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Tales
Alvarenga Dores do crescimento
"Ruiu
a idéia de que o Brasil só tinha problemas porque seu governo
nunca havia sido entregue a um imaculado partido de pessoas puras como
o PT, capaz de materializar a utopia da salvação nacional pela
ação dos impolutos cavaleiros da vermelha figura"
A crise de credibilidade que cerca o governo e o PT não é tão
feia como a pintam. Basta que se passe a avaliá-la pela perspectiva dos
cidadãos brasileiros e não mais do ponto de vista dos figurões
de Brasília que estão sendo por ela demolidos. Em pouco mais de
um mês, o Brasil conseguiu fazer uma devassa nas entranhas do poder e, não
gostando do que viu, deu início ao que parece ser uma limpeza ética
como poucas a que já assistimos. Tudo parece ruir, mas o barulho terrível
que se ouve é apenas o de cabeças rolando.
Para enfrentar essa crise, cujas implicações para o governo e para
o PT são alarmantes, o Brasil não precisou passar por terremotos
institucionais. As crises que levaram ao suicídio de Getúlio Vargas,
à renúncia de Jânio Quadros e à derrubada de João
Goulart e de Fernando Collor criaram momentos de enorme suspense institucional.
Desta vez, não há alarme desse tipo. Ao menos até agora,
o que não é pouco. Uma coisa que
ruiu no Brasil, neste mês de julho, foi a idéia de que o país
só tinha problemas porque seu governo nunca havia sido entregue a um imaculado
partido de pessoas puras como o PT, capaz de materializar a utopia da salvação
nacional pela ação dos impolutos cavaleiros da vermelha figura.
O fato de que o Brasil tenha acreditado nessa empulhação e, em conseqüência,
colocado o PT à frente dos destinos do país, parece absurdo ao observador
de hoje. Mas não parecia aos eleitores de 2002.
Houve um aprofundamento da autoconsciência nacional. A ilusão saiu
esfrangalhada, mas nunca foi salutar viver de ilusões. Outra idéia
que vem ruindo desde o início do governo é a de que o PT tinha competência
técnica, política e humana para governar o país. Com exceção
da área econômica, em que emprega o bom senso convencional, mas contraria
as convicções da maioria dos integrantes da sigla petista, o partido
salvou-se em poucas frentes do naufrágio absoluto. No leme, estavam marujos
perplexos com as complexidades do poder. O Brasil
ainda é um país jovem. Em certos sentidos, como no aspecto político,
somos uma nação adolescente vivendo as descobertas e as dores do
crescimento. Não se sabe onde vai acabar o movimento de demolição
do que há de pernicioso no governo do momento nem se pode vislumbrar o
que vai sobrar do partido e da administração Lula. Como prova de
amadurecimento, há o fato de que o país continua vivendo num ambiente
de normalidade. As revelações de julho espantaram. Mas, ao contrário
do que aconteceu em outros momentos do passado, não deixaram aquela conhecida
sensação de que "este país não tem jeito". Tem jeito.
E a prova é o funcionamento de seus mecanismos de autodepuração.
Com a nova experiência no terreno da desilusão,
o Brasil já não estará tão frágil no futuro
ao se defrontar novamente com legendas ou políticos salvadores da pátria.
É de esperar que os moralistas e demagogos tenham mais dificuldade para
convencer eleitores que, a cada crise, vão se tornando menos ingênuos
e mais realistas. Que assim seja! |