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Música
O
fantasma da ópera
Seria
Valsa Negra um roman à clef sobre os
bastidores da melhor orquestra brasileira?

Sérgio
Martins
Renato Chaui
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| Neschling:
o chefe da sinfônica paulista abriu os bastidores da orquestra
(e o coração) para a autora |
Toda
vez que um romancista decide destilar inconfidências em surdina,
ele recorre a uma forma literária chamada roman à
clef (romance com chave, em francês). No fundo, trata-se
apenas de ocultar sob pseudônimo pessoas de carne e osso e
modificar alguns detalhes ou cenários reais, para despistar.
Quem tem a "chave" decifra a charada com facilidade. Um exemplo
clássico desse procedimento está em Lucrezia Floriani,
em que a escritora George Sand liberou as mágoas contra
o ex-amado, o pianista polonês Frédéric Chopin.
Sand rebatizou o compositor de Karol de Roswald, mas a sociedade
européia do século XIX entendeu o recado. Pois desde
que Valsa Negra (Companhia das Letras; 244 páginas;
32 reais), novo romance da escritora Patrícia Melo, foi lançado,
uma dúvida inquieta os aficionados da música erudita
no Brasil: seria um roman à clef?
Patrícia
Melo teve a idéia de uma história de ciúme
protagonizada por um maestro anos atrás. Começou a
pesquisar o mundo da música clássica no Rio de Janeiro,
mas então foi apresentada ao regente John Neschling, diretor
artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São
Paulo, que lhe franqueou os bastidores da instituição.
Ela e Neschling começaram um namoro no fim do ano passado,
e estão juntos desde então. Embora o maestro e a orquestra
de Valsa Negra sejam desprovidos de nome, suspeita-se que
muitas histórias reunidas pela escritora nas coxias da orquestra
paulista tenham ido parar nas páginas de seu livro. As coincidências,
é bom que se enfatize, estariam nos detalhes, e não
no enredo central, que envolve inclusive um assassinato.
Lalo de Almeida
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| Patrícia
Melo: é tudo ficção, ora bolas |
Tanto o maestro ficcional quanto John Neschling cultivam duas paixões:
a música de Gustav Mahler e a Coca-Cola light (nunca falta
essa bebida no frigobar do diretor artístico da orquestra).
Na página 33 do livro, o regente estuda o nome das artistas
que interpretariam Erda e Fafner, personagens da ópera O
Ouro do Reno, do compositor alemão Richard Wagner. Essa
mesma ópera estava no programa da Osesp em agosto de 2002.
O regente de Valsa Negra se enfurece com a sua assistente
na página 75 porque ela esqueceu de lhe entregar uma partitura
na ocasião de uma viagem. Funcionários da Sala São
Paulo, a sede da orquestra, lembram-se de uma briga de Neschling
com sua assistente que teria perdido o seu passaporte à
véspera de um embarque. Na página 214, o regente apresenta
o amigo Piero, com quem ele trabalhou em Palermo. Um dos melhores
amigos de Neschling é Pier Francesco Maestrini, que também
trabalhou com ele em Palermo e foi responsável pela direção
cênica de uma ópera que a orquestra apresentou em São
Paulo.
Entre
os leitores do livro, há quem faça paralelos entre
o violinista espanhol Lamadrid, que no livro acaba de se separar
e tenta seduzir a esposa do protagonista, e o oboísta brasileiro
Alex Klein. Klein foi solista convidado da orquestra em 2001, quando
havia acabado de se separar. Ele é o atual namorado de Bridget
Bolliger, ex-senhora Neschling. Finalmente, a orquestra de Valsa
Negra tem como assistente Cláudio, que é dono
de uma carreira internacional ascendente. Entre as orquestras regidas
por ele está a de Fort Worth, no Texas. Roberto Minczuk,
diretor artístico adjunto da Osesp, tem uma carreira internacional
ascendente. Em seu currículo consta uma passagem consagradora
pela Orquestra de Fort Worth, no Texas. A diferença é
que Cláudio é definido como um "cretino" pelo maestro
ficcional. Não há registro de que Neschling já
tenha falado assim de seu diretor adjunto. Tanto Patrícia
Melo quanto John Neschling negam qualquer vínculo entre o
romance e a realidade. "O maestro do meu romance é arquetípico",
diz Patrícia. Com seu estilo incisivo (que lembra um pouco
o do maestro ficcional, para dizer a verdade), Neschling também
descarta as semelhanças. "Não confunda ficção
com realidade. Ou você é daqueles que pensam que Dostoievski
matou mesmo aquela velha?", irrita-se ele, citando Crime e Castigo,
romance do célebre autor russo.
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