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Cinema
Estranho
amor
Secretária
fala de sadomasoquismo.
Mas
não deixa de ser um belíssimo romance

Isabela
Boscov
Fotos divulgação
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| Maggie,
como a secretária Lee, leva uma carta para seu chefe
(Spader, acima): paixão, e não abuso
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Durante
os 100 minutos que dura Secretária (Secretary,
Estados Unidos, 2002), E. Edward Grey, advogado, e Lee Holloway,
sua funcionária, percorrem todos os passos de uma descoberta
clássica a de que são almas gêmeas. Mas,
no filme que estréia nesta sexta-feira no país, esse
trajeto não inclui flores ou jantares à luz de velas,
e sim castigo físico e submissão. Lee, extraordinariamente
interpretada por Maggie Gyllenhaal, acabou de sair de uma internação
em uma clínica psiquiátrica. De volta ao convívio
com sua família desajustada, ela recai em seus velhos hábitos
cortar-se e queimar-se, para o que tem um kit de instrumentos
sempre à mão. Na tentativa de escapar a esse ciclo,
ela arruma seu primeiro emprego, como secretária do advogado
E. Edward Grey (James Spader, numa atuação à
altura da de Maggie). Grey, que é um reprimido clássico,
tem sempre uma repreensão a fazer: Lee funga demais, veste-se
mal, fala como criança, é uma datilógrafa desatenta.
Todos os erros que ela comete são metodicamente circundados
em caneta vermelha. E, a cada correção, a adoração
de Lee por seu chefe aumenta. No dia em que ele a faz curvar-se
sobre a escrivaninha e bate nela enquanto ela lê uma carta
cheia de erros em voz alta, pode-se ver no rosto de Lee o misto
de espanto, alívio e enlevo que ela está sentindo:
o ônus de infligir dor deixou de ser seu, e ela não
está mais sozinha. Se há um momento arrebatador em
qualquer romance, ele é exatamente esse, em que uma pessoa
se reconhece na outra e compreende que pode compartilhar com ela
o que é impossível dividir com qualquer outro. E Secretária
não foge a essa regra, ainda que os caminhos do amor aqui
pareçam bem menos ortodoxos, e bem mais polêmicos,
do que dita o senso comum. A partir dessa cena, qualquer dúvida
que ainda poderia existir dissipa-se: essa não é uma
história de perversão ou abuso, mas de paixão.
Muito do trabalho admirável do diretor Steven Shainberg e
da roteirista Erin Cressida Wilson está justamente em desarmar
as prevenções ideológicas da platéia.
Eles fazem isso, primeiro, adotando um tom de fábula, entre
o cômico e o erótico, e situando seus personagens num
mundo quase irreal. Só Lee e Grey trabalham no escritório
deste ou seja, não há políticas corporativas
em jogo , que é decorado de forma bizarra, como uma
mansão vitoriana. O segundo passo de Shainberg e Erin é
o oposto: imaginar como um romance desses prosseguiria conforme
as regras vigentes. Como a secretária é jovem, inexperiente
e já convive com o estigma do desequilíbrio mental,
ela não tem dificuldade em abraçar essa nova forma
de relacionamento em sua vida. O advogado, por sua vez, sabe que
é "anormal", e por isso tenta retomar o controle de seus
sentimentos, o que implica afastar Lee. Como Lee não quer
ser afastada, ela passa a tomar decisões para conquistar
Grey ou seja, só é submissa quando quer. Consentimento
mútuo e capacidade de aceitar diferenças, então,
são as chaves para um romance feliz. Parecem velhos clichês.
Mas eles ganham um sentido novo, e notável, em Secretária.
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