Edição 1817 . 27 de agosto de 2003

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Turismo
A capital da adrenalina

Saltar de uma altura de 38 andares?
Em Queenstown, isso faz todo o sentido


Isabela Boscov, da Nova Zelândia

 
Divulgação

CANYON SWINGING
• O QUE É: um "balanço" pendurado num cabo estendido entre as duas paredes de um cânion. No Shotover Swing, o mais alto de Queenstown, salta-se de uma altura de 109 metros, e pode-se chegar a até 149 km/h. Ao fim da queda livre, o esportista balança durante cerca de um minuto apenas 7 metros acima do Rio Shotover

Se você estiver em Queenstown, é provável que pertença a uma de duas categorias: a das pessoas que já enlouqueceram ou a das que estão prestes a enlouquecer. Encravada entre as montanhas dos Alpes do Sul e o Lago Wakatipu, na Ilha Sul da Nova Zelândia, essa cidade de 17.000 habitantes abriga uma população flutuante que atinge de três a cinco vezes esse número, o ano todo. Parte dos turistas está lá pelas razões que, desde 1860, atraem visitantes a essa região do país: os picos nevados, as águas cristalinas e as trilhas que cortam as paisagens estupendas, estas popularizadas pelos dois filmes já lançados da trilogia O Senhor dos Anéis. A outra parte – cada vez mais significativa – dos viajantes vai a Queenstown por causa da fama singular que a cidade adquiriu nos últimos anos: a de capital mundial dos esportes radicais. Desde 1988, quando foi inaugurada ali a primeira estação de bungee jumping do mundo, Queenstown vive uma febre de invenção nesse setor. Pense em qualquer modalidade esportiva potencialmente apavorante: não só ela é praticada ali, como é provável que tenha sido inventada em Queenstown.

Tome-se, por exemplo, o jetboating. Nos anos 50, um fazendeiro achou que era hora de bolar um jeito de aproveitar os cursos d'água da região, que ficam muito baixos durante a seca, como via de transporte o ano todo. Saiu-se com um barco de casco plano e grande potência, capaz de "planar" sobre uns poucos centímetros de água. Inevitavelmente, a invenção virou esporte: acomodados nos jet boats, grupos de turistas passam algumas horas felizes e encharcados, enquanto o piloto desvia de rochas e dá "cavalos-de-pau". Outra novidade – essa para quem tem muito espírito de aventura – é o fly by wire. O candidato vai deitado, de bruços, num misto de foguete e avião preso por um cabo a um ponto fixo, e durante seis minutos voa pelo interior de um cânion, indo de uma aceleração de três vezes a da gravidade até a sensação de absoluta ausência de peso em questão de segundos.

 
Arquivo pessoal

BUNGEE JUMPING
O QUE É: saltar com uma corda elástica atada apenas aos calcanhares. No Nevis, o bungee mais radical de Queenstown, com 134 metros de altura, a queda livre dura quase nove segundos e pode-se atingir a velocidade de até 128 km/h

Localizada no paralelo 45, na mesma latitude da Patagônia, Queenstown desfruta uma situação geográfica e climática invejável. No verão, quando as temperaturas diurnas ficam por volta dos 20 graus Celsius, a região é propícia a caminhadas, cavalgadas e todo tipo de esporte aquático, de esqui no Lago Wakatipu a rafting nas inúmeras corredeiras. No inverno, presta-se ao esqui, ao snowboarding e ao luge – um trenozinho em que se desce a grande velocidade por pistas demarcadas, e que, por ser muito fácil, atrai desde crianças até septuagenários. E, durante todo o ano, podem-se fazer vôos panorâmicos, cruzeiros pelos estreitos e fiordes, visitas aos vinhedos (que fabricam um Pinot Noir de primeira) e, claro, praticar os esportes de aventura. A lista é imensa, e inclui desde modalidades conhecidas, como parapenting, skydiving e mountain biking, até invencionices como o bungee a partir de um helicóptero ou de um balão.

Uma das atrações mais interessantes de Queenstown é o canyon swinging. O princípio é o mesmo do balancinho de parque infantil, mas elevado à enésima potência. No Shotover Swing, aberto no ano passado, encaram-se quinze minutos de trilha pela mata para chegar a uma plataforma instalada num cenário deslumbrante, num cânion do Rio Shotover – o responsável pelo desbravamento de Queenstown, em meados do século XIX, graças ao ouro que até hoje pode ser encontrado em seu leito. Ali na plataforma, veste-se um arreio que está ligado, por meio de uma corda, a um cabo estendido entre as duas paredes do cânion. Esse arreio é o equivalente à cadeira do balanço: quando o aventureiro salta, de uma altura de 109 metros, ele cai por cerca de seis segundos até, sem nem um tranco sequer, se ver transformado num pêndulo, balançando 7 metros acima das águas do Shotover. A sensação é indescritível e, quando os passageiros são içados de volta à plataforma, geralmente só pensam numa coisa: jogar-se de novo.

A marca registrada de Queenstown, contudo, é mesmo o bungee jumping, e meio milhão de saltos já foram realizados a partir de suas plataformas. As origens do bungee estão numa tribo do Arquipélago de Vanuatu, no Pacífico: num ritual de iniciação, seus membros se jogam de grandes alturas amarrados apenas por um cipó nos tornozelos. Nos anos 80, dois esquiadores neozelandeses, AJ Hackett e Henry Van Asch, assistiram a um vídeo sobre o tema e acharam que ali estava uma bela idéia. Depois de anos de testes, lançaram a modalidade com um golpe publicitário – um salto da Torre Eiffel, em Paris – e, em 1988, começaram a operar a partir da Ponte Kawarau, em Queenstown. Com 43 metros de altura, Kawarau é hoje a mais baixa das estações de bungee da cidade. A estrela da empresa AJ Hackett, que detém o monopólio do bungee na região, é o Nevis Highwire, com altura equivalente a um edifício de 38 andares. O que torna o Nevis realmente radical, porém, é a sua situação: salta-se de uma gôndola pendurada por um cabo de aço entre as duas paredes de uma garganta do Rio Nevis. É como pular do nada para o nada. São 8,4 segundos de queda livre e quase trinta novas patentes de equipamentos envolvidas na operação. Com tanta gente disposta a saltar, e com os altíssimos níveis de segurança da brincadeira (a AJ Hackett nunca teve um acidente), não se pode dizer que esse passo no vazio seja a prova máxima de coragem. Mas, para quem o dá, é essa a sensação que ele provoca: a de que se venceu um medo invencível. Pode parecer loucura. Mas, quando se está em Queenstown, ela faz todo o sentido.

 

FLY BY WIRE
O QUE É: navegar a até 70 km/h em barcos de fundo plano, capacitados a percorrer trechos de rio com profundidades inferiores a 20 centímetros

JETBOATING
O QUE É: voar, durante seis minutos, num "avião" individual preso a um cabo, capaz de ir de uma aceleração de três vezes a da gravidade a zero G – a sensação de ausência de gravidade – em questão de segundos

 

 
 
 
 
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