Edição 1817 . 27 de agosto de 2003

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Astronomia
Perto da Terra, longe dos olhos

Nosso planeta e Marte terão aproximação
recorde, mas não espere um show no céu



Especial: os mistérios do planeta vermelho

A distância entre a Terra e Marte será, nesta quarta-feira, a menor entre os dois planetas nos últimos 60.000 anos. Quem espera enxergar a olho nu os famosos canais e calotas polares do planeta vermelho ficará tão frustrado quanto as multidões que passaram a noite em claro para ver a passagem do Halley, em 1986. O cometa, que se aproxima da Terra a cada 76 anos, mal pôde ser percebido no céu noturno. Os mais afoitos chegaram a anunciar que Marte será uma "segunda Lua no céu". Pode esquecer. A Lua cheia ocupa normalmente uma área 5 300 vezes maior que a de Marte no dia 27. "Ninguém verá uma bola vermelha brilhando no céu", diz o astrônomo americano Myles Standish, do Laboratório de Propulsão a Jato da Nasa, a agência espacial americana. Planeta que reflete a luz do Sol, Marte terá a aparência de uma estrela – aliás, a de maior brilho naquela noite. Vai nascer ao leste e poderá ser identificada pela cor alaranjada e pelo brilho fixo. Se o observador estiver numa grande cidade, a iluminação urbana e a poluição prejudicarão muito a visão de Marte. Quem dispuser de um horizonte rural e de telescópio ou boa luneta poderá ver alguns detalhes, como as manchas do relevo e as calotas polares do planeta. Mas com esse tipo de equipamento se pode ver o mesmo em qualquer noite de bom tempo em que Marte esteja no firmamento. Bem, no dia 27 se verá isso um pouco melhor.

A aproximação excepcional entre a Terra e Marte vale muito mais pelo inusitado que pelo espetáculo. Ela começou em junho e chegará a apenas 55,7 milhões de quilômetros antes de o afastamento começar. Essa é uma distância pequena em termos astronômicos e acontece a intervalos muito grandes. Na última vez em que os dois planetas vizinhos ficaram tão próximos um do outro, os seres humanos começavam a deixar a África, seu continente original, e a Europa era habitada pelo homem de Neandertal, espécie extinta há 30.000 anos. O fenômeno decorre da trajetória elíptica com que ambos os planetas giram em torno do Sol. A de Marte é mais irregular que a da Terra. A cada dois anos, um mês e dezenove dias, a Terra, Marte e o Sol estão alinhados, com a estrela em uma das pontas. Nessas ocasiões, a distância média entre os planetas é de 78 milhões de quilômetros. A cada quinze anos, em média, a aproximação entre eles atinge sua menor distância. Mas chegarem tão perto como nesta quarta-feira só ocorrerá novamente em 2287 e, depois, em 2729.

NASA
Marte, o planeta vermelho: indícios de água no subsolo


As aproximações periódicas facilitam bastante o lançamento de naves a Marte. Neste ano foram enviadas ao planeta vermelho três sondas, que pousarão no solo marciano entre dezembro e janeiro. Duas são americanas e a outra é européia. Todas procurarão por sinais de vida no planeta, uma possibilidade que fascina a humanidade. Observações constantes tornaram Marte uma espécie de planeta-irmão no sistema solar. Só a Lua foi mais explorada. As baixas temperaturas, a secura da superfície e a atmosfera rarefeita tornam o planeta tremendamente árido em comparação com a Terra. Mas há muitas semelhanças entre ambos. O dia dura 24 horas e 39 minutos, as estações são bem definidas, há acúmulo de gelo sobre os pólos e o relevo acidentado lembra o de nosso planeta. Acredita-se que 3,5 bilhões de anos atrás Marte tinha rios e corredeiras e a água se acumulava em oceanos rasos. Um dos grandes mistérios é onde foi parar todo esse líquido. Sondas como a Mars Global Surveyor, lançada em 1996, mostram que há grande chance de esse líquido estar acumulado no subsolo do planeta. As possibilidades são fascinantes. Isso significa que poderemos colonizar o planeta? Os marcianos vivem nas lagoas subterrâneas? A expectativa não é encontrar homenzinhos verdes, mas bactérias capazes de sobreviver em condições extremas. Há sete anos, o exame de um meteorito encontrado na Antártica sugeriu que possa ter existido em Marte, bilhões de anos atrás, uma fauna microscópica muito parecida com os seres unicelulares que habitaram a Terra nos primórdios da história biológica de nosso planeta. O estudo era inconclusivo, mas plantou a idéia intrigante de que a vida pode ter surgido em outro planeta e de lá migrado para cá presa em rochas arrancadas à superfície de Marte e lançadas no espaço. Decifrar os mistérios do planeta vermelho pode nos ajudar a preencher as lacunas de nossas origens. A proximidade entre os dois planetas é um incentivo a mais no fascínio que Marte exerce sobre os habitantes da Terra.

 

Ir para Europa, sonho da humanidade

NASA
Europa com sua crosta de gelo


No imaginário popular, Marte é o lugar mais provável para encontrar vida fora da Terra. Entre os cientistas, há um candidato igualmente bem colocado: Europa, uma das maiores luas de Júpiter. Com tamanho similar ao da Lua terrestre, Europa é totalmente recoberta por uma crosta de gelo de 19 quilômetros de espessura. Imagens enviadas pela sonda Galileo, que passou por lá em 2000, mostram rachaduras nessa capa gelada. A hipótese mais ousada é que sejam provocadas pela movimentação de líquido sob o gelo. Há indícios de que o satélite tenha carbono, nitrogênio e fósforo, que são os elementos formadores das moléculas orgânicas. Por fim, parece haver atividade vulcânica no coração do satélite. Ou seja, Europa dispõe dos três elementos básicos para a vida: uma fonte de energia, água líquida e moléculas orgânicas. Não se saberá muito mais até o envio da próxima sonda, o que não deve acontecer antes de 2030. O certo é que os satélites do sistema solar estão se revelando tão interessantes para a ciência quanto os próprios planetas.

Quando o homem pousou na Lua pela primeira vez, em 1969, sabia-se da existência de 32 satélites nos nove planetas do sistema solar. Hoje, conhecem-se 128. Com exceção de quatro, todos giram ao redor de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno. A enxurrada de descobertas começou em 2001 e atingiu o pico nos últimos três meses, com a identificação de 21 novas luas em torno de Júpiter. Localizado a 630 milhões de quilômetros da Terra, o maior planeta solar possui 61 luas conhecidas, das quais 44 foram encontradas nos últimos três anos. Saturno, o planeta dos anéis, tem 31 satélites naturais, o último deles identificado em fevereiro. O impulso na visualização de luas decorre, em grande medida, do desenvolvimento de um novo tipo de câmera fotográfica digital, que começa a ser usada nos grandes telescópios. Conhecida pela sigla CCD (abreviação inglesa para câmera com dispositivo de carga acoplado), a máquina capta a luminosidade solar refletida por pequenos objetos a mais de 1,3 bilhão de quilômetros da Terra. "O que ocorre com os satélites é um resumo do que acontece com a astronomia: nós estamos mais eficientes do que nunca", diz o astrônomo americano David Jewitt, da Universidade do Havaí.

As luas recém-descobertas são bastante semelhantes entre si. Pequenas, com 1 a 10 quilômetros de diâmetro, descrevem órbitas irregulares, e algumas delas giram em sentido contrário ao do planeta. A maioria desses pedregulhos cósmicos nem sequer recebeu nome e é identificada por uma sigla. Bem diferente do que ocorre com Io, Europa, Ganimedes e Calisto, os quatro satélites de Júpiter descobertos pelo astrônomo italiano Galileu Galilei, em 1610, o maior deles com duas vezes o diâmetro de nossa Lua, que é de 2 400 quilômetros.

 

 
 
 
 
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