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Especial
Um herói brasileiro

Lizia
Bydlowski, Lucila Soares
e Ronaldo França
AFP
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Inimiga natural do bom senso, a intolerância costuma fazer
entre inocentes a maior parte de suas vítimas. O atentado
terrorista contra a missão diplomática da Organização
das Nações Unidas no Iraque, na terça-feira
passada, não foge desse padrão: atingiu um organismo
internacional que trabalhava pela paz, pela ordem e para mitigar
os males das pessoas. A explosão matou 23 pessoas, de diversas
nacionalidades, todas elas empenhadas em pavimentar o caminho para
a consolidação de um governo capaz de colocar o país
de pé. Uma das vítimas era a força motora desse
esforço o brasileiro Sérgio Vieira de Mello,
de 55 anos, chefe da representação da ONU no Iraque,
que desde junho vinha desempenhando, com a peculiar competência,
justamente o papel que se espera das Nações Unidas,
qual seja, o de promover um mínimo de entendimento entre
partes aparentemente incompatíveis. Eram 4 e meia da tarde
quando uma betoneira amarela parou debaixo da janela de seu escritório
em Bagdá. Detonada por um fanático suicida, a carga
de 700 quilos de explosivos derrubou parte do prédio. Sob
os escombros, imobilizado por uma viga que lhe esmagou as pernas,
Vieira de Mello chegou a fazer ligações de seu telefone
celular, mas não resistiu e sangrou até a morte antes
que o resgate chegasse, já no começo da noite. "Um
grande defensor da paz e da reconciliação assassinado
em um ato de niilismo", descreveu com precisão o editorial
do jornal The New York Times.
Reuters
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| KOSOVO:
com generais da Grã-Bretanha e da França,
na primeira missão como representante da ONU |
Distante
dos ressentimentos e motivações internas, esse ato
terrorista superou em insanidade ações semelhantes
foi simplesmente incompreensível. Se para muitos iraquianos
os Estados Unidos são o invasor inimigo, a ONU é a
entidade que se contrapõe a Washington. A ONU foi contra
a invasão americana e estava em Bagdá com o propósito
de restaurar um governo iraquiano no menor prazo possível.
Para essa tarefa, contava com a habilidade e a experiência
de Vieira de Mello, veterano apagador de incêndios em áreas
conflagradas. Em 34 anos de carreira na organização,
ele, entre outras missões, acompanhou a volta de refugiados
ao Camboja, serviu no Líbano conflagrado, coordenou a ajuda
humanitária a Ruanda e liderou a missão especial das
Nações Unidas em Kosovo, na antiga Iugoslávia.
Sérgio era um dos melhores quadros da ONU. Por sua atuação
articulada e habilidades diplomáticas, em quase todas as
missões superou as limitações da organização.
Controlada desde sua fundação pelos países
ganhadores da II Guerra, que têm poder de veto sobre suas
decisões, a ONU possui instrumentos muito efetivos nas missões
de abrigar refugiados, distribuir alimentos e remédios e
promover a educação. Mas, sempre que a situação
mundial exige que ela tenha peso político, os interesses
das potências falam mais alto. Os Estados Unidos invadiram
o Iraque sem a concordância da ONU, e nada, nenhum discurso
ou ação da organização, surtiu algum
efeito sobre a decisão de Washington.
AP
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| TIMOR:
com Xanana Gusmão, que viria a se eleger presidente
do país reorganizado de forma exemplar |
Na
única oportunidade em que teve uma tarefa de reconstrução
sem conflitos de interesses paralisantes entre as grandes potências,
a ONU foi perfeita justamente pelas mãos de Vieira
de Mello. Nomeado representante das Nações Unidas
em Timor Leste, em 1999, com plenos poderes e amplos recursos financeiros,
ele arregaçou as mangas das camisas bem cortadas, convocou
os líderes locais, dobrou a intolerância da Indonésia
e em trinta meses reorganizou do zero um país destroçado
pela guerra. "Sérgio era um negociador incansável,
com habilidade rara de ouvir e persuadir", afirma a diplomata licenciada
Luciana Mancini, que trabalhou a seu lado por dois anos em Timor.
Encerrada a missão, em julho de 2002 foi nomeado chefe do
Alto Comissariado de Direitos Humanos, com sede em Genebra
sob protesto de organizações não-governamentais,
que o tachavam de diplomático e conciliador demais para o
cargo. Comprou uma casa perto da cidade, mudou-se para lá
com a namorada a argentina Carolina Larriera, 30 anos, também
funcionária da ONU, que conhecera em Timor e pensava
que seus dias de guerra eram coisa do passado. Não eram.
Em junho, convocado pelo secretário-geral Kofi Annan, seu
amigo pessoal, licenciou-se do cargo e foi chefiar a representação
em Bagdá, com margem de manobra limitada pela própria
resolução que definiu sua missão: "facilitar"
a reconstrução do país e "estimular" a ajuda
internacional. "São verbos com os quais não estou
acostumado", comentou com um amigo. Foi, e saiu-se bem. Com enorme
charme (unanimemente confirmado pelas colegas de escritórios
em qualquer parte do mundo) e poder de persuasão, primeiro
ajudou a alinhavar o acordo que criou o conselho de governo do Iraque.
Ultimamente, viajava para Jordânia, Irã, Síria
e outros vizinhos do Iraque em busca de apoio à transição.
Apesar das dificuldades e do toque de recolher em Bagdá,
tinha conseguido estabelecer uma rotina: tomava café-da-manhã
(chá e café, pão com geléia e ovo frito)
no escritório, lia os jornais em inglês que chegavam
à cidade, participava de reuniões e compromissos e
no fim do dia, quando podia, com seguranças e carro blindado,
costumava ir ao Estádio Nacional para fazer sua corrida.
AP
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TEERĂ: a dura tarefa de convencer o presidente do Iră,
Mohamed Khatami, a apoiar o novo Iraque |
Vieira
de Mello definia-se como "homem de campo", mas antes de tudo era
um negociador dos mais habilidosos. "Nós, americanos, estamos
acostumados ao uso da força. Não era a forma como
Sérgio operava. Tinha a capacidade de ouvir as pessoas e
convencê-las a tomar uma decisão que achava necessária",
afirma Peter Galbraith, que foi o braço direito do brasileiro
em Timor Leste. Esportista, elegante, culto e poliglota, o carioca
Sérgio, formado em filosofia e doutor em ciências sociais
pela Sorbonne, pretendia seguir os passos do pai, Arnaldo Vieira
de Mello, diplomata de carreira. Em 1969, quando se preparava para
entrar no Itamaraty, seu pai foi aposentado compulsoriamente pelo
regime militar. Arnaldo morreu quatro anos mais tarde de infarto,
enquanto dormia. Em diversas entrevistas, Vieira de Mello demonstrou
sua mágoa. "Não poderia entrar para um ministério,
o Itamaraty, que recentemente havia vitimado meu pai", disse a VEJA,
no ano passado. Decidiu ir para a ONU. Em prol da carreira, passou
a vida entre aeroportos, reuniões de cúpula e tiros
de fuzil, com poucas oportunidades de convivência familiar.
Teve dois filhos com a francesa Annie, de quem estava separado de
fato, mas não tinha se divorciado; Laurent e Adrien, de 25
e 22 anos, mal falam português e fizeram questão de
que o pai fosse enterrado na França (antes, será velado
no Rio de Janeiro). Costumava vir ao Brasil uma vez por ano para
visitar a mãe, Gilda, de 83 anos, que mora em Copacabana.
No ano passado trouxe a namorada, Carolina, a loira bonita que,
na fatídica terça-feira passada, foi filmada (ainda
sem identificação) pelas câmeras da CNN gritando
"Sérgio" e tentando de toda maneira entrar nos escombros.
Carol, como é chamada, estava dentro do prédio na
hora da explosão, mas escapou ilesa. "Ela está desnorteada,
em estado de choque", contou ao jornal La Nación a
mãe, Norma.
Reuters
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Nueva Provincia/AE
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| CONVOCAÇÃO
ATENDIDA Com Kofi Annan, o amigo: a pedido do
secretário-geral da ONU, Vieira de Mello deixou Genebra,
onde comprou casa nova e planejava levar uma vida mais sossegada
com a argentina Carolina (à dir.), e foi representar
a organização em Bagdá. Mais uma vez arriscou,
e perdeu a vida |
Nome
de destaque na lista de possíveis futuros secretários-gerais,
Vieira de Mello incorporou como poucos o papel que a ONU deveria
desempenhar num mundo cuja complexidade torna cada vez mais essencial
a cooperação internacional, e trabalhava duro nesse
sentido em Bagdá. "Não é fácil conseguir
equilíbrio entre a preponderância da coalizão
liderada pelos Estados Unidos aqui e um papel emergente da ONU.
Mas acho que gradualmente chegaremos lá", disse em entrevista
ao jornal americano Wall Street Journal, semanas antes do
atentado. "Ele fez um esforço sobre-humano para dar à
ONU no Iraque um poder que ela não tinha", avalia o ex-chanceler
Luiz Felipe Lampreia. Para o chanceler Celso Amorim, a reabilitação
da enfraquecida ONU como poder supranacional passa pela reforma
de seu órgão máximo, o Conselho de Segurança,
onde o Brasil quer ter assento. "Acabamos de ver na questão
do Iraque como o Conselho foi colocado de lado. Mas acredito que
isso vá mudar. A longo prazo, uma superpotência, por
maior que seja, não se sustenta sozinha, porque o custo é
muito alto. Ela pode ganhar a guerra. Mas, para ganhar a paz, é
preciso cooperação internacional", diz. Já
o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que acompanhou de perto
a articulação para mudanças no Conselho de
Segurança da ONU, considera muito difícil alguma alteração
em sua composição. "Mudá-lo significa abrir
espaço ao Terceiro Mundo, e isso nenhum dos países
que hoje o integram aceita sem resistência", avalia. Para
o Brasil desejoso de assumir um papel mais influente no cenário
mundial, e chocado com a morte de um herói que nem sabia
existir, fica a lição: apresentar-se como líder,
ter e defender posições no cenário mundial
acarreta riscos, e riscos, muitas vezes, resultam em tragédias.
Foi exatamente assim que o mais dinâmico, envolvente e bem-intencionado
dos altos funcionários da ONU morreu, soterrado num ataque
estúpido e sem sentido, que emaranhou ainda mais o nó
que ele trabalhava para desatar.
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