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Especial
Terror
para manter a
guerra e impedir a paz
AFP
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BAGDÁ
19/8/2003 16h30*
Equipes de resgate procuram sobreviventes nos escombros
do prédio da ONU, arrasado por 700 quilos de explosivos:
entre os 23 mortos, o brasileiro Sérgio Vieira de Mello
*
Horário do atentado
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Sempre
que há um recrudescimento do terrorismo é natural
que se procure uma explicação lógica para as
atrocidades. Nesses momentos entra em ação um mecanismo
de defesa, já estudado pela ciência, que ajuda as pessoas
a tocar a vida, depois de verem cenas terríveis nos noticiários
de televisão ou em fotografias de jornais e revistas. Esse
mecanismo aparece, muitas vezes inconscientemente, nas rodas de
conversa em família e no trabalho e mesmo nas argumentações
de diplomatas e analistas experimentados. Quem não ouviu
dizer que o brasileiro Sérgio Vieira de Mello foi morto em
Bagdá porque os Estados Unidos invadiram o país e
os iraquianos, furiosos com a situação, reagem contra
todos os ocidentais? Esse tipo de racionalização é
ilusório. "O terrorismo se nutre das justificativas que tiram
dos ombros de seus autores o peso moral do crime que cometem", escreveu
o americano Walter Laqueur, um dos mais respeitados estudiosos do
fenômeno do terrorismo. Laqueur sustenta que cada ato terrorista
deve merecer condenação independentemente da motivação
de seus perpetradores e da justeza da causa que defendem. "O terror
é um mal em si. Ele atenta contra a civilização
e, em última análise, contra os próprios terroristas.
O terror é um predador que termina devorando a si próprio",
diz Laqueur.
Não
existe, portanto, um objetivo lógico em procurar justificativa
para os atos do terror, como a morte do pacificador brasileiro Sérgio
Vieira de Mello, na terça-feira da semana passada, em Bagdá.
Cada atentado deve ser julgado por seu significado concreto, que
são os corpos dilacerados e seus efeitos perversos sobre
a sociedade atingida pelos estilhaços. E não pelas
supostas motivações ideológicas, históricas
ou religiosas, que estão equivocadas pelo simples fato de
se acreditarem mais valiosas que as vidas humanas. O caminhão-bomba
que matou Vieira de Mello é um lembrete doloroso de que nem
o Brasil nem qualquer outro país têm o direito de se
sentir neutros na guerra mundial contra o terror. Poucas horas depois
da morte do brasileiro, crianças foram despedaçadas
por um homem-bomba que detonou sua carga letal num ônibus
lotado, em Jerusalém. Não agrada a certos grupos políticos
que o terrorismo seja mostrado como uma ameaça à civilização
ocidental. São eles da opinião de que se deve dar
peso igual aos antagonismos existentes no mundo moderno. Como conceder
a estratégias sanguinárias e fanáticas o status
de divergências de pontos de vista numa educada reunião
acadêmica? É impossível tal simetria porque,
qualquer que seja o agravo, a resposta não pode ser o terror.
Reuters
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JERUSALÉM
19/8/2003 21h*
O ônibus depois do ataque do terrorista suicida:
na hora da explosão, o veículo estava lotado de
famílias que voltavam do Muro das Lamentações
*
Horário do atentado
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A
bandeira erguida no momento por grupos terroristas árabes
e islâmicos é a do antiamericanismo, sob o argumento
de que agem em reação à invasão americana
do Iraque. Trata-se de outra racionalização enganosa.
Os terroristas não precisaram de nenhum pretexto objetivo
para destruir as torres gêmeas do World Trade Center, em 11
de setembro de 2001, o maior atentado terrorista da história.
A falta de provocação prévia por parte dos
Estados Unidos não impediu que o ataque fosse meticulosamente
planejado para ser o mais devastador possível. A dimensão
da insanidade nessa seara pode ser mais bem entendida quando se
presta atenção no modo como o antiamericanismo que
gerou os atentados agora se realimenta da própria reação
americana à agressão sofrida. Em essência, a
lógica do terrorismo é a mesma do DNA da célula
cancerígena: seu objetivo principal é reproduzir-se
sem parar. Nesse processo apodera-se das motivações
que tem à mão para justificar a própria existência.
O mais comum é que crie uma mitologia de agravos passados
ou use a desculpa de ter sofrido de males do mesmo grau. O massacre
dos inocentes em Jerusalém foi explicado por seus mentores
o Hamas e a Jihad Islâmica, as duas principais organizações
fundamentalistas islâmicas da região como um
ato de revanche por um líder islâmico morto por soldados
de Israel, dias antes. Mas o líder islâmico não
foi morto pelas tropas israelenses como vingança de um atentando
anterior? Sim, mas... Como se sabe, essas justificativas acabam
remontando aos tempos bíblicos. Portanto, o melhor a fazer
é não enveredar por essa trilha. "O primeiro passo
para interromper qualquer onda de terror é isolar sua existência
das circunstâncias sociais que a cercam", diz Laqueur. "O
terror tem de ser extirpado. Ponto."
Os
atentados no Iraque e em Jerusalém na semana passada são
ambos atos da mesma e maligna natureza. Foram ações
psicologicamente debilitadoras e fisicamente destrutivas perpetradas
contra pessoas inocentes. O atentado que matou o brasileiro Sérgio
Vieira de Mello, no entanto, parece ser o último esgar do
que sobrou do regime de Saddam Hussein. No Iraque há motivo
de otimismo. Os terroristas podem ainda atacar por algum tempo.
Mas nada permite prever que eles não possam ser erradicados
antes que descarrilem a experiência de reconstrução
do país. Com ou sem ajuda de tropas de outros países,
o mais provável é que os militares americanos encontrem
e destruam os agentes do terrorismo no Iraque. No Oriente Médio
a questão é mais complexa. O terrorismo parece ter
um futuro promissor na Palestina. Em primeiro lugar, porque as forças
israelenses simplesmente não têm meios para identificar
e atacar os focos ativos do terror. O máximo que conseguem,
em termos ofensivos, é assassinar os líderes de maior
projeção pública das organizações
terroristas, como fizeram na semana passada quando um helicóptero
lançou mísseis contra o carro de Ismail Abu Shanab
e o matou. Shanab era o que se pode chamar de moderado numa região
onde essa denominação é altamente enganosa.
O assassinato de personalidades como Shanab, além de não
atacar as condições materiais de existência
dos terroristas islâmicos, ainda insufla e inspira os jovens
palestinos a aderir à política desesperada da matança.
AFP photo/Shuki Lerrer
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CULTURA
DA REVANCHE
Bebê israelense é socorrido após
o atentado palestino da semana passada: mitologia de agravos
passados alimenta rotina de violência no Oriente Médio
e adia projeto de Estado palestino |
A
luta armada não tira legitimidade aos movimentos de libertação
nacional. Em todas as lutas que resultaram na criação
de Estados estáveis, contudo, a primeira providência
dos novos governantes foi purgar de seu braço armado todos
os cães raivosos. Ou faz isso, ou a lógica perversa
do terror degenera em caos, como se viu em várias partes
da África. No mundo criado pelo atentado terrorista de 11
de setembro os movimentos de libertação nacional,
por justas que sejam suas reivindicações, não
podem mais agregar seu nome às atrocidades contra civis.
De todas as formas, o terrorismo palestino faz maior mal ao povo
palestino que Ariel Sharon, o primeiro-ministro linha-dura de Israel.
Não está claro em nome do que o terrorista-suicida
conduziu um caminhão para debaixo da janela do escritório
de Vieira de Mello e detonou uma carga de 700 quilos de explosivos,
pondo abaixo uma ala inteira do prédio de dois andares numa
área central de Bagdá. Morreram 23 pessoas e mais
de uma centena ficou ferida. Chefe da missão da Organização
das Nações Unidas (ONU) no Iraque, Vieira de Mello
pode ter sido escolhido como alvo precisamente por querer ajudar
os iraquianos a reconstruir seu Estado. É bem provável
que tenha sido morto pela simples razão de ser alvo fácil,
num prédio desprotegido.
O
ataque, o maior já sofrido pela ONU, contém uma triste
ironia, visto que os Estados Unidos desafiaram as Nações
Unidas ao invadir o Iraque sem a aprovação explícita
da organização. Mostra igualmente como é desimportante
o fato de Washington ter ou não o tal respaldo internacional
para sua guerra contra Saddam. "A diabólica mensagem da bomba
que matou Sérgio Vieira de Mello é que para o terrorismo
mesmo a ONU é inaceitável", conclui o historiador
inglês Toby Dodge, da Universidade de Warwick. Quatro meses
depois de derrubar a ditadura de Saddam Hussein, os Estados Unidos
não conseguem impor ordem no Iraque. Uma resistência
armada ousada ataca os soldados americanos e se dedica a sabotar
a infra-estrutura do país, de oleodutos a estações
de tratamento de água e linhas de transmissão de energia.
Além
da guerrilha reunida em torno do que sobrou do Baath, o partido
único do regime de Saddam Hussein, o país também
passou a "atrair como um ímã", nas palavras de um
general americano, o terror de inspiração fundamentalista
islâmico ligado à Al Qaeda, a organização
responsável pelo ataque ao World Trade Center. Para a Al
Qaeda, a ocupação do Iraque representa uma oportunidade
similar à oferecida pela invasão soviética
no Afeganistão, há duas décadas. Há
indícios de que fanáticos de turbante estejam migrando
em massa para o Iraque, dispostos a lutar a Jihad contra os soldados
americanos um alvo de fácil apelo no mundo muçulmano.
Durante a guerra no Afeganistão, com ajuda logística
e financeira dos Estados Unidos, muçulmanos de toda parte
se apresentavam como voluntários para expulsar as tropas
da União Soviética. Nesse caldo de cultura fermentou
a carreira de Osama bin Laden, saudita rico e fanático o
suficiente para planejar e financiar o ataque ao coração
do império americano. Expulso do Afeganistão por tropas
americanas, o terrorismo islâmico ganhou o mundo.
É
irônico, como escreveu a comentarista Jessica Stern, no The
New York Times, que o presidente George W. Bush tenha inadvertidamente
ampliado as condições para a proliferação
do terrorismo no Iraque: um Estado incapaz de controlar as próprias
fronteiras ou providenciar as necessidades mínimas de sua
população. O ponto falho da comparação
com o Afeganistão é que o Iraque já era a meca
do terrorismo nos tempos de Saddam, só que então com
o apoio do Estado. O regime procurou incentivar, com o próprio
exemplo de rebeldia às normas internacionais e também
com o dinheiro farto do petróleo, operações
terroristas por toda parte. Em cerimônias públicas
e transmitidas pela televisão, o Iraque recompensava com
pequenas fortunas as famílias dos terroristas-suicidas palestinos.
Em boa medida, o terrorismo dentro do Iraque continua a ser sustentado
pelos bilhões de dólares que o ditador foragido escondeu
antes de ser expulso de seus palácios em Bagdá. A
resistência é encorajada pelo fracasso americano em
garantir água, eletricidade e segurança nas cidades
iraquianas. A combinação de hostilidade e dificuldades
inesperadas na recuperação econômica já
obrigou os Estados Unidos a rever o plano de cortar o número
de soldados no Iraque. Ao contrário, fala-se em duplicar
e até em triplicar os atuais 140.000
soldados para fazer frente aos desafios. Sérgio Vieira de
Mello tinha ajudado a criar uma comissão de governo reunindo
lideranças iraquianas. É para ser o embrião
de um futuro governo democrático. Pode-se imaginar que com
tropas, dinheiro e disposição de luta os Estados Unidos
consigam restabelecer a ordem e a energia elétrica
no Iraque. Talvez tudo o que falte para desmoralizar a resistência
armada seja a prisão de Saddam Hussein, que continua foragido.
A
questão principal vai além do Iraque: o terrorismo
global pode ser vencido? Os Estados Unidos já atacaram dois
países que davam cobertura ao terror o Iraque e o
Afeganistão e ainda não se sabe se isso será
possível. "A partir dos atentados de 11 de setembro, passamos
a viver uma guerra de desgaste, prolongada, diferente do que estávamos
acostumados a enfrentar até agora, e que pode durar anos
ou décadas", disse a VEJA o especialista Bruce Hoffman, autor
do livro Inside Terrorism ("Por Dentro do Terrorismo"). Segundo
Hoffman, o inimigo não é visível, nem existe
uma arma específica que vai derrotá-lo. Para dar certo,
é preciso que acabar com o terrorismo seja prioridade de
todos os políticos, o que permitiria padronizar e intensificar
no mundo inteiro as leis de combate a esse mal moderno. Não
adianta mudar a legislação ou reforçar a segurança
em apenas alguns países. O terrorismo sempre procura brechas
não exploradas para atacar. Pode-se dizer, em certo sentido,
que o terrorismo já venceu, pois obrigou os países
democráticos a se defender. O efeito mais nefasto foi deixar
o Ocidente um pouco mais parecido com o mundo sombrio de seus inimigos.
O cidadão brasileiro que hoje leva a família à
Disney e passa pelo constrangimento de ver os filhos tratados com
maus modos nos aeroportos americanos está pagando o preço
indireto pelo mundo criado pelo ataque em 11 de setembro de 2001.
O
terror é o responsável pela transformação
dos Estados Unidos de um pólo de liberdade em uma nação
vigilante, temerosa do pior, com as armas engatilhadas interna e
externamente. É sempre bom ter em mente que, sem os atentados
ao Pentágono e ao World Trade Center, George W. Bush e os
neoconservadores que o cercam na Casa Branca não teriam ido
tão longe em sua negação dos valores de liberdade
que fizeram dos Estados Unidos um símbolo para o mundo. É
difícil para a maioria lembrar-se das condições
que predominavam antes de o planeta ser virado do avesso pelo terrorismo.
Vale recordar que Bush era criticado exatamente pelo isolacionismo
que estava imprimindo à política externa da superpotência.
Depois de 11 de setembro, o governo americano ficou menos paciente
com os aliados e disposto a ir em frente com seus planos, mesmo
que seja preciso ir sozinho. Tornou-se impossível aos EUA
manter uma atitude benevolente após os atentados. O impacto
da destruição das torres gêmeas de Nova York
na psique americana é equivalente ao que sentiriam os franceses
se a Torre Eiffel fosse atacada ou os ingleses caso o alvo dos terroristas
islâmicos tivesse sido o Palácio de Buckingham. O ataque
abalou a maior economia do mundo e pôs o planeta à
beira da recessão. Até hoje se paga em todo o mundo
o preço econômico e social do atentado. Evaporou-se
junto com as torres gêmeas o sentimento de segurança
que os americanos sempre desfrutaram dentro do próprio país.
Viu-se isso com precisão no recente blecaute que deixou 50
milhões de pessoas no escuro em oito Estados americanos,
há duas semanas. Demorou a eternidade de uma hora para o
prefeito de Nova York, Michael Bloomberg, assegurar que se tratava
de um acidente, e não de um novo assalto terrorista à
maior cidade americana. Poderia ter sido. Em teoria, uns poucos
atacantes podem tomar o controle de alguma remota estação
geradora de energia e dar início a uma devastadora reação
em cadeia no sistema elétrico americano. Há duas semanas,
um traficante de armas foi preso perto de Nova York com um míssil
antiaéreo de fabricação russa. Nas mãos
de um terrorista, a arma pode facilmente derrubar um avião
de passageiros que esteja decolando a 5 quilômetros de distância.
A
estratégia de Bush está agora sendo desafiada pelos
acontecimentos no Iraque e em Israel mas isso se deve menos
a seus defeitos e mais à perversidade de seus inimigos. A
palavra usada para descrever essa política americana é
"hegemonia". Max Boot, membro do Conselho de Relações
Exteriores de Nova York, propõe uma definição
melhor: globalcop, a polícia do mundo. Que outro país
divide o planeta em cinco comandos militares, tem presença
militar em 134 países e, depois de 11 de setembro, parece
ter perdido a inibição de derramar sangue, o seu e
o dos outros? A lição que se tira desses dois anos
de atuação americana como globalcop é que se
podem esquecer as intervenções rápidas. Para
estabelecer a paz, o império da lei e criar instituições
democráticas, é preciso estar preparado para intervenções
de longo prazo. O preço é alto. A ocupação
do Iraque custa 3,9 bilhões de dólares por mês
só na manutenção da soldadesca. O ritmo atual
de baixas é de um americano a cada dois dias. Max Boot diz
que o preço é suportável e que vale a pena.
Durante a Guerra Fria, os Estados Unidos souberam agüentar
durante décadas o confronto com a União Soviética
até a vitória final.
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