|
|
 |
PÔ, LULA, EU AVISEI A TEMPO: "NÃO
SE PODE TAPAR O SOL SEM A PENEIRA". |
Millôr-Braille. A visão na ponta
dos dedos
Um dia
E aqui estou eu, mais uma vez, abrindo minha
janela no albor do dia (gostei, Millôr!), vendo o sol radioso
nascer, vermelho-puro, vermelho-púrpura, por trás
das montanhas verdes da Gávea. Os revérberos avermelham
também o mar e transparenciam as águas com sua luz
inaugural. E Eu aqui, um ser humano em maiúscula, pronto
a gozar mais uma jornada maravilhosa nesta cidade e neste país
maravilhosos, em que tive o privilégio de nascer e tenho
o de viver. O dia avança, atravessando um tiroteio na favela
vizinha, onde morrem algumas pessoas, na privilegiada fatalidade
da existência. Avança mais o dia, enquanto vejo, no
céu límpido, alguns urubus em sua tranqüila faina
biológica de rapinar e devorar belas gaivotas, um meliante
mata um não-meliante, dez policiais, na caça do outro
meliante, matam dez civis, no alto nuvens negras, parecendo prenunciadoras,
soltam raios também prenunciadores de bons tempos, uma mala
gigantesca em forma de bondinho, ou um bondinho pequeno em forma
de mala a distância não permite verificar ,
transporta pelo céu uma fortuna ganha em suado labor, fortuna
que outros acham mais fácil levar por vias fluviais, um traficante,
com um lança-jatos, atravessa o Pão de Açúcar,
numa coreografia esplêndida, que é completada por dois
aviões que se chocam no ar, conduzidos por pilotos diplomados
em metalurgia. Coroando tudo, um gigantesco arco-íris, quase
do tamanho do céu. E o dia apenas mais um ainda
se dá ao luxo de terminar com um esplendoroso pôr-do-sol.
E eu digo, pra mim mesmo: "Taí, Millôr,
teu privilégio, taí, Millôr, o país de
teus sonhos".
|