Edição 1915 . 27 de julho de 2005

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PÔ, LULA, EU AVISEI A TEMPO: "NÃO SE PODE TAPAR O SOL SEM A PENEIRA".

Millôr-Braille. A visão na ponta dos dedos

Um dia

E aqui estou eu, mais uma vez, abrindo minha janela no albor do dia (gostei, Millôr!), vendo o sol radioso nascer, vermelho-puro, vermelho-púrpura, por trás das montanhas verdes da Gávea. Os revérberos avermelham também o mar e transparenciam as águas com sua luz inaugural. E Eu aqui, um ser humano em maiúscula, pronto a gozar mais uma jornada maravilhosa nesta cidade e neste país maravilhosos, em que tive o privilégio de nascer e tenho o de viver. O dia avança, atravessando um tiroteio na favela vizinha, onde morrem algumas pessoas, na privilegiada fatalidade da existência. Avança mais o dia, enquanto vejo, no céu límpido, alguns urubus em sua tranqüila faina biológica de rapinar e devorar belas gaivotas, um meliante mata um não-meliante, dez policiais, na caça do outro meliante, matam dez civis, no alto nuvens negras, parecendo prenunciadoras, soltam raios também prenunciadores de bons tempos, uma mala gigantesca em forma de bondinho, ou um bondinho pequeno em forma de mala – a distância não permite verificar –, transporta pelo céu uma fortuna ganha em suado labor, fortuna que outros acham mais fácil levar por vias fluviais, um traficante, com um lança-jatos, atravessa o Pão de Açúcar, numa coreografia esplêndida, que é completada por dois aviões que se chocam no ar, conduzidos por pilotos diplomados em metalurgia. Coroando tudo, um gigantesco arco-íris, quase do tamanho do céu. E o dia – apenas mais um – ainda se dá ao luxo de terminar com um esplendoroso pôr-do-sol.

E eu digo, pra mim mesmo: "Taí, Millôr, teu privilégio, taí, Millôr, o país de teus sonhos".

 
 
 
 
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