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Livros
As
memórias de Gabo
Gabriel
García Márquez expõe
as raízes
de sua obra em
Viver para Contar

Carlos Graieb
Indira Restrepo/revista Câmbio
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No
fim de 1945, Gabriel García Márquez formou-se no 2º
grau e foi passar as férias com a família, no interior
da Colômbia. Enquanto ele farreava, sua mãe remordia
uma angústia: qual seria o destino de Gabo? Os pais, desde
sempre, desejavam que ele se formasse em direito ou medicina. O
rapaz dava sinais de não querer mais estudar. A suspeita
confirmou-se numa tarde em que Luisa Santiaga chacoalhou o filho,
que cochilava na rede, e o chamou para uma conversa. Ele não
queria mesmo saber de nenhuma daquelas carreiras. Pior: não
tinha a menor idéia de que outra profissão seguir.
Dias depois, a mãe apareceu com uma sugestão. "Dizem
por aí que, se você quisesse, podia ser um bom escritor."
O filho haveria dito: "Se fosse para ser escritor, eu teria de ser
dos grandes, e já não se fabricam mais grandes escritores.
Se é para morrer de fome, existem ofícios melhores".
A anedota está registrada em Viver
para Contar (tradução de Eric
Nepomuceno; Record; 474 páginas; 55 reais), livro de memórias
do colombiano Gabriel García Márquez que chega nesta
sexta-feira às livrarias. E, se o autor de Cem Anos de
Solidão foi mesmo fiel ao passado, então o tempo
transformou numa bela ironia aquela resposta enviesada que ele deu
à mãe. Afinal de contas, Márquez, de 75 anos,
é um dos poucos escritores de quem se pode dizer com segurança
que seja "grande" hoje em dia grande no mercado, na fama,
e na força literária de seu texto, como se pode constatar
mais uma vez.
O
lançamento da versão original de Viver para Contar
foi o grande acontecimento do mundo editorial de língua espanhola
no ano passado. As sucessivas tiragens se esgotaram rapidamente
e, a esta altura, o livro já deve ter batido na marca de
1,5 milhão de cópias vendidas. As memórias
de Márquez também serviram a um experimento inédito
nos Estados Unidos. Elas tiveram distribuição maciça,
em espanhol mesmo, nas grandes redes de livrarias. O sucesso foi
imediato, e demonstrou não apenas o peso cultural da comunidade
latina que hoje vive naquele país, mas também que
Márquez, vencedor
vencedor do Prêmio Nobel de 1982, tem poucos pares quando
se trata de atrair leitores. No Brasil, Viver para Contar
sai com tiragem inicial elevada para os padrões nacionais:
50.000 exemplares.
O
maior atrativo das memórias é proporcionar uma espécie
de arqueologia da obra de Márquez. O autor revela o substrato
real de diversas páginas de seus romances e contos. Isso
vale para a abertura de O Amor nos Tempos do Cólera,
mas também para cenas de livros como O Enterro do Diabo,
A Má Hora e Crônica de uma Morte Anunciada.
Márquez também indica a origem do nome Macondo,
que serviu para batizar a localidade imaginária onde ele
ambientou a trama de Cem Anos de Solidão e se tornou
uma espécie de símbolo do chamado "realismo mágico",
estilo que imperou na ficção latina dos anos 60 e
70: "O trem fez uma parada numa estação sem povoado,
e pouco depois passou na frente da única fazenda bananeira
do caminho que tinha o nome escrito no portal: Macondo. Esta
palavra tinha chamado a minha atenção desde as primeiras
viagens com meu avô, mas só depois de adulto descobri
que gostava da sua ressonância poética".
Fotos Reprodução
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ução
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| Gabito
(à esquerda, em destaque), com cinco de seus dez
irmãos, e em meados dos anos 50, antes de se lançar
como escritor: momentos de formação |
O segundo ponto forte de Viver para Contar está nas
passagens que tratam da formação literária
de seu autor. O livro começa com a narrativa de uma viagem
que o escritor fez com sua mãe, em 1950, à sua cidade
natal, Aracataca. Ele diz logo de cara que esse retorno ao cenário
da infância foi provavelmente o momento crucial de sua carreira,
mas a explicação só se completa bem adiante,
entre as páginas 356 e 360, quando Márquez afirma
que a ida a Aracataca lhe revelou, de um golpe, que todos os esforços
literários que ele havia realizado até ali estavam
fadados ao fracasso, porque eram "pura invenção retórica
sem nenhuma base em uma verdade poética". Acompanhar os esforços
do jovem aspirante a escritor, filtrados pelo olhar do autor maduro
e consagrado, é muito interessante.
Generosas no que diz respeito à educação sentimental
e literária de García Márquez, as memórias
são mais veladas quanto à sua educação
política. Ele fala sobre os acontecimentos que convulsionaram
a Colômbia durante sua juventude e as páginas
sobre o "bogotazo", uma série de conflitos de rua em 1948,
que deixou 2.500 mortos somente em Bogotá,
estão entre as melhores do livro. Há, contudo, poucas
indicações daquilo que Márquez pensava em termos
ideológicos nesse tempo. Num testemunho autobiográfico
anterior, a longa entrevista que deu ao amigo Plinio Apuleyo Mendoza,
publicada com o título Cheiro de Goiaba em 1982, o
escritor disse que a passagem por um colégio de inclinação
progressista na adolescência, o Liceu Nacional de Zipaquirá,
foi determinante para que ele se interessasse pelas idéias
socialistas. Segundo Márquez, naquele colégio "o professor
de álgebra nos ensinava no recreio o materialismo histórico,
o de química nos emprestava livros de Lenin e o de história
nos falava da luta de classes". Ele disse ter saído de lá
com a "convicção profunda de que o destino imediato
da humanidade é o socialismo". Em Viver para Contar,
Márquez já é mais contido. Estão lá,
devidamente nomeados, todos os professores que lhe deram acesso
aos "apóstolos da revolução proletária",
mas não se fala em nenhuma conversão definitiva ao
socialismo. Tampouco é mencionada a rápida adesão
de Márquez a uma célula comunista, ainda no período
abrangido por esse primeiro volume das memórias que
se encerra em 1955, quando ele lança seu romance de estréia,
O Enterro do Diabo.
Indira Restrepo/revista Câmbio
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| O
autor em foto recente: convalescendo de um câncer |
É difícil entender o porquê da discrição
de Márquez. Ele nunca fugiu de controvérsias políticas,
mesmo quando suas opiniões não atraem muita simpatia.
Muitos não engolem o fato de Márquez ser amigo do
ditador cubano Fidel Castro. Os dois se conheceram em 1975, quando
Márquez visitou a ilha em busca de material para um livro
que nunca escreveu. Antes desse primeiro encontro, o romancista
já se havia demonstrado leniente com o regime castrista,
ao negar-se a assinar uma petição de intelectuais
em favor do poeta Herberto Padilla, que sofria perseguição
em Cuba. Depois da viagem, Márquez passou a professar verdadeira
admiração por Fidel, e jamais traiu esse sentimento
o que levou o escritor peruano Mario Vargas Llosa a chamá-lo
de "cortesão de Castro". Em Cheiro de Goiaba, Márquez
justificou sua lealdade não sem uma dose de arrogância,
dizendo que ela se baseava "numa informação muito
melhor e mais direta e numa maturidade política que me permite
uma compreensão mais serena, mas paciente e humana da realidade".
Quatro meses atrás, o romancista deu prova reiterada de parcialidade
no que se refere aos disparates da política cubana, ficando
em silêncio quanto à execução sumária
de três homens que tentavam escapar da ilha e ao aprisionamento
de quase oitenta dissidentes, condenados a penas pesadas.
Márquez, que fixou residência há mais de quatro
décadas na Cidade do México, não visita a Colômbia
há três anos. Ele inclusive pôs à venda
a propriedade que possui na cidade costeira de Cartagena, deixando
consternados os habitantes do lugar, que se referiam com maiúsculas
à casa: ela era "La Casa del Escritor". Há três
motivos para essa ausência. Márquez está convalescendo
de uma grave doença, tem medo de viajar de avião e
está desgostoso com a violência que assola a Colômbia.
Ele desperta algo próximo da idolatria entre seus conterrâneos,
que o chamam de "Gabo" ou "maestro". Tem ainda uma autoridade moral
que lhe permitiu servir de intermediário por diversas vezes
em negociações de paz entre o Estado e a guerrilha
colombiana. Ainda assim, não se pode dizer que ele estaria
100% a salvo da sanha das diversas facções que se
digladiam no país. Nas últimas viagens que fez à
terra natal, Márquez nunca dispensou um enorme aparato de
segurança. Dizer que o romancista perdeu contato com o dia-a-dia
dos colombianos seria um erro, contudo. Ele mantém uma extensa
rede de contatos telefônicos e correspondentes pela internet.
Além disso, fala semanalmente com os jornalistas da revista
Cambio, cujo controle acionário adquiriu em 1998 utilizando
o dinheiro de seu Prêmio Nobel (dinheiro que, segundo a lenda,
ele havia "esquecido" num banco suíço desde 1982).
A revista é a segunda em circulação no país
e tem uma sólida reputação de jornalismo crítico
e independente. "Creio que Gabo ainda teria disposição
para intervir de maneira mais direta na política nacional,
se percebesse que há espaço para isso. Mas as circunstâncias
não ajudam", diz um jornalista que preferiu não se
identificar (todas as pessoas do círculo de Márquez
são muito zelosas da privacidade do escritor e jamais falam
em seu nome).
No começo de 1999, Márquez esteve próximo de
um colapso. Ele, que anos antes já havia extraído
um tumor do pulmão, internou-se então num hospital
e detectou qual era o problema numa bateria de exames: câncer
linfático. Márquez passou uma temporada em Los Angeles,
nos Estados Unidos, para submeter-se a uma quimioterapia que surtiu
excelentes resultados. A cura não evitou, porém, um
episódio lastimável: a divulgação, pela
internet, de um melancólico texto-despedida supostamente
assinado pelo autor. Tratava-se, claro, de uma farsa. "Sua saúde
está perfeita", disse a VEJA, na semana passada, Margarita
Márquez, cunhada do escritor e uma espécie de assistente,
que cuida de seus interesses na Colômbia. O romancista só
prossegue na rotina dos check-ups periódicos. O próximo
deve acontecer em duas ou três semanas, em Los Angeles. Enquanto
isso, Márquez escreve, seguindo uma rotina que o leva para
a frente do computador todos os dias, entre as 10 da manhã
e as 2 da tarde. Ele acaba de revisar dois livros de contos inéditos.
Segundo amigos, já deu início à redação
do segundo volume de suas memórias, que deverá estender-se
até o lançamento de Cem Anos de Solidão,
em 1967.
| Versões
dos fatos |
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Muitas
das cenas literárias criadas por Márquez
foram calcadas em episódios reais. Veja dois
exemplos
NAS
MEMÓRIAS...
"Antes
de dormir passávamos um tempão no estúdio
do Belga, um ancião pavoroso que apareceu em
Aracataca depois da Primeira Guerra Mundial. O outro
ser vivo de sua casa era um grande cão dinamarquês,
surdo e pederasta, que se chamava do mesmo jeito que
o presidente dos Estados Unidos: Woodrow Wilson. Conheci
o Belga quando tinha quatro anos e meu avô ia
jogar com ele umas partidas de xadrez que eram mudas
e intermináveis. Fumava um cachimbo de lobo-do-mar
que só acendia para jogar xadrez. Estava inválido
da cintura para baixo, mas navegava feito peixe através
dos recifes de seu estúdio, mais dependurado
que apoiado nas muletas de pau. O fato mais impressionante
da minha infância surgiu na minha frente num domingo,
bem cedinho, quando estávamos indo para a missa.
Meu avô me levou quase que arrastado para o estúdio
do Belga. Fiquei sabendo que o Belga tinha aspirado
uma poção de cianureto de ouro
que dividiu com seu cão. Lá estava o cadáver
coberto com uma manta em um catre de acampamento, e
as muletas ao alcance da mão, onde o dono as
deixou antes de se deitar para morrer. Ao seu lado,
sobre um banquinho de madeira, estava a bacia onde ele
havia vaporizado o cianureto. A primeira coisa que me
estremeceu assim que entrei na casa foi o cheiro do
dormitório. Só muito depois vim a saber
que era o cheiro das amêndoas amargas do cianeto
que o Belga tinha inalado para morrer."
Trecho
editado de
Viver para Contar
...E
NA FICÇÃO
"Era
inevitável: o cheiro das amêndoas amargas
lhe lembrava sempre o destino dos amores contrariados.
O doutor Juvenal Urbino o sentiu logo que entrou na
casa ainda mergulhada em sombras, à qual chegara
acudindo a chamado de urgência. O refugiado antilhano
Jeremiah de Saint-Amour, inválido de guerra,
fotógrafo de crianças e seu adversário
de xadrez mais compassivo, se havia posto a salvo dos
tormentos da memória com uma fumigação
de cianureto de ouro. Encontrou o cadáver coberto
com uma manta no catre de campanha onde sempre dormira,
perto de um tamborete com a vasilha que havia servido
para vaporizar o veneno. No chão, amarrado pela
pata ao catre, estava o corpo estendido de um grande
dinamarquês preto de peito nevado, e junto a ele
estavam as muletas. Havia revistas e jornais velhos
em todos os cantos, pilhas de negativos em placas de
vidro, móveis quebrados, mas tudo estava preservado
da poeira por mãos diligentes. O mestre eminente
descobriu o cadáver palmo a palmo com uma parcimônia
sacramental. Estava nu em pêlo, teso e torto,
com os olhos abertos e o corpo azul, e parecia cinqüenta
anos mais velho do que na noite anterior. Na escrivaninha,
junto a um pote com vários cachimbos de lobo-do-mar,
estava o tabuleiro de xadrez com uma partida inconclusa."
Trecho
editado do romance
O Amor nos Tempos do Cólera
NAS
MEMÓRIAS...
"Minha
mãe apontou com o dedo. 'Olhe lá', disse.
'Foi ali que o mundo se acabou.' Eu acompanhei a direção
de seu dedo indicador e vi a estação,
e na frente uma pracinha árida na qual não
podiam caber mais de duzentas pessoas. Foi ali, de acordo
com o relato preciso de minha mãe naquele dia,
que o exército havia matado em 1928 um número
jamais sabido de diaristas dos bananais. Eu conhecia
o episódio como se o tivesse vivido, depois de
ter ouvido meu avô contá-lo e repeti-lo
mil e uma vezes desde que tive memória: o militar
lendo o decreto que declarava que os peões em
greve eram oficialmente uma quadrilha de malfeitores;
os três mil homens, mulheres e crianças
imóveis debaixo de um sol bárbaro depois
que o oficial deu a todos um prazo de cinco minutos
para esvaziar a praça; a ordem de fogo. (...)
Mais tarde falei com sobreviventes e testemunhas e revirei
coleções de jornais e documentos oficiais.
Os conformistas chegavam a dizer que não houve
morto algum. Os do extremo contrário afirmavam
sem tremer a voz que foram mais de cem. Minha verdade
ficou extraviada para sempre em algum ponto improvável
dos dois extremos. No entanto, foi tão persistente
que num de meus livros me referi à matança
com a precisão e com o horror que durante anos
eu havia incubado na minha imaginação."
Trecho
editado de
Viver para Contar
...E
NA FICÇÃO
"
Senhoras e senhores disse o capitão com
uma voz baixa, lenta, um pouco cansada , têm
cinco minutos para se retirar.
A vaia e os gritos repetidos afogaram o toque de clarim
que anunciou o princípio do prazo. Ninguém
se mexeu.
Já passaram os cinco minutos disse o capitão
no mesmo tom. Mais um minuto e atiramos.
O capitão deu a ordem de fogo e quatorze ninhos
de metralhadoras responderam imediatamente. Mas tudo
parecia uma farsa. Era como se as metralhadoras estivessem
carregadas com fogos de artifício. De repente,
de um lado da estação, um grito de morte
quebrou o encantamento. Uma força sísmica,
uma respiração vulcânica, um rugido
de cataclismo arrebentaram no centro da multidão
com uma descomunal potência expansiva. Várias
vozes gritaram ao mesmo tempo:
Atirem-se no chão! Atirem-se no chão!
Já os das primeiras linhas o tinham feito, varridos
pelas rajadas da metralha. Os sobreviventes, em vez
de se atirarem no chão, tentaram voltar à
praça e o pânico deu uma rabanada de dragão,
e os mandou numa onda compacta contra a outra onda compacta
que se movimentava em sentido contrário, despedida
pela outra rabanada de dragão da rua oposta,
onde também as metralhadoras disparavam sem trégua."
Trecho
editado do romance
Cem Anos de Solidão
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