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Partidos
Quanto riso, oh,
quanta alegria
O PMDB festeja a filiação de Garotinho
e
doze deputados que,
eleitos há dez meses,
já
acharam por bem trocar de sigla

Policarpo
Junior
Numa reunião recente com evangélicos, Anthony Garotinho,
ex-governador do Rio, comunicou sua disposição de
filiar-se ao PMDB e ouviu um dos presentes, o pastor José
Wellington da Costa, fazer uma comparação. Disse que
Garotinho parecia o profeta Daniel, aquele que, em nome da crença
em seu Deus, foi atirado numa cova de leões famintos e sobreviveu
sem um único arranhão. Conforme essa interpretação
bíblica, Garotinho, convertido à religião evangélica
há nove anos, acaba de trocar o PSB pela cova dos leões
famintos do PMDB. Ninguém sabe se vai sobreviver, mas sua
filiação é uma tentativa de salvar a administração
de sua mulher, Rosinha Garotinho, governadora do Rio de Janeiro.
Garotinho, que ocupa o posto de secretário de Segurança
do Estado, quer aproximar-se do governo federal para obter verbas
que ajudem a esposa a escapar do naufrágio no Rio. "Rosinha
não consegue falar com o Palocci nem por telefone", reclamou
ele, num encontro com cardeais do PMDB. No novo partido, o casal
espera ter mais chances de abrir os cofres de Brasília e,
assim, manter acesa a chama que arde em Garotinho: candidatar-se
à Presidência em 2006 ou 2010 ou 2014 ou 2018...
A festa de filiação, com a presença do deputado
Michel Temer, presidente do PMDB, foi um espetáculo de risos
e alegria. Político populista mais bem-sucedido de sua geração,
Garotinho, 43 anos, sempre teve olho clínico para seu futuro.
Ajudou a fundar o PT, mas, quando notou que suas chances eleitorais
eram maiores no PDT, fez a mudança de sigla. Estava certo:
elegeu-se deputado estadual, prefeito de Campos e governador do
Rio. Ao perceber a porta fechada para a candidatura presidencial
pelo PDT, bandeou-se para o PSB e fez bonito: obteve um respeitável
balaio de 15 milhões de votos. Agora, ao aderir ao PMDB,
provocou felicidade geral na nação oposicionista do
partido, liderada pelo baiano Geddel Vieira Lima. Com Garotinho,
o PMDB, esse retalho partidário que tem sido apenas um mamute
coadjuvante nas últimas sucessões, ganha um nome de
projeção capaz de encabeçar uma chapa presidencial.
Garotinho, por sua vez, terá um partido bem estruturado,
com estacas cravadas em todo o território nacional. "Estou
no PMDB com o coração e com a razão", festejou
ele.
A mudança de Garotinho, que não foi precedida por
nenhum debate ideológico, nenhuma discussão programática,
enfim, por nada daquilo que deveria mover as trocas partidárias,
altera a posição das legendas da base do governo no
Congresso. O secretário de Segurança do Rio ainda
levou consigo doze deputados dez saíram do PSB, um
do PTB e outro do PP. Nenhum deles exibiu o menor sinal de constrangimento
com o fato de que, há apenas dez meses, se elegeram por uma
legenda e já a trocaram por outra, num olímpico desrespeito
aos eleitores. É um movimento permitido pela lei eleitoral,
mas só serve para demonstrar a folia do quadro partidário
brasileiro e, também, para sedimentar a noção
popular de que a fidelidade de um político à doutrina
partidária é nula.
Com a adesão de Garotinho e seu grupo dos doze, até
a ala governista do PMDB teve motivos para celebrar a manobra. Como
exceção, José Sarney, presidente do Senado
e aliado fiel do governo petista, fez de tudo para impedir a chegada
de Garotinho, disse que sua filiação soaria como provocação
ao Palácio do Planalto e tentou, em vão, dissuadir
Michel Temer. Mas outros governistas, sob a liderança do
senador alagoano Renan Calheiros, até gostaram da novidade.
Afinal, a adesão em massa deixou o PMDB com a segunda maior
bancada da Câmara, atrás apenas da petista. Isso, naturalmente,
aumenta a força do PMDB na hora de negociar cargos e verbas
com o governo federal e, é claro, cobrar um ministeriozinho.
Uns chamam essa vitamina de "poder de negociação",
outros de "poder de pressão". Há quem a classifique
como "poder de barganha" e outros a entendem como "poder de chantagem".
Seja o que for, tudo visa ao mesmo fim dos leões famintos
da política: cargos e verbas, risos e alegria. Daniel que
se cuide.
| Os
partidos de Garotinho |
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1975:
Namoro com o "socialismo científico"
Na militância estudantil, era um simpatizante
do PCB, o velho partidão
1980:
Ao lado da "classe trabalhadora"
Participa da criação do PT e concorre,
sem sucesso, a vereador em Campos, no Rio
1983:
Encontro com o populismo de esquerda
No PDT, elege-se deputado estadual, prefeito de Campos
e governador do Rio
2001:
Um novo socialista
Adere ao PSB e disputa a Presidência da República,
recebendo 15 milhões de votos
Semana
passada: Mergulho na geléia geral
Filia-se ao PMDB, uma legenda, hoje, sem perfil ideológico
ou programático
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