Edição 1817 . 27 de agosto de 2003

Índice
Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Stephen Kanitz
Sérgio Abranches
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
VEJA on-line
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Educação
Brasil entre Gana e Coréia

O desafio de repetir a incrível experiência
da Coréia do Sul, que reconstruiu um país
com base na educação


Monica Weinberg

O "efeito educação"
NA INTERNET
Site VEJA Educação

No começo dos anos 60, o Banco Mundial realizou um estudo abrangendo vários países pobres para avaliar as chances que cada um tinha de se desenvolver. Marcada por uma história de invasões e arrasada por uma guerra recém-terminada, a Coréia do Sul foi incluída e acabou catalogada entre os países que enfrentavam dificuldades especiais para prosperar. Com a economia destruída, o padrão de vida dos coreanos assemelhava-se ao dos africanos de Gana, outro país que entrou no estudo e ficou em colocação ruim. Ambos se situaram no patamar de renda per capita da ordem de 900 dólares. O Brasil se destacava no grupo e acabou apontado como um país de futuro promissor. Tinha renda per capita de 1 800 dólares, dispunha de recursos naturais abundantes, um parque industrial em expansão e de universidades. Todas as contas referentes aos países foram feitas com o dólar PPP, iniciais de purchasing power parity, ou paridade de poder de compra. O PPP é uma moeda estatística adequada para comparar realidades distintas. Ele considera que 1 dólar não compra a mesma coisa em todos os lugares. Era esse o prognóstico de quarenta anos atrás, que a realidade não confirmou. Confira no gráfico, onde os dados também estão expressos em dólar PPP.

Para infelicidade dos brasileiros, as previsões do Banco Mundial não se confirmaram e a corrida acabou sendo vencida pela Coréia. Entre 1960 e 1980, a renda per capita coreana alcançou a do Brasil. E nos últimos vinte anos, período em que a economia brasileira patinou, os asiáticos deram um novo salto e dispararam na dianteira. Se no ponto de partida o Brasil tinha renda per capita equivalente ao dobro da renda em Gana e na Coréia, agora os papéis se inverteram. Somem-se as rendas per capita do Brasil (7.200 dólares PPP) e de Gana (2.000 dólares PPP). A atual renda per capita da Coréia equivale a quase o dobro desse valor. A comparação da trajetória econômica entre as economias de Gana e Coréia foi apresentada no Brasil pela primeira vez no ano passado, durante o fórum anual de debates sobre o Brasil organizado pelo ex-ministro João Paulo dos Reis Velloso. O autor do trabalho é Carl Dahlman, economista do Banco Mundial. Vários estudos já foram encomendados para investigar as razões do sucesso coreano e quase todos chegaram a conclusões semelhantes no que diz respeito a um ponto: o investimento pesado e constante em educação foi decisivo para a prosperidade do país.

Como resultado, a população jovem da Coréia apresenta atualmente uma das taxas de escolarização mais altas do mundo. O efeito da educação ajudou a impulsionar a economia coreana. Em 2000, enquanto o Brasil exportou 55 bilhões de dólares, o total das exportações coreanas alcançou 172 bilhões de dólares. Detalhe: mais da metade da exportação brasileira é composta de commodities – produtos como açúcar, café, soja e aço, cujos preços são definidos por tabelas internacionais. No caso coreano, 91% das exportações são formadas por manufaturados, produtos com maior valor agregado.

 
Moreira Mariz
Collor durante inauguração de sua superescola e a piscina da superescola de Marta Suplicy: Ciep virou Ciac que virou Caic que virou CEU
Claudio Rossi

O Brasil não ficou parado na corrida da educação. A taxa de analfabetismo caiu, praticamente todas as crianças estão matriculadas no ensino fundamental e o número de estudantes no ensino superior subiu. Para muitos estudiosos, tais avanços garantiram a sobrevivência do Brasil no mundo globalizado, mas há que se mudar a forma de agir. Dados da Unesco mostram que o Brasil se encontra em desvantagem em relação a quase todos os países no que diz respeito à forma como são feitos os gastos em educação. Comparando-se o investimento per capita no ensino fundamental, Argentina e Chile aplicam praticamente o dobro que o Brasil. A Coréia aloca quase quatro vezes mais dinheiro. Nos Estados Unidos, a quantia é sete vezes maior. Os especialistas apontam ainda uma enorme desproporção entre os gastos com o ensino superior e os com o ensino fundamental. No Brasil, o volume de recursos destinado à formação de um estudante universitário é dezessete vezes maior do que o que se gasta com uma criança nas primeiras séries do ensino fundamental. Na Coréia, a relação é de dois para um.

A trajetória da educação no Brasil não escapou daquilo que a política brasileira tem de pior. Quando os governantes são substituídos, os projetos das gestões anteriores acabam abandonados. Em todos os ramos em que o governo atua, a falta de continuidade produz estragos. Mas a educação é seguramente a área de governo mais sensível a mudanças. Um universitário que se formará neste ano ingressou no ensino fundamental durante o governo José Sarney. Ou seja, esse estudante conheceu cinco presidentes até agora. E o que aconteceu nesse período no Ministério da Educação? Foram dez titulares, detentores de dez políticas educacionais diferentes. O problema da continuidade se agrava quando se leva em conta que a responsabilidade pela educação no Brasil é dividida pela União, pelos Estados e pelos municípios. Além do ministro, há 27 secretários estaduais e milhares de secretários com idéias próprias sobre o tema.

Essa pulverização tornou o Brasil um terreno fértil para experimentos educacionais. Muitos acabaram conhecidos por siglas, como os Ciacs do presidente Collor, os Caics de Itamar Franco e os Cieps de Leonel Brizola. Todos se baseavam na construção de escola-modelo, com quadras de esportes e áreas de recreação. Em comum esses projetos não vingaram. Nas últimas semanas, a prefeita Marta Suplicy inaugurou em São Paulo a primeira de uma série de escolas chamadas de CEU, cuja sigla sugere ser o contrário de inferno, mas quer dizer Centro Educacional Unificado. Como os Ciacs, os Caics e os Cieps, os centros de Marta Suplicy oferecem uma notável infra-estrutura aos alunos, com piscina, teatro, laboratório de informática e quadras esportivas. Do ponto de vista pedagógico, as escolonas são ótimas para os felizardos que se matriculam nelas. Do ponto de vista econômico, no entanto, cabe uma discussão. Cada um dos escolões da prefeitura paulistana vai custar cerca de 16 milhões de reais e tem capacidade para 2 400 alunos. Com o mesmo dinheiro daria para matricular o dobro de alunos em colégios convencionais. Em São Paulo ainda há 49.000 crianças estudando em escolas que funcionam em contêineres. Elas são um forno no verão e um gelo no inverno.

Em um artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo, o ministro da Educação, Cristovam Buarque, comentou a estratégia de alguns países que superaram o desafio de montar um sistema educacional de qualidade, entre eles a Coréia, a Irlanda e a Espanha. Buarque constatou que todos conseguiram celebrar uma espécie de pacto nacional pela educação a fim de garantir a continuidade dos investimentos por vários governos, algo como trinta anos. Esse é um ponto crucial, que precisa ser enfrentado no Brasil. "E se todos nos conscientizarmos disso", diz o ministro Cristovam Buarque, "ainda assim levaremos uma geração para fazer o Brasil avançar quanto precisamos."

 

 

Claudio Rossi
Alcir N. da Silva
A professora brasileira: 25% dos alunos de sua classe já repetiram de ano A professora americana: nenhum de seus alunos repetiu de ano
 
 
 
topo voltar