Edição 1817 . 27 de agosto de 2003

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Cinema
Estranho amor

Secretária fala de sadomasoquismo.
Mas não deixa de ser um belíssimo romance


Isabela Boscov

 
Fotos divulgação
Maggie, como a secretária Lee, leva uma carta para seu chefe (Spader, acima): paixão, e não abuso

Trailer
Fotos do filme

Durante os 100 minutos que dura Secretária (Secretary, Estados Unidos, 2002), E. Edward Grey, advogado, e Lee Holloway, sua funcionária, percorrem todos os passos de uma descoberta clássica – a de que são almas gêmeas. Mas, no filme que estréia nesta sexta-feira no país, esse trajeto não inclui flores ou jantares à luz de velas, e sim castigo físico e submissão. Lee, extraordinariamente interpretada por Maggie Gyllenhaal, acabou de sair de uma internação em uma clínica psiquiátrica. De volta ao convívio com sua família desajustada, ela recai em seus velhos hábitos – cortar-se e queimar-se, para o que tem um kit de instrumentos sempre à mão. Na tentativa de escapar a esse ciclo, ela arruma seu primeiro emprego, como secretária do advogado E. Edward Grey (James Spader, numa atuação à altura da de Maggie). Grey, que é um reprimido clássico, tem sempre uma repreensão a fazer: Lee funga demais, veste-se mal, fala como criança, é uma datilógrafa desatenta. Todos os erros que ela comete são metodicamente circundados em caneta vermelha. E, a cada correção, a adoração de Lee por seu chefe aumenta. No dia em que ele a faz curvar-se sobre a escrivaninha e bate nela enquanto ela lê uma carta cheia de erros em voz alta, pode-se ver no rosto de Lee o misto de espanto, alívio e enlevo que ela está sentindo: o ônus de infligir dor deixou de ser seu, e ela não está mais sozinha. Se há um momento arrebatador em qualquer romance, ele é exatamente esse, em que uma pessoa se reconhece na outra e compreende que pode compartilhar com ela o que é impossível dividir com qualquer outro. E Secretária não foge a essa regra, ainda que os caminhos do amor aqui pareçam bem menos ortodoxos, e bem mais polêmicos, do que dita o senso comum. A partir dessa cena, qualquer dúvida que ainda poderia existir dissipa-se: essa não é uma história de perversão ou abuso, mas de paixão.

Muito do trabalho admirável do diretor Steven Shainberg e da roteirista Erin Cressida Wilson está justamente em desarmar as prevenções ideológicas da platéia. Eles fazem isso, primeiro, adotando um tom de fábula, entre o cômico e o erótico, e situando seus personagens num mundo quase irreal. Só Lee e Grey trabalham no escritório deste – ou seja, não há políticas corporativas em jogo –, que é decorado de forma bizarra, como uma mansão vitoriana. O segundo passo de Shainberg e Erin é o oposto: imaginar como um romance desses prosseguiria conforme as regras vigentes. Como a secretária é jovem, inexperiente e já convive com o estigma do desequilíbrio mental, ela não tem dificuldade em abraçar essa nova forma de relacionamento em sua vida. O advogado, por sua vez, sabe que é "anormal", e por isso tenta retomar o controle de seus sentimentos, o que implica afastar Lee. Como Lee não quer ser afastada, ela passa a tomar decisões para conquistar Grey – ou seja, só é submissa quando quer. Consentimento mútuo e capacidade de aceitar diferenças, então, são as chaves para um romance feliz. Parecem velhos clichês. Mas eles ganham um sentido novo, e notável, em Secretária.

 
 
 
 
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