Edição 1817 . 27 de agosto de 2003

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Juros
O juro do BC caiu.
Agora vai?

Pela primeira vez em quatro anos,
a taxa cai 2,5 pontos, mas o chamado
"juro real" continua estrangulando
o crescimento


Maurício Lima e Felipe Patury

 
Ana Araujo
A primeira foto de uma reunião do Copom: sigilo impede acesso de garçons e de secretárias


A curva do juro real
NA INTERNET
Notícias diárias sobre economia

Na quarta-feira passada, o ministro Antonio Palocci, da Fazenda, demonstrava uma ponta de nervosismo durante reunião com o presidente Lula e líderes da base governista no Congresso. Discutia-se a reforma tributária, mas Palocci estava ansioso para saber o resultado da reunião do Banco Central sobre a taxa de juros. A cada cinco minutos, do celular, o ministro ligava para seu secretário particular Ademirson Souza, indagando sobre o assunto. "E aí? Saiu? Não? Por que tanta demora?" Por volta das 14h30, o assessor soube do resultado, ligou para Palocci, mas o aparelho estava desligado. Resolveu deslocar-se até a sala de reunião e passar um bilhete manuscrito ao chefe. Dizia o seguinte: "Foi divulgado. Menos 2,5%". Palocci leu o bilhete e sorriu: a taxa caíra 2,5 pontos porcentuais, passando de 24,5% para 22% ao ano, a maior queda desde maio de 1999. Satisfeito, o ministro quis compartilhar a notícia. Passou o bilhete ao presidente, que exclamou: "Olha! O ministro Palocci está radical hoje. Baixou os juros em 2,5%". Os parlamentares presentes à reunião se animaram e aplaudiram a notícia – e, dois dias mais tarde, depois de muito bate-boca e xingamento, acabaram aprovando o texto da reforma tributária na comissão especial da Câmara dos Deputados.

A festa pela queda dos juros é compreensível, já que uma taxa de 24,5% é insuportável, mas a redução deve ser saudada mais pelo que indica (a tendência de queda) do que pelo que informa (a taxa de 22%). Em oito meses de governo, o Banco Central petista não fizera sinalização tão forte, com queda tão acentuada, e o gesto surpreendeu o mercado e mereceu elogios até da Fiesp, entidade que reúne a nata da indústria paulista e sempre bateu forte contra a alta dos juros. "Não posso deixar de elogiar essa queda", disse Horácio Lafer Piva, fazendo questão, no entanto, de lembrar que a nova taxa, apesar da redução, permanece entre as mais elevadas do mundo, perdendo apenas para os juros cobrados na Turquia. O juro determinado pelo BC chama-se "taxa Selic" e define o índice pelo qual são remunerados os títulos do governo. Serve, assim, apenas como sinalização para os juros cobrados no mercado, onde o valor final, embutidas as margens de lucro, as taxas de risco e os custos administrativos, costuma ser muito mais alto. Hoje, os juros do crediário passam de 100%. No caso do cheque especial ou do cartão de crédito, a taxa, atualmente, é superior a 200% ao ano.

São números altíssimos, mas há outro dado dramático: o chamado "juro real" – ou seja, a diferença entre a taxa de juros definida pelo BC e a inflação. As previsões indicam que, nos próximos doze meses, a inflação ficará ao redor de 6,5% ou 7%. Isso significa que, com a taxa Selic fixada em 22% ao ano, o juro real está em torno de 15%. Uma taxa de juro real tão elevada é instrumento muito eficaz para conter a inflação, mas também faz com que empresas e pessoas físicas prefiram deixar seu dinheiro no banco, recebendo uma alta remuneração, a investir na produção ou gastar no consumo cotidiano. "O juro real é a parte do rendimento financeiro que vai para o bolso do investidor. É o que pode ser considerado lucro do investimento", explica o economista Luis Fernando Lopes, do Banco Pátria. Quando o juro real está baixo, acontece exatamente o contrário: as empresas investem na produção e as pessoas consomem mais, provocando um ciclo de crescimento econômico – mas, como nem tudo é perfeito, a inflação pode aumentar. Os economistas informam que nenhum país do mundo consegue crescer sustentadamente com taxas de juro real acima de 10%. Sabem também, por experiência, que países onde o Estado absorve quase todo o crédito bancário disponível, como é o caso do Brasil, em que o governo fica com quase 8 de cada 10 reais disponíveis, é muito difícil empurrar o juro real para baixo de 10% sem criar inflação. Eles não entendem bem a razão. Há duas semanas, Persio Arida, um dos mais brilhantes economistas brasileiros, que foi presidente do Banco Central, reafirmou essa máxima em um discurso na Ordem dos Economistas de São Paulo. Arida disse que a resposta ao enigma deve ser buscada nas deformações da vida econômica brasileira provocadas por um Estado devorador de poupança e na não-convertibilidade da moeda.

A principal tarefa de um Banco Central é calibrar da melhor forma possível sua taxa de juros, encontrando um patamar que seja alto o bastante para evitar um surto inflacionário e, ao mesmo tempo, baixo o suficiente para manter a economia aquecida. No caso brasileiro, os juros tendem a ser elevados em virtude do histórico nacional de inflação. No Japão, que luta contra a recessão há mais de dez anos, os juros reais são negativos – quer dizer, são inferiores à taxa de inflação. Nesse caso, deixar o dinheiro no banco, ou aplicá-lo na poupança, rende menos que a inflação e, portanto, vale mais a pena gastar no consumo ou investir na produção. O Brasil, ao contrário do que muitos imaginam, já teve juros negativos, que impulsionaram os surtos de crescimento dos anos 70. Era uma época em que o governo não tinha controle de suas contas, não sabia quanto devia, quanto gastaria por ano nem que dívidas poderia criar e pagar em dia. Há mais de vinte anos, porém, o juro negativo sumiu do panorama econômico nacional porque, de lá para cá, o governo finalmente tomou pé das contas, passou a controlar o orçamento e a reduzir a dívida pública em relação ao PIB.

Dida Sampaio/AE
Na Câmara, bate-boca antecede a aprovação da reforma tributária


Com esses avanços na responsabilidade fiscal, a própria definição da "taxa Selic" pelo Banco Central tornou-se mais profissional e transparente. Até 1996, seu valor era estabelecido pelo presidente do BC numa reunião com seu diretor de política monetária. Os dois analisavam a situação da economia e anunciavam o novo índice. A partir de junho de 1996, inspirado no modelo do Fed, o banco central americano, o BC criou o Comitê de Política Monetária (Copom), um fórum mais qualificado para discutir o assunto. Composto dos oito membros da diretoria do BC, mais seis chefes de departamento e alguns assessores, o Copom reúne-se uma vez por mês, fazendo dois encontros separados. O primeiro, sempre numa terça-feira, é realizado no 8º andar do BC e conta com a participação de todos. Nesse encontro, que dura em média três horas e é cercado de sigilo, seus membros fazem uma ampla análise da economia brasileira. Munido de laptop, cada chefe de departamento fala sobre sua área específica – inflação, dólar, balança comercial, produção industrial e outras –, apresentando gráficos e dados num telão, conforme mostra a foto no início desta reportagem, o primeiro registro visual dessa reunião desde a criação do Copom.

No dia seguinte, uma quarta-feira, o clima de segredo é ainda maior. Só os sete diretores, o presidente do BC e um chefe de departamento, encarregado de escrever a ata da reunião, se encontram para a votação. Até o lugar é diferente. O segundo encontro acontece no 20º andar do BC, numa sala contígua à do presidente. Nenhum dos presentes leva telefone celular. Nenhum garçom está autorizado a entrar no recinto, e as secretárias são orientadas a não interromper. Em cima da mesa, apenas as garrafas de água, café, refrigerantes e uma cesta de pão de queijo. Nesse segundo dia, todos os diretores falam e apresentam as razões de seu voto. Dois são os mais importantes para essa definição: o diretor de política econômica e o diretor de política monetária. Em geral, o placar é escolhido por unanimidade. Mas, de vez em quando, há divergências. Em 17 de julho do ano passado, por exemplo, cinco membros do Copom queriam baixar os juros de 18,5% para 18%. Dois preferiam manter a taxa inalterada em função de sinais de retomada da inflação. Foram vencidos, mas estavam certos: três meses depois, o Copom subiu os juros em 3 pontos porcentuais – e por unanimidade.

Na semana passada, o Copom entendeu que poderia baixar o juro porque houve redução significativa da inflação e a reforma da Previdência Social, o maior gargalo das contas públicas, já passou pelo seu teste crucial – a aprovação, em primeiro turno, na Câmara dos Deputados. "Pegamos o Brasil numa realidade dura", disse a VEJA o presidente do BC, Henrique Meirelles, ao explicar sua política de redução cuidadosa e gradual dos juros. "Outros países", comparou Meirelles, "passaram por crise semelhante e perderam de 7% a 15% do seu PIB. O Brasil conseguiu enfrentar o turbilhão de maneira estável, registrando até um crescimento mínimo." Isso não quer dizer, no entanto, que o juro real estará em franca queda daqui para a frente. Na última semana, o economista Eduardo Giannetti da Fonseca, durante um encontro em Campos do Jordão, no interior de São Paulo, disse que, "mesmo em céu de brigadeiro", a taxa real de juros deve continuar alta em 2004. Giannetti da Fonseca estima que, na melhor das hipóteses, o juro real cairá dos 15% de hoje para algo em torno de 8% e 9%. Bem, está longe de ser um paraíso, mas é melhor ter juros em queda do que em alta.

 
 
 
 
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