tempo atrás, os poucos convocados para trabalhar no exterior dificilmente escapavam dos países da América do Sul ou então eram brindados com o Circuito Elizabeth Arden – Londres, Roma, Paris e Nova York –, numa analogia com os disputados cargos da carreira diplomática, no Itamaraty. Agora, empresas como Citibank, Gessy Lever, Nestlé, Kodak, Philips, Alcoa, ABN Amro Bank, Pirelli, IBM e Ericsson investem na geografia das economias promissoras. "Quem tem vivência em várias culturas ganha uma visão ampla, consegue analisar um problema por outros ângulos e certamente se transforma em alguém mais preparado para lidar com mercados internacionais", resume o diretor nacional de recursos humanos da Gessy Lever, Nelson Savioli.

Quase todos voltam ao Brasil com um cargo mais alto. José Tortoro, por exemplo, foi premiado com a gerência de informática na Gessy Lever depois de ter passado três anos na Índia, onde comandou uma equipe de setenta funcionários de lá. "Eles têm um sentimento muito forte de nacionalismo e resistem à liderança de um estrangeiro", conta. Dificuldade semelhante encontrou Fernanda Pacheco, do Citibank, quando esteve na Turquia. Como se não bastasse ter enfrentado um terremoto que matou milhares de pessoas e deixou o país em luto oficial durante um mês, ela foi alvo de preconceito. "Uma mulher jovem num cargo de responsabilidade desperta muita desconfiança por lá", lembra Fernanda, que saiu do Brasil aos 28 anos, como gerente de comunicação interna, e voltou agora, dois anos depois, como diretora de recrutamento e seleção – um salto de três degraus na hierarquia. Atualmente na República Checa, Newton Freire, gerente de vendas da Gessy Lever, desdobra-se para aprender como funciona o comércio em países da Europa Central e do Leste. "Aqui, há mais de 25 grandes cadeias de varejo disputando o mercado, com um nível de competitividade feroz", conta. "Trabalhar em um ambiente tão complexo dá oportunidade de desenvolver e aplicar técnicas de vendas e distribuição tanto para o comércio moderno quanto para o tradicional."

Esse tipo de treinamento não é apenas para brasileiros – está virando rotina para as multinacionais, com um intenso fluxo de nacionalidades pelo planeta afora. "Se as empresas pretendem ser globais, seus administradores também têm de ser", raciocina o diretor de recursos humanos do banco ABN Amro, Fernando Lanzer. Assim, a crença que faz a americana Kodak mandar um brasileiro para a China é semelhante à filosofia que impulsiona a holandesa Philips a despachar um romeno para os trópicos. No caso dos profissionais daqui, há a vantagem de participar duplamente do fenômeno. O Brasil não apenas envia executivos para todas as partes do mundo como também acolhe outros, das mais diversas nacionalidades. O Ministério do Trabalho e Emprego calcula que cerca de 1.000 gerentes e diretores virão ao país neste ano. Embora não haja dados sobre a saída, estima-se que número similar deixará as fronteiras brasileiras no mesmo período. "O Brasil é um dos que mais têm a ensinar ao executivo, por causa dos diferentes graus de desenvolvimento das regiões internas", diz o vice-presidente da Lucent Technologies no Brasil, o americano Emilio Iodice, que já trabalhou em sete países e conheceu mais de sessenta.

 

 

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