Edição 1817 . 27 de agosto de 2003

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Música
O fantasma da ópera

Seria Valsa Negra um roman à clef sobre os
bastidores da melhor orquestra brasileira?


Sérgio Martins


Renato Chaui
Neschling: o chefe da sinfônica paulista abriu os bastidores da orquestra (e o coração) para a autora

Toda vez que um romancista decide destilar inconfidências em surdina, ele recorre a uma forma literária chamada roman à clef (romance com chave, em francês). No fundo, trata-se apenas de ocultar sob pseudônimo pessoas de carne e osso e modificar alguns detalhes ou cenários reais, para despistar. Quem tem a "chave" decifra a charada com facilidade. Um exemplo clássico desse procedimento está em Lucrezia Floriani, em que a escritora George Sand liberou as mágoas contra o ex-amado, o pianista polonês Frédéric Chopin. Sand rebatizou o compositor de Karol de Roswald, mas a sociedade européia do século XIX entendeu o recado. Pois desde que Valsa Negra (Companhia das Letras; 244 páginas; 32 reais), novo romance da escritora Patrícia Melo, foi lançado, uma dúvida inquieta os aficionados da música erudita no Brasil: seria um roman à clef?

Patrícia Melo teve a idéia de uma história de ciúme protagonizada por um maestro anos atrás. Começou a pesquisar o mundo da música clássica no Rio de Janeiro, mas então foi apresentada ao regente John Neschling, diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, que lhe franqueou os bastidores da instituição. Ela e Neschling começaram um namoro no fim do ano passado, e estão juntos desde então. Embora o maestro e a orquestra de Valsa Negra sejam desprovidos de nome, suspeita-se que muitas histórias reunidas pela escritora nas coxias da orquestra paulista tenham ido parar nas páginas de seu livro. As coincidências, é bom que se enfatize, estariam nos detalhes, e não no enredo central, que envolve inclusive um assassinato.

Lalo de Almeida
Patrícia Melo: é tudo ficção, ora bolas


Tanto o maestro ficcional quanto John Neschling cultivam duas paixões: a música de Gustav Mahler e a Coca-Cola light (nunca falta essa bebida no frigobar do diretor artístico da orquestra). Na página 33 do livro, o regente estuda o nome das artistas que interpretariam Erda e Fafner, personagens da ópera O Ouro do Reno, do compositor alemão Richard Wagner. Essa mesma ópera estava no programa da Osesp em agosto de 2002. O regente de Valsa Negra se enfurece com a sua assistente na página 75 porque ela esqueceu de lhe entregar uma partitura na ocasião de uma viagem. Funcionários da Sala São Paulo, a sede da orquestra, lembram-se de uma briga de Neschling com sua assistente – que teria perdido o seu passaporte à véspera de um embarque. Na página 214, o regente apresenta o amigo Piero, com quem ele trabalhou em Palermo. Um dos melhores amigos de Neschling é Pier Francesco Maestrini, que também trabalhou com ele em Palermo e foi responsável pela direção cênica de uma ópera que a orquestra apresentou em São Paulo.

Entre os leitores do livro, há quem faça paralelos entre o violinista espanhol Lamadrid, que no livro acaba de se separar e tenta seduzir a esposa do protagonista, e o oboísta brasileiro Alex Klein. Klein foi solista convidado da orquestra em 2001, quando havia acabado de se separar. Ele é o atual namorado de Bridget Bolliger, ex-senhora Neschling. Finalmente, a orquestra de Valsa Negra tem como assistente Cláudio, que é dono de uma carreira internacional ascendente. Entre as orquestras regidas por ele está a de Fort Worth, no Texas. Roberto Minczuk, diretor artístico adjunto da Osesp, tem uma carreira internacional ascendente. Em seu currículo consta uma passagem consagradora pela Orquestra de Fort Worth, no Texas. A diferença é que Cláudio é definido como um "cretino" pelo maestro ficcional. Não há registro de que Neschling já tenha falado assim de seu diretor adjunto. Tanto Patrícia Melo quanto John Neschling negam qualquer vínculo entre o romance e a realidade. "O maestro do meu romance é arquetípico", diz Patrícia. Com seu estilo incisivo (que lembra um pouco o do maestro ficcional, para dizer a verdade), Neschling também descarta as semelhanças. "Não confunda ficção com realidade. Ou você é daqueles que pensam que Dostoievski matou mesmo aquela velha?", irrita-se ele, citando Crime e Castigo, romance do célebre autor russo.

 
 
 
 
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