Edição 1817 . 27 de agosto de 2003

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Partidos
Quanto riso, oh,
quanta alegria

O PMDB festeja a filiação de Garotinho e
doze deputados
que, eleitos há dez meses,
acharam por bem trocar de sigla


Policarpo Junior

Numa reunião recente com evangélicos, Anthony Garotinho, ex-governador do Rio, comunicou sua disposição de filiar-se ao PMDB e ouviu um dos presentes, o pastor José Wellington da Costa, fazer uma comparação. Disse que Garotinho parecia o profeta Daniel, aquele que, em nome da crença em seu Deus, foi atirado numa cova de leões famintos e sobreviveu sem um único arranhão. Conforme essa interpretação bíblica, Garotinho, convertido à religião evangélica há nove anos, acaba de trocar o PSB pela cova dos leões famintos do PMDB. Ninguém sabe se vai sobreviver, mas sua filiação é uma tentativa de salvar a administração de sua mulher, Rosinha Garotinho, governadora do Rio de Janeiro. Garotinho, que ocupa o posto de secretário de Segurança do Estado, quer aproximar-se do governo federal para obter verbas que ajudem a esposa a escapar do naufrágio no Rio. "Rosinha não consegue falar com o Palocci nem por telefone", reclamou ele, num encontro com cardeais do PMDB. No novo partido, o casal espera ter mais chances de abrir os cofres de Brasília e, assim, manter acesa a chama que arde em Garotinho: candidatar-se à Presidência em 2006 ou 2010 ou 2014 ou 2018...

A festa de filiação, com a presença do deputado Michel Temer, presidente do PMDB, foi um espetáculo de risos e alegria. Político populista mais bem-sucedido de sua geração, Garotinho, 43 anos, sempre teve olho clínico para seu futuro. Ajudou a fundar o PT, mas, quando notou que suas chances eleitorais eram maiores no PDT, fez a mudança de sigla. Estava certo: elegeu-se deputado estadual, prefeito de Campos e governador do Rio. Ao perceber a porta fechada para a candidatura presidencial pelo PDT, bandeou-se para o PSB e fez bonito: obteve um respeitável balaio de 15 milhões de votos. Agora, ao aderir ao PMDB, provocou felicidade geral na nação oposicionista do partido, liderada pelo baiano Geddel Vieira Lima. Com Garotinho, o PMDB, esse retalho partidário que tem sido apenas um mamute coadjuvante nas últimas sucessões, ganha um nome de projeção capaz de encabeçar uma chapa presidencial. Garotinho, por sua vez, terá um partido bem estruturado, com estacas cravadas em todo o território nacional. "Estou no PMDB com o coração e com a razão", festejou ele.

A mudança de Garotinho, que não foi precedida por nenhum debate ideológico, nenhuma discussão programática, enfim, por nada daquilo que deveria mover as trocas partidárias, altera a posição das legendas da base do governo no Congresso. O secretário de Segurança do Rio ainda levou consigo doze deputados – dez saíram do PSB, um do PTB e outro do PP. Nenhum deles exibiu o menor sinal de constrangimento com o fato de que, há apenas dez meses, se elegeram por uma legenda e já a trocaram por outra, num olímpico desrespeito aos eleitores. É um movimento permitido pela lei eleitoral, mas só serve para demonstrar a folia do quadro partidário brasileiro e, também, para sedimentar a noção popular de que a fidelidade de um político à doutrina partidária é nula.

Com a adesão de Garotinho e seu grupo dos doze, até a ala governista do PMDB teve motivos para celebrar a manobra. Como exceção, José Sarney, presidente do Senado e aliado fiel do governo petista, fez de tudo para impedir a chegada de Garotinho, disse que sua filiação soaria como provocação ao Palácio do Planalto e tentou, em vão, dissuadir Michel Temer. Mas outros governistas, sob a liderança do senador alagoano Renan Calheiros, até gostaram da novidade. Afinal, a adesão em massa deixou o PMDB com a segunda maior bancada da Câmara, atrás apenas da petista. Isso, naturalmente, aumenta a força do PMDB na hora de negociar cargos e verbas com o governo federal – e, é claro, cobrar um ministeriozinho. Uns chamam essa vitamina de "poder de negociação", outros de "poder de pressão". Há quem a classifique como "poder de barganha" e outros a entendem como "poder de chantagem". Seja o que for, tudo visa ao mesmo fim dos leões famintos da política: cargos e verbas, risos e alegria. Daniel que se cuide.

 
Os partidos de Garotinho

1975: Namoro com o "socialismo científico"
Na militância estudantil, era um simpatizante do PCB, o velho partidão

1980: Ao lado da "classe trabalhadora"
Participa da criação do PT e concorre, sem sucesso, a vereador em Campos, no Rio

1983: Encontro com o populismo de esquerda
No PDT, elege-se deputado estadual, prefeito de Campos e governador do Rio

2001: Um novo socialista
Adere ao PSB e disputa a Presidência da República, recebendo 15 milhões de votos

Semana passada: Mergulho na geléia geral
Filia-se ao PMDB, uma legenda, hoje, sem perfil ideológico ou programático

 

 
 
 
 
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