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Edição 2075

27 de agosto de 2008
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André Petry
De olho no ardil

"Tomar o exemplo de Marcela, o símbolo antiaborto,
para proibir a interrupção da gravidez de fetos sem
cérebro é exploração desonesta da tragédia alheia"

Nesta semana, o Supremo Tribunal Federal, que tem dado mostras de ser o poder mais conectado com a realidade dos brasileiros comuns, fará outra de suas audiências públicas. Uma delas discutiu as pesquisas com células-tronco embrionárias, finalmente aprovadas. Agora, o debate será sobre o direito de interromper a gravidez de fetos sem cérebro – que não sobrevivem fora do útero mais do que algumas horas ou dias. É uma anomalia incurável, cujo desfecho inevitável é a morte. É uma crueldade ímpar obrigar uma mulher a carregar por nove meses no útero um feto que não sobreviverá fora dele. Ainda assim, há quem defenda que a mulher deve ser forçada – por lei! – a amargar esse calvário, preparando-se para, ao fim de nove meses, em vez de celebrar a vida, dar à luz a morte.

Na terça-feira, o Supremo ouvirá os defensores dessa posição: a CNBB dos católicos, a Igreja Universal do Reino de Deus e a Associação Nacional Pró-Vida e Pró-Família. Há argumentos sólidos e respeitáveis para ser contra o aborto de fetos sem cérebro, mas também há velhacarias e engodos. Para um deles, é preciso que a platéia esteja especialmente atenta porque são grandes as chances de que apareça na audiência pública do Supremo: chama-se Marcela de Jesus Galante Ferreira. É o nome da menina que viveu um ano, oito meses e doze dias em Patrocínio Paulista, mesmo tendo nascido, dizia-se, sem cérebro. Marcela morreu no último dia 1º de agosto, de pneumonia. Por ter sobrevivido tanto tempo, a pequena Marcela foi tratada como um milagre divino. Chegou a virar símbolo de passeata contra o aborto, que reuniu 5 000 fiéis católicos, espíritas e evangélicos em São Paulo.

Era comovente acompanhar o carinho e o respeito com que a mãe de Marcela a tratou em vida. Cacilda, lavradora do interior paulista, parou de trabalhar para cuidar da filha, agia como se ela fosse igual aos outros bebês e tirava fotos da criança usando um simples gorro, para não expor a parte superior da cabeça, deformada pela ausência do cérebro. Em matéria da repórter Adriana Dias Lopes, publicada por VEJA em agosto do ano passado, Cacilda afirmou: "Minha filha é muito carinhosa. As pessoas ficam tão encantadas com ela que não ligam para o formato de sua cabecinha".

Acontece que tomar o exemplo de Marcela, o milagre divino, o símbolo antiaborto, para proibir a interrupção da gravidez de fetos sem cérebro é exploração desonesta da tragédia alheia. A pediatra Márcia Barcellos, que cuidou de Marcela, examinando ressonâncias magnéticas de alta definição, concluiu que a menina sobrevivia porque não era um bebê sem cérebro. Ela tinha o mesencéfalo, parte intermediária do cérebro, e outras proto-estruturas que lhe permitiram tamanha sobrevida. Na sessão do Supremo, sempre pode aparecer alguém – bem-intencionado, lógico – dizendo que o aborto de feto sem cérebro tem de ser proibido porque ainda pode haver centenas de Marcelas vivendo anos a fio.

Se você ouvir isso, saiba: é um ardil.



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