Edição 1817 . 27 de agosto de 2003

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Especial
Terror para manter a
guerra e impedir a paz


AFP
BAGDÁ
19/8/2003 – 16h30*
Equipes de resgate procuram sobreviventes nos escombros do prédio da ONU, arrasado por 700 quilos de explosivos: entre os 23 mortos, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello 

* Horário do atentado


Em Profundidade: Terror internacional

Sempre que há um recrudescimento do terrorismo é natural que se procure uma explicação lógica para as atrocidades. Nesses momentos entra em ação um mecanismo de defesa, já estudado pela ciência, que ajuda as pessoas a tocar a vida, depois de verem cenas terríveis nos noticiários de televisão ou em fotografias de jornais e revistas. Esse mecanismo aparece, muitas vezes inconscientemente, nas rodas de conversa em família e no trabalho e mesmo nas argumentações de diplomatas e analistas experimentados. Quem não ouviu dizer que o brasileiro Sérgio Vieira de Mello foi morto em Bagdá porque os Estados Unidos invadiram o país e os iraquianos, furiosos com a situação, reagem contra todos os ocidentais? Esse tipo de racionalização é ilusório. "O terrorismo se nutre das justificativas que tiram dos ombros de seus autores o peso moral do crime que cometem", escreveu o americano Walter Laqueur, um dos mais respeitados estudiosos do fenômeno do terrorismo. Laqueur sustenta que cada ato terrorista deve merecer condenação independentemente da motivação de seus perpetradores e da justeza da causa que defendem. "O terror é um mal em si. Ele atenta contra a civilização e, em última análise, contra os próprios terroristas. O terror é um predador que termina devorando a si próprio", diz Laqueur.

Não existe, portanto, um objetivo lógico em procurar justificativa para os atos do terror, como a morte do pacificador brasileiro Sérgio Vieira de Mello, na terça-feira da semana passada, em Bagdá. Cada atentado deve ser julgado por seu significado concreto, que são os corpos dilacerados e seus efeitos perversos sobre a sociedade atingida pelos estilhaços. E não pelas supostas motivações ideológicas, históricas ou religiosas, que estão equivocadas pelo simples fato de se acreditarem mais valiosas que as vidas humanas. O caminhão-bomba que matou Vieira de Mello é um lembrete doloroso de que nem o Brasil nem qualquer outro país têm o direito de se sentir neutros na guerra mundial contra o terror. Poucas horas depois da morte do brasileiro, crianças foram despedaçadas por um homem-bomba que detonou sua carga letal num ônibus lotado, em Jerusalém. Não agrada a certos grupos políticos que o terrorismo seja mostrado como uma ameaça à civilização ocidental. São eles da opinião de que se deve dar peso igual aos antagonismos existentes no mundo moderno. Como conceder a estratégias sanguinárias e fanáticas o status de divergências de pontos de vista numa educada reunião acadêmica? É impossível tal simetria porque, qualquer que seja o agravo, a resposta não pode ser o terror.


Reuters
JERUSALÉM
19/8/2003 – 21h*

O ônibus depois do ataque do terrorista suicida: na hora da explosão, o veículo estava lotado de famílias que voltavam do Muro das Lamentações

* Horário do atentado

A bandeira erguida no momento por grupos terroristas árabes e islâmicos é a do antiamericanismo, sob o argumento de que agem em reação à invasão americana do Iraque. Trata-se de outra racionalização enganosa. Os terroristas não precisaram de nenhum pretexto objetivo para destruir as torres gêmeas do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, o maior atentado terrorista da história. A falta de provocação prévia por parte dos Estados Unidos não impediu que o ataque fosse meticulosamente planejado para ser o mais devastador possível. A dimensão da insanidade nessa seara pode ser mais bem entendida quando se presta atenção no modo como o antiamericanismo que gerou os atentados agora se realimenta da própria reação americana à agressão sofrida. Em essência, a lógica do terrorismo é a mesma do DNA da célula cancerígena: seu objetivo principal é reproduzir-se sem parar. Nesse processo apodera-se das motivações que tem à mão para justificar a própria existência. O mais comum é que crie uma mitologia de agravos passados ou use a desculpa de ter sofrido de males do mesmo grau. O massacre dos inocentes em Jerusalém foi explicado por seus mentores – o Hamas e a Jihad Islâmica, as duas principais organizações fundamentalistas islâmicas da região – como um ato de revanche por um líder islâmico morto por soldados de Israel, dias antes. Mas o líder islâmico não foi morto pelas tropas israelenses como vingança de um atentando anterior? Sim, mas... Como se sabe, essas justificativas acabam remontando aos tempos bíblicos. Portanto, o melhor a fazer é não enveredar por essa trilha. "O primeiro passo para interromper qualquer onda de terror é isolar sua existência das circunstâncias sociais que a cercam", diz Laqueur. "O terror tem de ser extirpado. Ponto."

Os atentados no Iraque e em Jerusalém na semana passada são ambos atos da mesma e maligna natureza. Foram ações psicologicamente debilitadoras e fisicamente destrutivas perpetradas contra pessoas inocentes. O atentado que matou o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, no entanto, parece ser o último esgar do que sobrou do regime de Saddam Hussein. No Iraque há motivo de otimismo. Os terroristas podem ainda atacar por algum tempo. Mas nada permite prever que eles não possam ser erradicados antes que descarrilem a experiência de reconstrução do país. Com ou sem ajuda de tropas de outros países, o mais provável é que os militares americanos encontrem e destruam os agentes do terrorismo no Iraque. No Oriente Médio a questão é mais complexa. O terrorismo parece ter um futuro promissor na Palestina. Em primeiro lugar, porque as forças israelenses simplesmente não têm meios para identificar e atacar os focos ativos do terror. O máximo que conseguem, em termos ofensivos, é assassinar os líderes de maior projeção pública das organizações terroristas, como fizeram na semana passada quando um helicóptero lançou mísseis contra o carro de Ismail Abu Shanab e o matou. Shanab era o que se pode chamar de moderado numa região onde essa denominação é altamente enganosa. O assassinato de personalidades como Shanab, além de não atacar as condições materiais de existência dos terroristas islâmicos, ainda insufla e inspira os jovens palestinos a aderir à política desesperada da matança.


AFP photo/Shuki Lerrer
CULTURA DA REVANCHE
Bebê israelense é socorrido após o atentado palestino da semana passada: mitologia de agravos passados alimenta rotina de violência no Oriente Médio e adia projeto de Estado palestino

A luta armada não tira legitimidade aos movimentos de libertação nacional. Em todas as lutas que resultaram na criação de Estados estáveis, contudo, a primeira providência dos novos governantes foi purgar de seu braço armado todos os cães raivosos. Ou faz isso, ou a lógica perversa do terror degenera em caos, como se viu em várias partes da África. No mundo criado pelo atentado terrorista de 11 de setembro os movimentos de libertação nacional, por justas que sejam suas reivindicações, não podem mais agregar seu nome às atrocidades contra civis. De todas as formas, o terrorismo palestino faz maior mal ao povo palestino que Ariel Sharon, o primeiro-ministro linha-dura de Israel. Não está claro em nome do que o terrorista-suicida conduziu um caminhão para debaixo da janela do escritório de Vieira de Mello e detonou uma carga de 700 quilos de explosivos, pondo abaixo uma ala inteira do prédio de dois andares numa área central de Bagdá. Morreram 23 pessoas e mais de uma centena ficou ferida. Chefe da missão da Organização das Nações Unidas (ONU) no Iraque, Vieira de Mello pode ter sido escolhido como alvo precisamente por querer ajudar os iraquianos a reconstruir seu Estado. É bem provável que tenha sido morto pela simples razão de ser alvo fácil, num prédio desprotegido.

O ataque, o maior já sofrido pela ONU, contém uma triste ironia, visto que os Estados Unidos desafiaram as Nações Unidas ao invadir o Iraque sem a aprovação explícita da organização. Mostra igualmente como é desimportante o fato de Washington ter ou não o tal respaldo internacional para sua guerra contra Saddam. "A diabólica mensagem da bomba que matou Sérgio Vieira de Mello é que para o terrorismo mesmo a ONU é inaceitável", conclui o historiador inglês Toby Dodge, da Universidade de Warwick. Quatro meses depois de derrubar a ditadura de Saddam Hussein, os Estados Unidos não conseguem impor ordem no Iraque. Uma resistência armada ousada ataca os soldados americanos e se dedica a sabotar a infra-estrutura do país, de oleodutos a estações de tratamento de água e linhas de transmissão de energia.

Além da guerrilha reunida em torno do que sobrou do Baath, o partido único do regime de Saddam Hussein, o país também passou a "atrair como um ímã", nas palavras de um general americano, o terror de inspiração fundamentalista islâmico ligado à Al Qaeda, a organização responsável pelo ataque ao World Trade Center. Para a Al Qaeda, a ocupação do Iraque representa uma oportunidade similar à oferecida pela invasão soviética no Afeganistão, há duas décadas. Há indícios de que fanáticos de turbante estejam migrando em massa para o Iraque, dispostos a lutar a Jihad contra os soldados americanos – um alvo de fácil apelo no mundo muçulmano. Durante a guerra no Afeganistão, com ajuda logística e financeira dos Estados Unidos, muçulmanos de toda parte se apresentavam como voluntários para expulsar as tropas da União Soviética. Nesse caldo de cultura fermentou a carreira de Osama bin Laden, saudita rico e fanático o suficiente para planejar e financiar o ataque ao coração do império americano. Expulso do Afeganistão por tropas americanas, o terrorismo islâmico ganhou o mundo.

É irônico, como escreveu a comentarista Jessica Stern, no The New York Times, que o presidente George W. Bush tenha inadvertidamente ampliado as condições para a proliferação do terrorismo no Iraque: um Estado incapaz de controlar as próprias fronteiras ou providenciar as necessidades mínimas de sua população. O ponto falho da comparação com o Afeganistão é que o Iraque já era a meca do terrorismo nos tempos de Saddam, só que então com o apoio do Estado. O regime procurou incentivar, com o próprio exemplo de rebeldia às normas internacionais e também com o dinheiro farto do petróleo, operações terroristas por toda parte. Em cerimônias públicas e transmitidas pela televisão, o Iraque recompensava com pequenas fortunas as famílias dos terroristas-suicidas palestinos. Em boa medida, o terrorismo dentro do Iraque continua a ser sustentado pelos bilhões de dólares que o ditador foragido escondeu antes de ser expulso de seus palácios em Bagdá. A resistência é encorajada pelo fracasso americano em garantir água, eletricidade e segurança nas cidades iraquianas. A combinação de hostilidade e dificuldades inesperadas na recuperação econômica já obrigou os Estados Unidos a rever o plano de cortar o número de soldados no Iraque. Ao contrário, fala-se em duplicar e até em triplicar os atuais 140.000 soldados para fazer frente aos desafios. Sérgio Vieira de Mello tinha ajudado a criar uma comissão de governo reunindo lideranças iraquianas. É para ser o embrião de um futuro governo democrático. Pode-se imaginar que com tropas, dinheiro e disposição de luta os Estados Unidos consigam restabelecer a ordem – e a energia elétrica – no Iraque. Talvez tudo o que falte para desmoralizar a resistência armada seja a prisão de Saddam Hussein, que continua foragido.

A questão principal vai além do Iraque: o terrorismo global pode ser vencido? Os Estados Unidos já atacaram dois países que davam cobertura ao terror – o Iraque e o Afeganistão – e ainda não se sabe se isso será possível. "A partir dos atentados de 11 de setembro, passamos a viver uma guerra de desgaste, prolongada, diferente do que estávamos acostumados a enfrentar até agora, e que pode durar anos ou décadas", disse a VEJA o especialista Bruce Hoffman, autor do livro Inside Terrorism ("Por Dentro do Terrorismo"). Segundo Hoffman, o inimigo não é visível, nem existe uma arma específica que vai derrotá-lo. Para dar certo, é preciso que acabar com o terrorismo seja prioridade de todos os políticos, o que permitiria padronizar e intensificar no mundo inteiro as leis de combate a esse mal moderno. Não adianta mudar a legislação ou reforçar a segurança em apenas alguns países. O terrorismo sempre procura brechas não exploradas para atacar. Pode-se dizer, em certo sentido, que o terrorismo já venceu, pois obrigou os países democráticos a se defender. O efeito mais nefasto foi deixar o Ocidente um pouco mais parecido com o mundo sombrio de seus inimigos. O cidadão brasileiro que hoje leva a família à Disney e passa pelo constrangimento de ver os filhos tratados com maus modos nos aeroportos americanos está pagando o preço indireto pelo mundo criado pelo ataque em 11 de setembro de 2001.

O terror é o responsável pela transformação dos Estados Unidos de um pólo de liberdade em uma nação vigilante, temerosa do pior, com as armas engatilhadas interna e externamente. É sempre bom ter em mente que, sem os atentados ao Pentágono e ao World Trade Center, George W. Bush e os neoconservadores que o cercam na Casa Branca não teriam ido tão longe em sua negação dos valores de liberdade que fizeram dos Estados Unidos um símbolo para o mundo. É difícil para a maioria lembrar-se das condições que predominavam antes de o planeta ser virado do avesso pelo terrorismo. Vale recordar que Bush era criticado exatamente pelo isolacionismo que estava imprimindo à política externa da superpotência. Depois de 11 de setembro, o governo americano ficou menos paciente com os aliados e disposto a ir em frente com seus planos, mesmo que seja preciso ir sozinho. Tornou-se impossível aos EUA manter uma atitude benevolente após os atentados. O impacto da destruição das torres gêmeas de Nova York na psique americana é equivalente ao que sentiriam os franceses se a Torre Eiffel fosse atacada ou os ingleses caso o alvo dos terroristas islâmicos tivesse sido o Palácio de Buckingham. O ataque abalou a maior economia do mundo e pôs o planeta à beira da recessão. Até hoje se paga em todo o mundo o preço econômico e social do atentado. Evaporou-se junto com as torres gêmeas o sentimento de segurança que os americanos sempre desfrutaram dentro do próprio país. Viu-se isso com precisão no recente blecaute que deixou 50 milhões de pessoas no escuro em oito Estados americanos, há duas semanas. Demorou a eternidade de uma hora para o prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, assegurar que se tratava de um acidente, e não de um novo assalto terrorista à maior cidade americana. Poderia ter sido. Em teoria, uns poucos atacantes podem tomar o controle de alguma remota estação geradora de energia e dar início a uma devastadora reação em cadeia no sistema elétrico americano. Há duas semanas, um traficante de armas foi preso perto de Nova York com um míssil antiaéreo de fabricação russa. Nas mãos de um terrorista, a arma pode facilmente derrubar um avião de passageiros que esteja decolando a 5 quilômetros de distância.

A estratégia de Bush está agora sendo desafiada pelos acontecimentos no Iraque e em Israel – mas isso se deve menos a seus defeitos e mais à perversidade de seus inimigos. A palavra usada para descrever essa política americana é "hegemonia". Max Boot, membro do Conselho de Relações Exteriores de Nova York, propõe uma definição melhor: globalcop, a polícia do mundo. Que outro país divide o planeta em cinco comandos militares, tem presença militar em 134 países e, depois de 11 de setembro, parece ter perdido a inibição de derramar sangue, o seu e o dos outros? A lição que se tira desses dois anos de atuação americana como globalcop é que se podem esquecer as intervenções rápidas. Para estabelecer a paz, o império da lei e criar instituições democráticas, é preciso estar preparado para intervenções de longo prazo. O preço é alto. A ocupação do Iraque custa 3,9 bilhões de dólares por mês só na manutenção da soldadesca. O ritmo atual de baixas é de um americano a cada dois dias. Max Boot diz que o preço é suportável e que vale a pena. Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos souberam agüentar durante décadas o confronto com a União Soviética – até a vitória final.

 
 
 
 
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