Edição 1817 . 27 de agosto de 2003

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Livros
As memórias de Gabo

Gabriel García Márquez expõe as raízes
de sua obra
em Viver para Contar


Carlos Graieb

 
Indira Restrepo/revista Câmbio


Exclusivo: leia o primeiro capítulo do livro (é preciso cadastrar-se)

No fim de 1945, Gabriel García Márquez formou-se no 2º grau e foi passar as férias com a família, no interior da Colômbia. Enquanto ele farreava, sua mãe remordia uma angústia: qual seria o destino de Gabo? Os pais, desde sempre, desejavam que ele se formasse em direito ou medicina. O rapaz dava sinais de não querer mais estudar. A suspeita confirmou-se numa tarde em que Luisa Santiaga chacoalhou o filho, que cochilava na rede, e o chamou para uma conversa. Ele não queria mesmo saber de nenhuma daquelas carreiras. Pior: não tinha a menor idéia de que outra profissão seguir. Dias depois, a mãe apareceu com uma sugestão. "Dizem por aí que, se você quisesse, podia ser um bom escritor." O filho haveria dito: "Se fosse para ser escritor, eu teria de ser dos grandes, e já não se fabricam mais grandes escritores. Se é para morrer de fome, existem ofícios melhores". A anedota está registrada em Viver para Contar (tradução de Eric Nepomuceno; Record; 474 páginas; 55 reais), livro de memórias do colombiano Gabriel García Márquez que chega nesta sexta-feira às livrarias. E, se o autor de Cem Anos de Solidão foi mesmo fiel ao passado, então o tempo transformou numa bela ironia aquela resposta enviesada que ele deu à mãe. Afinal de contas, Márquez, de 75 anos, é um dos poucos escritores de quem se pode dizer com segurança que seja "grande" hoje em dia – grande no mercado, na fama, e na força literária de seu texto, como se pode constatar mais uma vez.

O lançamento da versão original de Viver para Contar foi o grande acontecimento do mundo editorial de língua espanhola no ano passado. As sucessivas tiragens se esgotaram rapidamente e, a esta altura, o livro já deve ter batido na marca de 1,5 milhão de cópias vendidas. As memórias de Márquez também serviram a um experimento inédito nos Estados Unidos. Elas tiveram distribuição maciça, em espanhol mesmo, nas grandes redes de livrarias. O sucesso foi imediato, e demonstrou não apenas o peso cultural da comunidade latina que hoje vive naquele país, mas também que Márquez, vencedor vencedor do Prêmio Nobel de 1982, tem poucos pares quando se trata de atrair leitores. No Brasil, Viver para Contar sai com tiragem inicial elevada para os padrões nacionais: 50.000 exemplares.

O maior atrativo das memórias é proporcionar uma espécie de arqueologia da obra de Márquez. O autor revela o substrato real de diversas páginas de seus romances e contos. Isso vale para a abertura de O Amor nos Tempos do Cólera, mas também para cenas de livros como O Enterro do Diabo, A Má Hora e Crônica de uma Morte Anunciada. Márquez também indica a origem do nome Macondo, que serviu para batizar a localidade imaginária onde ele ambientou a trama de Cem Anos de Solidão e se tornou uma espécie de símbolo do chamado "realismo mágico", estilo que imperou na ficção latina dos anos 60 e 70: "O trem fez uma parada numa estação sem povoado, e pouco depois passou na frente da única fazenda bananeira do caminho que tinha o nome escrito no portal: Macondo. Esta palavra tinha chamado a minha atenção desde as primeiras viagens com meu avô, mas só depois de adulto descobri que gostava da sua ressonância poética".


Fotos Reprodução
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Gabito (à esquerda, em destaque), com cinco de seus dez irmãos, e em meados dos anos 50, antes de se lançar como escritor: momentos de formação

O segundo ponto forte de Viver para Contar está nas passagens que tratam da formação literária de seu autor. O livro começa com a narrativa de uma viagem que o escritor fez com sua mãe, em 1950, à sua cidade natal, Aracataca. Ele diz logo de cara que esse retorno ao cenário da infância foi provavelmente o momento crucial de sua carreira, mas a explicação só se completa bem adiante, entre as páginas 356 e 360, quando Márquez afirma que a ida a Aracataca lhe revelou, de um golpe, que todos os esforços literários que ele havia realizado até ali estavam fadados ao fracasso, porque eram "pura invenção retórica sem nenhuma base em uma verdade poética". Acompanhar os esforços do jovem aspirante a escritor, filtrados pelo olhar do autor maduro e consagrado, é muito interessante.

Generosas no que diz respeito à educação sentimental e literária de García Márquez, as memórias são mais veladas quanto à sua educação política. Ele fala sobre os acontecimentos que convulsionaram a Colômbia durante sua juventude – e as páginas sobre o "bogotazo", uma série de conflitos de rua em 1948, que deixou 2.500 mortos somente em Bogotá, estão entre as melhores do livro. Há, contudo, poucas indicações daquilo que Márquez pensava em termos ideológicos nesse tempo. Num testemunho autobiográfico anterior, a longa entrevista que deu ao amigo Plinio Apuleyo Mendoza, publicada com o título Cheiro de Goiaba em 1982, o escritor disse que a passagem por um colégio de inclinação progressista na adolescência, o Liceu Nacional de Zipaquirá, foi determinante para que ele se interessasse pelas idéias socialistas. Segundo Márquez, naquele colégio "o professor de álgebra nos ensinava no recreio o materialismo histórico, o de química nos emprestava livros de Lenin e o de história nos falava da luta de classes". Ele disse ter saído de lá com a "convicção profunda de que o destino imediato da humanidade é o socialismo". Em Viver para Contar, Márquez já é mais contido. Estão lá, devidamente nomeados, todos os professores que lhe deram acesso aos "apóstolos da revolução proletária", mas não se fala em nenhuma conversão definitiva ao socialismo. Tampouco é mencionada a rápida adesão de Márquez a uma célula comunista, ainda no período abrangido por esse primeiro volume das memórias – que se encerra em 1955, quando ele lança seu romance de estréia, O Enterro do Diabo.

Indira Restrepo/revista Câmbio
O autor em foto recente: convalescendo de um câncer


É difícil entender o porquê da discrição de Márquez. Ele nunca fugiu de controvérsias políticas, mesmo quando suas opiniões não atraem muita simpatia. Muitos não engolem o fato de Márquez ser amigo do ditador cubano Fidel Castro. Os dois se conheceram em 1975, quando Márquez visitou a ilha em busca de material para um livro que nunca escreveu. Antes desse primeiro encontro, o romancista já se havia demonstrado leniente com o regime castrista, ao negar-se a assinar uma petição de intelectuais em favor do poeta Herberto Padilla, que sofria perseguição em Cuba. Depois da viagem, Márquez passou a professar verdadeira admiração por Fidel, e jamais traiu esse sentimento – o que levou o escritor peruano Mario Vargas Llosa a chamá-lo de "cortesão de Castro". Em Cheiro de Goiaba, Márquez justificou sua lealdade não sem uma dose de arrogância, dizendo que ela se baseava "numa informação muito melhor e mais direta e numa maturidade política que me permite uma compreensão mais serena, mas paciente e humana da realidade". Quatro meses atrás, o romancista deu prova reiterada de parcialidade no que se refere aos disparates da política cubana, ficando em silêncio quanto à execução sumária de três homens que tentavam escapar da ilha e ao aprisionamento de quase oitenta dissidentes, condenados a penas pesadas.

Márquez, que fixou residência há mais de quatro décadas na Cidade do México, não visita a Colômbia há três anos. Ele inclusive pôs à venda a propriedade que possui na cidade costeira de Cartagena, deixando consternados os habitantes do lugar, que se referiam com maiúsculas à casa: ela era "La Casa del Escritor". Há três motivos para essa ausência. Márquez está convalescendo de uma grave doença, tem medo de viajar de avião e está desgostoso com a violência que assola a Colômbia. Ele desperta algo próximo da idolatria entre seus conterrâneos, que o chamam de "Gabo" ou "maestro". Tem ainda uma autoridade moral que lhe permitiu servir de intermediário por diversas vezes em negociações de paz entre o Estado e a guerrilha colombiana. Ainda assim, não se pode dizer que ele estaria 100% a salvo da sanha das diversas facções que se digladiam no país. Nas últimas viagens que fez à terra natal, Márquez nunca dispensou um enorme aparato de segurança. Dizer que o romancista perdeu contato com o dia-a-dia dos colombianos seria um erro, contudo. Ele mantém uma extensa rede de contatos telefônicos e correspondentes pela internet. Além disso, fala semanalmente com os jornalistas da revista Cambio, cujo controle acionário adquiriu em 1998 utilizando o dinheiro de seu Prêmio Nobel (dinheiro que, segundo a lenda, ele havia "esquecido" num banco suíço desde 1982). A revista é a segunda em circulação no país e tem uma sólida reputação de jornalismo crítico e independente. "Creio que Gabo ainda teria disposição para intervir de maneira mais direta na política nacional, se percebesse que há espaço para isso. Mas as circunstâncias não ajudam", diz um jornalista que preferiu não se identificar (todas as pessoas do círculo de Márquez são muito zelosas da privacidade do escritor e jamais falam em seu nome).

No começo de 1999, Márquez esteve próximo de um colapso. Ele, que anos antes já havia extraído um tumor do pulmão, internou-se então num hospital e detectou qual era o problema numa bateria de exames: câncer linfático. Márquez passou uma temporada em Los Angeles, nos Estados Unidos, para submeter-se a uma quimioterapia que surtiu excelentes resultados. A cura não evitou, porém, um episódio lastimável: a divulgação, pela internet, de um melancólico texto-despedida supostamente assinado pelo autor. Tratava-se, claro, de uma farsa. "Sua saúde está perfeita", disse a VEJA, na semana passada, Margarita Márquez, cunhada do escritor e uma espécie de assistente, que cuida de seus interesses na Colômbia. O romancista só prossegue na rotina dos check-ups periódicos. O próximo deve acontecer em duas ou três semanas, em Los Angeles. Enquanto isso, Márquez escreve, seguindo uma rotina que o leva para a frente do computador todos os dias, entre as 10 da manhã e as 2 da tarde. Ele acaba de revisar dois livros de contos inéditos. Segundo amigos, já deu início à redação do segundo volume de suas memórias, que deverá estender-se até o lançamento de Cem Anos de Solidão, em 1967.

 
Versões dos fatos

Muitas das cenas literárias criadas por Márquez foram calcadas em episódios reais. Veja dois exemplos

NAS MEMÓRIAS...

"Antes de dormir passávamos um tempão no estúdio do Belga, um ancião pavoroso que apareceu em Aracataca depois da Primeira Guerra Mundial. O outro ser vivo de sua casa era um grande cão dinamarquês, surdo e pederasta, que se chamava do mesmo jeito que o presidente dos Estados Unidos: Woodrow Wilson. Conheci o Belga quando tinha quatro anos e meu avô ia jogar com ele umas partidas de xadrez que eram mudas e intermináveis. Fumava um cachimbo de lobo-do-mar que só acendia para jogar xadrez. Estava inválido da cintura para baixo, mas navegava feito peixe através dos recifes de seu estúdio, mais dependurado que apoiado nas muletas de pau. O fato mais impressionante da minha infância surgiu na minha frente num domingo, bem cedinho, quando estávamos indo para a missa. Meu avô me levou quase que arrastado para o estúdio do Belga. Fiquei sabendo que o Belga tinha aspirado uma poção de cianureto de ouro – que dividiu com seu cão. Lá estava o cadáver coberto com uma manta em um catre de acampamento, e as muletas ao alcance da mão, onde o dono as deixou antes de se deitar para morrer. Ao seu lado, sobre um banquinho de madeira, estava a bacia onde ele havia vaporizado o cianureto. A primeira coisa que me estremeceu assim que entrei na casa foi o cheiro do dormitório. Só muito depois vim a saber que era o cheiro das amêndoas amargas do cianeto que o Belga tinha inalado para morrer."

Trecho editado de
Viver para Contar

 

...E NA FICÇÃO

"Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados. O doutor Juvenal Urbino o sentiu logo que entrou na casa ainda mergulhada em sombras, à qual chegara acudindo a chamado de urgência. O refugiado antilhano Jeremiah de Saint-Amour, inválido de guerra, fotógrafo de crianças e seu adversário de xadrez mais compassivo, se havia posto a salvo dos tormentos da memória com uma fumigação de cianureto de ouro. Encontrou o cadáver coberto com uma manta no catre de campanha onde sempre dormira, perto de um tamborete com a vasilha que havia servido para vaporizar o veneno. No chão, amarrado pela pata ao catre, estava o corpo estendido de um grande dinamarquês preto de peito nevado, e junto a ele estavam as muletas. Havia revistas e jornais velhos em todos os cantos, pilhas de negativos em placas de vidro, móveis quebrados, mas tudo estava preservado da poeira por mãos diligentes. O mestre eminente descobriu o cadáver palmo a palmo com uma parcimônia sacramental. Estava nu em pêlo, teso e torto, com os olhos abertos e o corpo azul, e parecia cinqüenta anos mais velho do que na noite anterior. Na escrivaninha, junto a um pote com vários cachimbos de lobo-do-mar, estava o tabuleiro de xadrez com uma partida inconclusa."

Trecho editado do romance
O Amor nos Tempos do Cólera

 

NAS MEMÓRIAS...

"Minha mãe apontou com o dedo. 'Olhe lá', disse. 'Foi ali que o mundo se acabou.' Eu acompanhei a direção de seu dedo indicador e vi a estação, e na frente uma pracinha árida na qual não podiam caber mais de duzentas pessoas. Foi ali, de acordo com o relato preciso de minha mãe naquele dia, que o exército havia matado em 1928 um número jamais sabido de diaristas dos bananais. Eu conhecia o episódio como se o tivesse vivido, depois de ter ouvido meu avô contá-lo e repeti-lo mil e uma vezes desde que tive memória: o militar lendo o decreto que declarava que os peões em greve eram oficialmente uma quadrilha de malfeitores; os três mil homens, mulheres e crianças imóveis debaixo de um sol bárbaro depois que o oficial deu a todos um prazo de cinco minutos para esvaziar a praça; a ordem de fogo. (...) Mais tarde falei com sobreviventes e testemunhas e revirei coleções de jornais e documentos oficiais. Os conformistas chegavam a dizer que não houve morto algum. Os do extremo contrário afirmavam sem tremer a voz que foram mais de cem. Minha verdade ficou extraviada para sempre em algum ponto improvável dos dois extremos. No entanto, foi tão persistente que num de meus livros me referi à matança com a precisão e com o horror que durante anos eu havia incubado na minha imaginação."

Trecho editado de
Viver para Contar

...E NA FICÇÃO

"– Senhoras e senhores – disse o capitão com uma voz baixa, lenta, um pouco cansada –, têm cinco minutos para se retirar.

A vaia e os gritos repetidos afogaram o toque de clarim que anunciou o princípio do prazo. Ninguém se mexeu.

– Já passaram os cinco minutos – disse o capitão no mesmo tom. – Mais um minuto e atiramos.

O capitão deu a ordem de fogo e quatorze ninhos de metralhadoras responderam imediatamente. Mas tudo parecia uma farsa. Era como se as metralhadoras estivessem carregadas com fogos de artifício. De repente, de um lado da estação, um grito de morte quebrou o encantamento. Uma força sísmica, uma respiração vulcânica, um rugido de cataclismo arrebentaram no centro da multidão com uma descomunal potência expansiva. Várias vozes gritaram ao mesmo tempo:

– Atirem-se no chão! Atirem-se no chão!

Já os das primeiras linhas o tinham feito, varridos pelas rajadas da metralha. Os sobreviventes, em vez de se atirarem no chão, tentaram voltar à praça e o pânico deu uma rabanada de dragão, e os mandou numa onda compacta contra a outra onda compacta que se movimentava em sentido contrário, despedida pela outra rabanada de dragão da rua oposta, onde também as metralhadoras disparavam sem trégua."

Trecho editado do romance
Cem Anos de Solidão

 

 
 
 
 
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