Edição 1817 . 27 de agosto de 2003

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Especial
Um herói brasileiro


Lizia Bydlowski, Lucila Soares
e Ronaldo França


AFP
Como foi o atentado
NA INTERNET
Em Profundidade: Terror internacional


Inimiga natural do bom senso, a intolerância costuma fazer entre inocentes a maior parte de suas vítimas. O atentado terrorista contra a missão diplomática da Organização das Nações Unidas no Iraque, na terça-feira passada, não foge desse padrão: atingiu um organismo internacional que trabalhava pela paz, pela ordem e para mitigar os males das pessoas. A explosão matou 23 pessoas, de diversas nacionalidades, todas elas empenhadas em pavimentar o caminho para a consolidação de um governo capaz de colocar o país de pé. Uma das vítimas era a força motora desse esforço – o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, de 55 anos, chefe da representação da ONU no Iraque, que desde junho vinha desempenhando, com a peculiar competência, justamente o papel que se espera das Nações Unidas, qual seja, o de promover um mínimo de entendimento entre partes aparentemente incompatíveis. Eram 4 e meia da tarde quando uma betoneira amarela parou debaixo da janela de seu escritório em Bagdá. Detonada por um fanático suicida, a carga de 700 quilos de explosivos derrubou parte do prédio. Sob os escombros, imobilizado por uma viga que lhe esmagou as pernas, Vieira de Mello chegou a fazer ligações de seu telefone celular, mas não resistiu e sangrou até a morte antes que o resgate chegasse, já no começo da noite. "Um grande defensor da paz e da reconciliação assassinado em um ato de niilismo", descreveu com precisão o editorial do jornal The New York Times.

 
Reuters
KOSOVO: com generais da Grã-Bretanha e da França, na primeira missão como representante da ONU

Distante dos ressentimentos e motivações internas, esse ato terrorista superou em insanidade ações semelhantes – foi simplesmente incompreensível. Se para muitos iraquianos os Estados Unidos são o invasor inimigo, a ONU é a entidade que se contrapõe a Washington. A ONU foi contra a invasão americana e estava em Bagdá com o propósito de restaurar um governo iraquiano no menor prazo possível. Para essa tarefa, contava com a habilidade e a experiência de Vieira de Mello, veterano apagador de incêndios em áreas conflagradas. Em 34 anos de carreira na organização, ele, entre outras missões, acompanhou a volta de refugiados ao Camboja, serviu no Líbano conflagrado, coordenou a ajuda humanitária a Ruanda e liderou a missão especial das Nações Unidas em Kosovo, na antiga Iugoslávia. Sérgio era um dos melhores quadros da ONU. Por sua atuação articulada e habilidades diplomáticas, em quase todas as missões superou as limitações da organização. Controlada desde sua fundação pelos países ganhadores da II Guerra, que têm poder de veto sobre suas decisões, a ONU possui instrumentos muito efetivos nas missões de abrigar refugiados, distribuir alimentos e remédios e promover a educação. Mas, sempre que a situação mundial exige que ela tenha peso político, os interesses das potências falam mais alto. Os Estados Unidos invadiram o Iraque sem a concordância da ONU, e nada, nenhum discurso ou ação da organização, surtiu algum efeito sobre a decisão de Washington.

 
AP
TIMOR: com Xanana Gusmão, que viria a se eleger presidente do país reorganizado de forma exemplar

Na única oportunidade em que teve uma tarefa de reconstrução sem conflitos de interesses paralisantes entre as grandes potências, a ONU foi perfeita – justamente pelas mãos de Vieira de Mello. Nomeado representante das Nações Unidas em Timor Leste, em 1999, com plenos poderes e amplos recursos financeiros, ele arregaçou as mangas das camisas bem cortadas, convocou os líderes locais, dobrou a intolerância da Indonésia e em trinta meses reorganizou do zero um país destroçado pela guerra. "Sérgio era um negociador incansável, com habilidade rara de ouvir e persuadir", afirma a diplomata licenciada Luciana Mancini, que trabalhou a seu lado por dois anos em Timor. Encerrada a missão, em julho de 2002 foi nomeado chefe do Alto Comissariado de Direitos Humanos, com sede em Genebra – sob protesto de organizações não-governamentais, que o tachavam de diplomático e conciliador demais para o cargo. Comprou uma casa perto da cidade, mudou-se para lá com a namorada – a argentina Carolina Larriera, 30 anos, também funcionária da ONU, que conhecera em Timor – e pensava que seus dias de guerra eram coisa do passado. Não eram. Em junho, convocado pelo secretário-geral Kofi Annan, seu amigo pessoal, licenciou-se do cargo e foi chefiar a representação em Bagdá, com margem de manobra limitada pela própria resolução que definiu sua missão: "facilitar" a reconstrução do país e "estimular" a ajuda internacional. "São verbos com os quais não estou acostumado", comentou com um amigo. Foi, e saiu-se bem. Com enorme charme (unanimemente confirmado pelas colegas de escritórios em qualquer parte do mundo) e poder de persuasão, primeiro ajudou a alinhavar o acordo que criou o conselho de governo do Iraque. Ultimamente, viajava para Jordânia, Irã, Síria e outros vizinhos do Iraque em busca de apoio à transição. Apesar das dificuldades e do toque de recolher em Bagdá, tinha conseguido estabelecer uma rotina: tomava café-da-manhã (chá e café, pão com geléia e ovo frito) no escritório, lia os jornais em inglês que chegavam à cidade, participava de reuniões e compromissos e no fim do dia, quando podia, com seguranças e carro blindado, costumava ir ao Estádio Nacional para fazer sua corrida.

 
AP
TEERĂ: a dura tarefa de convencer o presidente do Iră, Mohamed Khatami, a apoiar o novo Iraque

Vieira de Mello definia-se como "homem de campo", mas antes de tudo era um negociador dos mais habilidosos. "Nós, americanos, estamos acostumados ao uso da força. Não era a forma como Sérgio operava. Tinha a capacidade de ouvir as pessoas e convencê-las a tomar uma decisão que achava necessária", afirma Peter Galbraith, que foi o braço direito do brasileiro em Timor Leste. Esportista, elegante, culto e poliglota, o carioca Sérgio, formado em filosofia e doutor em ciências sociais pela Sorbonne, pretendia seguir os passos do pai, Arnaldo Vieira de Mello, diplomata de carreira. Em 1969, quando se preparava para entrar no Itamaraty, seu pai foi aposentado compulsoriamente pelo regime militar. Arnaldo morreu quatro anos mais tarde de infarto, enquanto dormia. Em diversas entrevistas, Vieira de Mello demonstrou sua mágoa. "Não poderia entrar para um ministério, o Itamaraty, que recentemente havia vitimado meu pai", disse a VEJA, no ano passado. Decidiu ir para a ONU. Em prol da carreira, passou a vida entre aeroportos, reuniões de cúpula e tiros de fuzil, com poucas oportunidades de convivência familiar. Teve dois filhos com a francesa Annie, de quem estava separado de fato, mas não tinha se divorciado; Laurent e Adrien, de 25 e 22 anos, mal falam português e fizeram questão de que o pai fosse enterrado na França (antes, será velado no Rio de Janeiro). Costumava vir ao Brasil uma vez por ano para visitar a mãe, Gilda, de 83 anos, que mora em Copacabana. No ano passado trouxe a namorada, Carolina, a loira bonita que, na fatídica terça-feira passada, foi filmada (ainda sem identificação) pelas câmeras da CNN gritando "Sérgio" e tentando de toda maneira entrar nos escombros. Carol, como é chamada, estava dentro do prédio na hora da explosão, mas escapou ilesa. "Ela está desnorteada, em estado de choque", contou ao jornal La Nación a mãe, Norma.

 
Reuters
Nueva Provincia/AE
CONVOCAÇÃO ATENDIDA – Com Kofi Annan, o amigo: a pedido do secretário-geral da ONU, Vieira de Mello deixou Genebra, onde comprou casa nova e planejava levar uma vida mais sossegada com a argentina Carolina (à dir.), e foi representar a organização em Bagdá. Mais uma vez arriscou, e perdeu a vida

Nome de destaque na lista de possíveis futuros secretários-gerais, Vieira de Mello incorporou como poucos o papel que a ONU deveria desempenhar num mundo cuja complexidade torna cada vez mais essencial a cooperação internacional, e trabalhava duro nesse sentido em Bagdá. "Não é fácil conseguir equilíbrio entre a preponderância da coalizão liderada pelos Estados Unidos aqui e um papel emergente da ONU. Mas acho que gradualmente chegaremos lá", disse em entrevista ao jornal americano Wall Street Journal, semanas antes do atentado. "Ele fez um esforço sobre-humano para dar à ONU no Iraque um poder que ela não tinha", avalia o ex-chanceler Luiz Felipe Lampreia. Para o chanceler Celso Amorim, a reabilitação da enfraquecida ONU como poder supranacional passa pela reforma de seu órgão máximo, o Conselho de Segurança, onde o Brasil quer ter assento. "Acabamos de ver na questão do Iraque como o Conselho foi colocado de lado. Mas acredito que isso vá mudar. A longo prazo, uma superpotência, por maior que seja, não se sustenta sozinha, porque o custo é muito alto. Ela pode ganhar a guerra. Mas, para ganhar a paz, é preciso cooperação internacional", diz. Já o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que acompanhou de perto a articulação para mudanças no Conselho de Segurança da ONU, considera muito difícil alguma alteração em sua composição. "Mudá-lo significa abrir espaço ao Terceiro Mundo, e isso nenhum dos países que hoje o integram aceita sem resistência", avalia. Para o Brasil desejoso de assumir um papel mais influente no cenário mundial, e chocado com a morte de um herói que nem sabia existir, fica a lição: apresentar-se como líder, ter e defender posições no cenário mundial acarreta riscos, e riscos, muitas vezes, resultam em tragédias. Foi exatamente assim que o mais dinâmico, envolvente e bem-intencionado dos altos funcionários da ONU morreu, soterrado num ataque estúpido e sem sentido, que emaranhou ainda mais o nó que ele trabalhava para desatar.

 
 
 
 
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