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Astronomia
Perto
da Terra, longe dos olhos
Nosso planeta e Marte terão aproximação
recorde, mas não espere um show no céu
A
distância entre a Terra e Marte será, nesta quarta-feira,
a menor entre os dois planetas nos últimos 60.000 anos. Quem
espera enxergar a olho nu os famosos canais e calotas polares do
planeta vermelho ficará tão frustrado quanto as multidões
que passaram a noite em claro para ver a passagem do Halley, em
1986. O cometa, que se aproxima da Terra a cada 76 anos, mal pôde
ser percebido no céu noturno. Os mais afoitos chegaram a
anunciar que Marte será uma "segunda Lua no céu".
Pode esquecer. A Lua cheia ocupa normalmente uma área 5 300
vezes maior que a de Marte no dia 27. "Ninguém verá
uma bola vermelha brilhando no céu", diz o astrônomo
americano Myles Standish, do Laboratório de Propulsão
a Jato da Nasa, a agência espacial americana. Planeta que
reflete a luz do Sol, Marte terá a aparência de uma
estrela aliás, a de maior brilho naquela noite. Vai
nascer ao leste e poderá ser identificada pela cor alaranjada
e pelo brilho fixo. Se o observador estiver numa grande cidade,
a iluminação urbana e a poluição prejudicarão
muito a visão de Marte. Quem dispuser de um horizonte rural
e de telescópio ou boa luneta poderá ver alguns detalhes,
como as manchas do relevo e as calotas polares do planeta. Mas com
esse tipo de equipamento se pode ver o mesmo em qualquer noite de
bom tempo em que Marte esteja no firmamento. Bem, no dia 27 se verá
isso um pouco melhor.
A aproximação excepcional entre a Terra e Marte vale
muito mais pelo inusitado que pelo espetáculo. Ela começou
em junho e chegará a apenas 55,7 milhões de quilômetros
antes de o afastamento começar. Essa é uma distância
pequena em termos astronômicos e acontece a intervalos muito
grandes. Na última vez em que os dois planetas vizinhos ficaram
tão próximos um do outro, os seres humanos começavam
a deixar a África, seu continente original, e a Europa era
habitada pelo homem de Neandertal, espécie extinta há
30.000 anos. O fenômeno decorre da trajetória elíptica
com que ambos os planetas giram em torno do Sol. A de Marte é
mais irregular que a da Terra. A cada dois anos, um mês e
dezenove dias, a Terra, Marte e o Sol estão alinhados, com
a estrela em uma das pontas. Nessas ocasiões, a distância
média entre os planetas é de 78 milhões de
quilômetros. A cada quinze anos, em média, a aproximação
entre eles atinge sua menor distância. Mas chegarem tão
perto como nesta quarta-feira só ocorrerá novamente
em 2287 e, depois, em 2729.
NASA
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| Marte,
o planeta vermelho: indícios de água no subsolo |
As aproximações periódicas facilitam bastante
o lançamento de naves a Marte. Neste ano foram enviadas ao
planeta vermelho três sondas, que pousarão no solo
marciano entre dezembro e janeiro. Duas são americanas e
a outra é européia. Todas procurarão por sinais
de vida no planeta, uma possibilidade que fascina a humanidade.
Observações constantes tornaram Marte uma espécie
de planeta-irmão no sistema solar. Só a Lua foi mais
explorada. As baixas temperaturas, a secura da superfície
e a atmosfera rarefeita tornam o planeta tremendamente árido
em comparação com a Terra. Mas há muitas semelhanças
entre ambos. O dia dura 24 horas e 39 minutos, as estações
são bem definidas, há acúmulo de gelo sobre
os pólos e o relevo acidentado lembra o de nosso planeta.
Acredita-se que 3,5 bilhões de anos atrás Marte tinha
rios e corredeiras e a água se acumulava em oceanos rasos.
Um dos grandes mistérios é onde foi parar todo esse
líquido. Sondas como a Mars Global Surveyor, lançada
em 1996, mostram que há grande chance de esse líquido
estar acumulado no subsolo do planeta. As possibilidades são
fascinantes. Isso significa que poderemos colonizar o planeta? Os
marcianos vivem nas lagoas subterrâneas? A expectativa não
é encontrar homenzinhos verdes, mas bactérias capazes
de sobreviver em condições extremas. Há sete
anos, o exame de um meteorito encontrado na Antártica sugeriu
que possa ter existido em Marte, bilhões de anos atrás,
uma fauna microscópica muito parecida com os seres unicelulares
que habitaram a Terra nos primórdios da história biológica
de nosso planeta. O estudo era inconclusivo, mas plantou a idéia
intrigante de que a vida pode ter surgido em outro planeta e de
lá migrado para cá presa em rochas arrancadas à
superfície de Marte e lançadas no espaço. Decifrar
os mistérios do planeta vermelho pode nos ajudar a preencher
as lacunas de nossas origens. A proximidade entre os dois planetas
é um incentivo a mais no fascínio que Marte exerce
sobre os habitantes da Terra.
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Ir
para Europa, sonho da humanidade
NASA
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| Europa
com sua crosta de gelo |
No imaginário popular, Marte é o lugar
mais provável para encontrar vida fora da Terra.
Entre os cientistas, há um candidato igualmente
bem colocado: Europa, uma das maiores luas de Júpiter.
Com tamanho similar ao da Lua terrestre, Europa é
totalmente recoberta por uma crosta de gelo de 19 quilômetros
de espessura. Imagens enviadas pela sonda Galileo, que
passou por lá em 2000, mostram rachaduras nessa
capa gelada. A hipótese mais ousada é
que sejam provocadas pela movimentação
de líquido sob o gelo. Há indícios
de que o satélite tenha carbono, nitrogênio
e fósforo, que são os elementos formadores
das moléculas orgânicas. Por fim, parece
haver atividade vulcânica no coração
do satélite. Ou seja, Europa dispõe dos
três elementos básicos para a vida: uma
fonte de energia, água líquida e moléculas
orgânicas. Não se saberá muito mais
até o envio da próxima sonda, o que não
deve acontecer antes de 2030. O certo é que os
satélites do sistema solar estão se revelando
tão interessantes para a ciência quanto
os próprios planetas.
Quando o homem pousou na Lua pela primeira vez, em 1969,
sabia-se da existência de 32 satélites
nos nove planetas do sistema solar. Hoje, conhecem-se
128. Com exceção de quatro, todos giram
ao redor de Júpiter, Saturno, Urano e Netuno.
A enxurrada de descobertas começou em 2001 e
atingiu o pico nos últimos três meses,
com a identificação de 21 novas luas em
torno de Júpiter. Localizado a 630 milhões
de quilômetros da Terra, o maior planeta solar
possui 61 luas conhecidas, das quais 44 foram encontradas
nos últimos três anos. Saturno, o planeta
dos anéis, tem 31 satélites naturais,
o último deles identificado em fevereiro. O impulso
na visualização de luas decorre, em grande
medida, do desenvolvimento de um novo tipo de câmera
fotográfica digital, que começa a ser
usada nos grandes telescópios. Conhecida pela
sigla CCD (abreviação inglesa para câmera
com dispositivo de carga acoplado), a máquina
capta a luminosidade solar refletida por pequenos objetos
a mais de 1,3 bilhão de quilômetros da
Terra. "O que ocorre com os satélites é
um resumo do que acontece com a astronomia: nós
estamos mais eficientes do que nunca", diz o astrônomo
americano David Jewitt, da Universidade do Havaí.
As luas recém-descobertas são bastante
semelhantes entre si. Pequenas, com 1 a 10 quilômetros
de diâmetro, descrevem órbitas irregulares,
e algumas delas giram em sentido contrário ao
do planeta. A maioria desses pedregulhos cósmicos
nem sequer recebeu nome e é identificada por
uma sigla. Bem diferente do que ocorre com Io, Europa,
Ganimedes e Calisto, os quatro satélites de Júpiter
descobertos pelo astrônomo italiano Galileu Galilei,
em 1610, o maior deles com duas vezes o diâmetro
de nossa Lua, que é de 2 400 quilômetros.
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