Edição 1817 . 27 de agosto de 2003

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Teoria
Uma nova agenda

O pai do Consenso de Washington
faz autocrítica e sugere novas
estratégias para a América Latina


João Gabriel de Lima



Tasso Marcelo/AE
Williamson: ex-professor no Rio de Janeiro, ele tem um carinho especial pelo Brasil


O economista inglês John Williamson criou há catorze anos a expressão Consenso de Washington, para designar um conjunto de medidas de política econômica que, aplicado a países da América Latina, deveria resultar em estabilidade e crescimento. Williamson produziu agora um balanço da teoria e da prática das medidas sugeridas no passado. O resultado está no livro Depois do Consenso de Washington (Editora Saraiva; tradução de Célio Knipel Moreira e Cid Knipel Moreira; 306 páginas; 46 reais), que será lançado nesta semana no Brasil. A obra traz artigos de vários economistas, em sua maioria latino-americanos, entre eles o ex-ministro argentino Ricardo López Murphy e o brasileiro Claudio de Moura Castro, colaborador de VEJA. Williamson organizou o livro ao lado do americano de origem peruana Pedro-Pablo Kuczynski e assina o primeiro e os dois últimos capítulos, destinados a resumir as apreciações de seus colegas e a fazer sua própria avaliação. É sabido que o crescimento econômico dos países latino-americanos nos últimos catorze anos foi medíocre e que o Consenso de Washington está sob fogos inimigos e amigos.

Se o resultado pífio das economias latino-americanas foi fruto da aplicação das medidas sugeridas por Williamson há catorze anos, é motivo de inflamado debate. Cada país aplicou o coquetel de remédios a sua moda. Muitos ficaram no meio do caminho, como a Argentina, que adotou alguns procedimentos no sentido de tornar a economia mais produtiva, mas falhou na gestão das contas públicas. O economista Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, observa no prefácio da edição brasileira do livro que os países que obtiveram melhor resultado, o Chile e o México, foram justamente os que cuidaram ao mesmo tempo das contas públicas e do incentivo à produtividade das empresas.

Em sua autocrítica, Williamson identifica três falhas principais na agenda original. A primeira é o fato de não ter pesado a possibilidade de ocorrência de crises externas desestabilizadoras, como as da Rússia, do México e da Ásia, que arrasariam os mercados emergentes. A segunda, a pouca ênfase dada a aspectos institucionais. Hoje se sabe que o que os países desenvolvidos têm em comum é uma democracia que funciona, um Legislativo que cria regras claras e um Judiciário que faz com que elas sejam cumpridas. O terceiro erro teria sido acreditar que os sérios problemas de distribuição de renda e a penúria se resolveriam pela subida da maré econômica. No "novo consenso", portanto, Williamson incluiria uma agenda institucional e outra de combate à iniqüidade – as quais em nenhum momento são incompatíveis com a boa gestão econômica proposta no modelo original. "De certa maneira, o governo de Fernando Henrique Cardoso já estava preocupado com todas essas questões, e o de Lula parece que também vai encarar os mesmos desafios", disse Williamson a VEJA. O economista, ex-funcionário do Banco Mundial, tem um carinho especial pelo Brasil. Já deu aulas na PUC do Rio de Janeiro – um de seus alunos foi justamente Armínio Fraga –, é casado com uma brasileira e tem uma filha que vive no Brasil. A conclusão a que se chega no fim do livro é que o receituário de Williamson perdeu o caráter polêmico que tinha catorze anos atrás. Somando-se as propostas originais com a nova agenda social e institucional, pode-se dizer que não há ali nada que o atual governo de esquerda do Partido dos Trabalhadores não subscreva. O Consenso de Washington poderia se chamar, sem nenhum problema, "Consenso de Brasília".

 
 
 
 
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