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Entrevista:
Raúl Rivero Cuba
quer liberdade O maior poeta de Cuba,
exilado na Espanha, diz que a transição para a democracia só
depende da morte do ditador "Fidel jamais abrirá mão por vontade
própria de seu poder ilimitado. Enquanto estiver vivo, Cuba não
poderá pensar em democracia"  Ruth
Costas Na juventude, o poeta Raúl
Rivero foi correspondente da imprensa cubana na União Soviética.
O contato direto com a pátria do socialismo contribuiu para que desenvolvesse
profunda aversão aos regimes totalitários, como o instalado em Cuba,
sua terra natal. Fundador da agência de notícias independente Cuba
Press, Rivero foi um dos 75 dissidentes presos em 2003. Condenado a vinte anos
de cadeia, foi solto em novembro passado devido, em boa parte, à campanha
internacional de solidariedade organizada por políticos, artistas e escritores.
Contribuiu para sua libertação o fato de o governo de Fidel Castro
ter se convencido de que Rivero não sobreviveria na prisão. O poeta,
que sofre de enfisema pulmonar e de problemas renais, saiu do cárcere 30
quilos mais magro. Nesta semana, será lançado o primeiro livro de
Rivero no Brasil, Provas de Contato, que reúne relatos sobre a repressão
política e os abusos de poder em Cuba. Rivero que o escritor
cubano Cabrera Infante qualificava como o maior poeta vivo de Cuba falou
a VEJA de seu apartamento em Madri, na Espanha, onde se exilou há três
meses com a mulher e a filha mais nova. Veja
Por que o senhor foi preso? Rivero Fui condenado
por ter "colaborado com o inimigo". Em Cuba, basta discordar do governo para ser
acusado de estar a serviço do imperialismo e de ser um agente da CIA. Fui
preso com 74 opositores, a maioria jornalistas ou ativistas de um grupo dissidente
chamado Movimento Cristão Liberação. Esse grupo havia conseguido
reunir quase 22.000 assinaturas para convocar um plebiscito sobre o regime castrista.
Simultaneamente, eu estava ajudando a lançar três revistas, feitas
de forma quase artesanal, que iriam circular em Cuba. Era liberdade demais para
um governo que só ouve o que quer. Veja
Como foi seu julgamento? Rivero Foi um circo.
Durante todo o processo, os juízes olhavam para o infinito, completamente
alheios ao que estava acontecendo dentro do tribunal. A sentença estava
predeterminada, e meu advogado tinha mais medo que eu. No canto da sala, já
vestido com uniforme de presidiário, eu me perguntava: "Meu Deus, nas mãos
de quem está a justiça do meu país?". Veja
Como foi a vida na prisão? Rivero O
primeiro ano foi o pior. Ser condenado a vinte anos de reclusão aos 57
anos significa uma pena perpétua. Fui trancado sozinho numa cela sem luz,
um cubículo no qual não conseguia dar mais de seis passos. As condições
de higiene eram infames. Tinha ratos, baratas, rãs e nuvens de mosquitos.
No verão era abafada e no inverno, gelada. O ar não circulava. Na
cela em frente havia um grupo de presos muito jovens condenados à morte
ou à prisão perpétua por crimes comuns. O objetivo do regime
ao me colocar naquele lugar era me desmoralizar. Uma prisão castrista é
a ante-sala da morte. Temia ficar louco, ter claustrofobia. Sentia medo de ter
medo, porque a sensação de perigo iminente também enlouquece.
Fui transferido depois de um ano e passei a dividir uma cela com dois prisioneiros
comuns, um condenado por assassinato e o outro por roubo. Veja
Como o senhor se relacionava com os presos comuns? Rivero
Eu tinha uma relação muito próxima com eles. Nas
prisões cubanas as pessoas mais velhas, como eu, são tratadas com
respeito pelos jovens. Eles sabiam que eu era um escritor, um poeta, e não
um delinqüente. Com o tempo, criei uma espécie de consultório
sentimental. Os presos têm muito medo de que as mulheres os abandonem, e
eu escrevia poemas e cartas de amor para eles entregarem às namoradas.
Também lhes emprestava livros de poesia, caneta e papel. Conversávamos
muito, e hoje estou escrevendo um livro baseado nas histórias brutais de
crimes e roubos que eles me contaram. Veja
O senhor acha possível ocorrer algum tipo de abertura política
com Fidel Castro no poder? Rivero Fidel jamais abrirá
mão por vontade própria de seu poder ilimitado. Enquanto ele estiver
vivo, Cuba não poderá pensar em transição democrática.
Depois de sua morte, acredito num processo de abertura gradual. Raúl Castro,
irmão de Fidel, deverá assumir o poder, mas não terá
força para se agüentar por muito tempo. Logo, a pressão da
sociedade aumentará. Os membros do Partido Comunista que sabem que o modelo
de Fidel é ultrapassado começarão a ganhar espaço.
Aos poucos, os cubanos vão recuperar a liberdade de expressão e
o direito de ir e vir, e o país retornará ao comércio normal
com outras nações. O melhor é que já existe uma geração
pronta para dirigir o país nesse período de transição.
É formada por gente capacitada, que se prepara para isso em Cuba e no exílio.
O novo governo será formado principalmente por jovens.
Veja Quais serão as maiores dificuldades?
Rivero Será um desafio mudar a mentalidade das classes dirigentes.
As autoridades cubanas estão acostumadas a governar sem prestar contas
a ninguém, tanto em Havana quanto nas províncias. Por mais de quatro
décadas, os administradores públicos foram indicados pela cúpula
do Partido Comunista. Eles nunca foram eleitos e não se preocupam com a
aprovação da população. Veja
Como seria Cuba sem Fidel? Rivero O cenário
ideal seria o de uma Cuba plural, com partidos políticos, jornais de diferentes
opiniões e um Parlamento no qual diversos grupos pudessem debater suas
idéias. Os cubanos devem ter o direito de ser donos de pequenos negócios
e empresas, o que hoje é quase impossível. Para que esse cenário
seja viável, as mudanças precisam ser feitas lentamente e de maneira
pacífica. O povo cubano já sofreu muito. Algumas pessoas passaram
mais de vinte anos presas e outras morreram afogadas no Estreito da Flórida
porque queriam fugir para os Estados Unidos. Muitas famílias estão
divididas. Eu, por exemplo, tenho uma filha em Cuba, outra comigo em Madri e mais
dois filhos nos EUA. Cuba é um país que não merece continuar
sofrendo. Veja Os
cubanos amam ou odeiam Fidel Castro? Rivero Fidel ainda tem
algum apoio nos setores conservadores e entre as pessoas mais velhas, que são
avessas a mudanças. A juventude sente uma mistura de ódio e indiferença
por ele. Cuba é um país seqüestrado por um governo que se equilibra
com uma receita de intensa propaganda e violenta repressão à oposição.
O discurso oficial é o mesmo desde os anos 70 e já está esgotado.
A propaganda baseada no stalinismo não tem nada a ver com a realidade de
nosso país tropical nem diz nada às novas gerações.
A prova disso é que os jovens cubanos são fascinados pelos EUA e
pela sociedade de consumo. Veja
A hostilidade do regime castrista em relação aos Estados
Unidos não é compartilhada pela população? Rivero
É o contrário. Dois milhões de cubanos moram nos
EUA. Enquanto o governo de Fidel insiste que é impossível viver
bem num país de capitalismo selvagem como os Estados Unidos, o primo de
algum cidadão cubano telefona de lá e diz que comprou um carro e
uma casa. Em seguida, manda fotos e vai visitá-lo. Esse testemunho familiar
é mais poderoso que a panfletagem grosseira que o governo faz contra os
americanos. É por isso que os cubanos arriscam a vida para entrar naquele
país. No vizinho capitalista, eles podem abrir negócios, enquanto
em Cuba estão proibidos até de instalar uma barraquinha para vender
refresco na porta de casa. Quase todos os cubanos têm de viver do salário
miserável recebido do governo, e os jovens que querem se casar sabem que
não poderão comprar um lugar para morar. Não é que
as pessoas sejam máquinas de consumir, mas todo mundo tem pequenas aspirações
na vida. Os cubanos querem ter alternativas. Veja
Até o início da década de 90, Cuba era sustentada
pela União Soviética. Como a vida na ilha mudou depois da derrocada
do regime soviético? Rivero A estabilidade econômica
ruiu. Cuba empobreceu e a insatisfação dos cubanos aumentou. Hoje
as famílias praticamente vivem do dinheiro enviado por parentes que moram
no exterior. Essas pessoas são chamadas de traidoras pelo governo por ter
abandonado a pátria, mas os milhões de dólares de suas remessas
sustentam a economia da ilha. O governo de Fidel foi incapaz até mesmo
de desenvolver a produção de alimentos para atender às necessidades
mínimas dos cubanos. Certa vez fiz um levantamento comparando a dieta proposta
pela cartilha de abastecimento do governo, que define as porções
recebidas por cada cubano, com a comida que era dada aos escravos no passado.
Cheguei à conclusão de que os escravos comiam muito melhor. Até
a salada servida aos estrangeiros nos hotéis cubanos é importada
do México. Veja Muitos
intelectuais brasileiros têm uma visão idealizada da experiência
cubana. O que o senhor diria a eles? Rivero Os intelectuais
de esquerda da Europa e da América Latina vêem Cuba como um sonho,
um lugar lendário em que um sistema alternativo ao capitalismo conseguiu
sobreviver. Eles vão para a ilha passar férias uma ou duas vezes
por ano, hospedam-se nos hotéis, aproveitam as praias e depois voltam para
seu país. Eu respeito a opinião das pessoas que ainda acreditam
no sonho cubano, mas não posso deixar de alertá-las: para quem mora
em Cuba, a realidade é um pesadelo. Por quarenta anos agüentamos o
mesmo governo. Trata-se de uma espécie de aberração do marxismo
clássico, que, em vez de socializar a riqueza, socializou a pobreza.
Veja Os anos 90 marcaram o declínio
definitivo da ideologia comunista no mundo. Como o senhor interpreta a resistência
em Cuba? Rivero Como um capricho pessoal de Fidel Castro,
que insiste em manter o poder absoluto à custa da vivacidade e do espírito
do povo cubano. Em Cuba, é preciso aplaudir o governo dia a dia, hora a
hora. Veja Como o
controle do Estado se manifesta no cotidiano das pessoas? Rivero
O método de vigilância e investigação da vida de cada
pessoa foi ensinado à polícia cubana pela União Soviética.
Existem informantes da polícia em todos os lugares. Não há
como escapar. O governo é dono da escola, do consultório médico
e do local de trabalho. A polícia política tem nas mãos a
vida de cada cidadão e sabe tudo o que ele diz em público. Veja
A qualidade da educação e da saúde em Cuba
era apresentada pelo governo cubano como prova do progresso trazido pela revolução.
Como estão esses serviços hoje? Rivero O governo
cubano afirma que, graças à sua campanha de alfabetização,
todo mundo sabe ler e escrever. Isso é verdade. O que ninguém diz
é que os cubanos só podem ler o que Fidel quer. Dezenas de escritores
estão proibidos em Cuba. É uma crueldade infinita ensinar a ler
e depois proibir os livros. A fronteira entre a educação e a doutrinação
política é quase invisível. A história de Cuba foi
alterada para se adequar à ideologia do regime, e os professores martelam
na cabeça das crianças elogios à revolução.
Na saúde pública, a situação também é
deplorável, a não ser para os dirigentes do Partido Comunista e
para os estrangeiros que podem pagar. Quando um cubano é internado, tem
de levar os lençóis, a comida, os pratos, a colher e os remédios,
porque no hospital não vai encontrar infra-estrutura alguma. Recentemente,
Fidel firmou um acordo de cooperação na área de saúde
com o governo venezuelano em troca de fornecimento de petróleo. O resultado
é que agora até os médicos estão saindo da ilha para
atender os habitantes do país vizinho. A saúde dos cubanos não
é prioridade. Veja
Como o senhor vê a aproximação de Castro com Hugo Chávez? Rivero
Chávez é um clone de Fidel Castro. Ele não usa
barba, mas tem o mesmo tipo de delírio: quer ter o poder total, dominar
tudo. Seu governo é o principal representante de um populismo que, caso
se alastre, pode causar muito estrago na América Latina. A amizade entre
Chávez e Fidel é um risco para a região. Veja
Quando o senhor pretende voltar a Cuba? Rivero
Depois de me convencer de que não terei de cumprir os dezoito anos que
faltam para completar minha pena. O que me tirou da cadeia foi uma licença
emitida pela polícia, e não por tribunais. Se eu voltar, posso ser
preso imediatamente. Deixei tudo em meu país: minha casa, meus livros,
minha infância e juventude. Em compensação, em Madri estou
descobrindo o que é ter liberdade para ir aonde quero e me comunicar com
as pessoas. Depois de tantos anos, recuperei a dignidade. Eu e minha família
temos de trabalhar arduamente, lutar muito para nos manter. Ser livre é
uma grande responsabilidade, mas também é uma delícia.
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