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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo Uma
furtiva lágrima Uma tentativa
de explicar a origem da barafunda em que
se meteram o governo e o PT
Que se passava na cabeça deles? Eis o supremo enigma. A esta altura já
emerge claro, com base não só nos indícios como nos documentos,
não só no que foi dito nos depoimentos como, mais ainda, no que
neles foi silenciado, que a grande obra do governo Lula foi a montagem de uma
gigantesca estrutura de compra de pessoas e solapamento das instituições
do Estado. Qual era a idéia por trás disso? Qual o projeto? O primeiro
motivo de perplexidade é a própria insistência num estratagema
que, não faz muito, foi tentado, neste mesmo e pobre país, com resultado
desastroso para seus artífices. Se já não deu certo com Collor,
por que ia dar agora? O governo do PT lembra o de George W. Bush. Os Estados Unidos
conheceram o maior desastre militar de sua história, entre os anos 1960
e 1970, ao se enfiarem numa terra estranha e se engajarem numa guerra impossível
de ser ganha. Imaginava-se que a lição do Vietnã tinha sido
assimilada para não se repetir jamais. Pois, com o desastre ainda fresco
na memória histórica da nação, ainda assim lá
vai W. Bush e enfia de novo o país numa terra estranha, e engaja-o numa
guerra impossível de ser ganha. Se não deu certo no Vietnã,
por que daria no Iraque? Mas a questão principal
não é essa. É o porquê. Por que fizeram isso? Com que
objetivo? Uma possível explicação começa com uma certa
lágrima derramada em Havana, em setembro de 2003. A lágrima escorreu
do olho do então todo-poderoso chefe da Casa Civil, José Dirceu,
em visita oficial a Cuba, como membro da comitiva do presidente Lula, ao ser abraçado
por Fidel Castro. A saudação do comandante foi demais para ele.
Não passou despercebida, na ocasião, a fragilidade do coração
do número 1 do gabinete, o "capitão do time", como o classificava
Lula. Mas a lágrima era também um manifesto político. Exprimia
a duradoura fé no regime personificado pelo comandante. Pouco antes, em
Cuba, setenta intelectuais opositores do regime tinham sido encarcerados e três
pessoas executadas por seqüestrar um barco. Dirceu não chorou por
eles. O lado para o qual direcionou o choro indicava um persistente desprezo pelo
"Estado burguês". Para o dono da lágrima, apesar das afirmações
em contrário, e em desacordo com a conclusão a que uma ampla maioria
das esquerdas mundiais chegou, ao cabo de um doloroso processo de purgação
de seus erros, a democracia continuava um meio, não um fim.
Daí que a chegada ao poder devesse ser aproveitada para iniciar um processo
ao término do qual um outro regime, radioso e libertador, seria instalado
no país. Desde logo se desencadeou um movimento de pinça pelo qual,
por um lado, os órgãos do Estado foram assaltados pelos apparatchiks,
seguindo a cartilha dos regimes totalitários, e por outro se saiu comprando
os apoios e silêncios disponíveis e eles estão sempre
disponíveis em abundância na praça. Assim se preparava
o caminho para uma longa permanência no poder, durante a qual se assistiria
à derrocada do vício e ao triunfo da virtude. É paradoxal
que, na montagem de tal estratagema, Dirceu e os cabeças do partido sofressem
a oposição da esquerda, ao mesmo tempo em que cumulavam a direita
de gentilezas. Eram conseqüências inevitáveis da tática
escolhida, semelhante à dos agentes secretos que se infiltram no ambiente
onde lhes cabe agir, nele se entrosam e com ele se confundem, sem levantar suspeitas,
até o dia em que se sentem seguros o bastante para começar a operar.
Se não isso, por quê? A hipótese
aventada é no fundo uma homenagem a José Dirceu. Qualquer outra,
para a origem do festival de roubalheiras e safadezas que assola o país,
lhe seria mais desairosa. Esta lhe permite distinguir-se, no fim último,
do esquema Collor. Diga-se de passagem que aqui se insiste tanto em Dirceu porque
não se é promovido a capitão do time impunemente. Quanto
a Lula, estava ocupado demais em festejar a vitória, e satisfeito demais
em ter quem governasse por ele, para se incomodar com tais questiúnculas.
Se tem um lado de homenagem, no entanto, a hipótese
é ao mesmo tempo devastadora para a reputação do ex-chefe
da Casa Civil. Como é que ele foi imaginar que isso podia dar certo? "Não
podia dar, os senhores são muito atrapalhados", sentenciou a deputada Denise
Frossard, na CPI dos Correios, ao expor tese parecida de golpe nas instituições.
Dirceu não calculou o potencial explosivo da contradição
em que estava montado, ao unir revolucionários, oportunistas, corruptos
e inocentes úteis no mesmo barco. Não levou em conta logo a "contradição",
palavra tão preciosa no dicionário marxista, e ela estourou-lhe
na cara com as denúncias de Roberto Jefferson. Não levou em conta,
além disso, que, uma vez solta, a corrupção impõe
sua própria lógica, e que mesmo entre os melhores soldados o carrão
da moda, o apartamento de luxo e a casa na praia não demoram para virar
objetivos em si mesmos, delícias irrecusáveis, regalos com mais
promessas de gozo e prazer do que o nirvana da revolução. |