Edição 1915 . 27 de julho de 2005

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Entrevista: Raúl Rivero
Cuba quer liberdade

O maior poeta de Cuba, exilado na Espanha,
diz que a transição para a democracia só
depende da morte do ditador "Fidel jamais
abrirá mão por vontade própria de seu poder
ilimitado. Enquanto estiver vivo, Cuba não
poderá pensar em democracia"


Ruth Costas

Na juventude, o poeta Raúl Rivero foi correspondente da imprensa cubana na União Soviética. O contato direto com a pátria do socialismo contribuiu para que desenvolvesse profunda aversão aos regimes totalitários, como o instalado em Cuba, sua terra natal. Fundador da agência de notícias independente Cuba Press, Rivero foi um dos 75 dissidentes presos em 2003. Condenado a vinte anos de cadeia, foi solto em novembro passado devido, em boa parte, à campanha internacional de solidariedade organizada por políticos, artistas e escritores. Contribuiu para sua libertação o fato de o governo de Fidel Castro ter se convencido de que Rivero não sobreviveria na prisão. O poeta, que sofre de enfisema pulmonar e de problemas renais, saiu do cárcere 30 quilos mais magro. Nesta semana, será lançado o primeiro livro de Rivero no Brasil, Provas de Contato, que reúne relatos sobre a repressão política e os abusos de poder em Cuba. Rivero – que o escritor cubano Cabrera Infante qualificava como o maior poeta vivo de Cuba – falou a VEJA de seu apartamento em Madri, na Espanha, onde se exilou há três meses com a mulher e a filha mais nova.

Veja – Por que o senhor foi preso?
Rivero – Fui condenado por ter "colaborado com o inimigo". Em Cuba, basta discordar do governo para ser acusado de estar a serviço do imperialismo e de ser um agente da CIA. Fui preso com 74 opositores, a maioria jornalistas ou ativistas de um grupo dissidente chamado Movimento Cristão Liberação. Esse grupo havia conseguido reunir quase 22.000 assinaturas para convocar um plebiscito sobre o regime castrista. Simultaneamente, eu estava ajudando a lançar três revistas, feitas de forma quase artesanal, que iriam circular em Cuba. Era liberdade demais para um governo que só ouve o que quer.

Veja – Como foi seu julgamento?
Rivero – Foi um circo. Durante todo o processo, os juízes olhavam para o infinito, completamente alheios ao que estava acontecendo dentro do tribunal. A sentença estava predeterminada, e meu advogado tinha mais medo que eu. No canto da sala, já vestido com uniforme de presidiário, eu me perguntava: "Meu Deus, nas mãos de quem está a justiça do meu país?".

Veja – Como foi a vida na prisão?
Rivero – O primeiro ano foi o pior. Ser condenado a vinte anos de reclusão aos 57 anos significa uma pena perpétua. Fui trancado sozinho numa cela sem luz, um cubículo no qual não conseguia dar mais de seis passos. As condições de higiene eram infames. Tinha ratos, baratas, rãs e nuvens de mosquitos. No verão era abafada e no inverno, gelada. O ar não circulava. Na cela em frente havia um grupo de presos muito jovens condenados à morte ou à prisão perpétua por crimes comuns. O objetivo do regime ao me colocar naquele lugar era me desmoralizar. Uma prisão castrista é a ante-sala da morte. Temia ficar louco, ter claustrofobia. Sentia medo de ter medo, porque a sensação de perigo iminente também enlouquece. Fui transferido depois de um ano e passei a dividir uma cela com dois prisioneiros comuns, um condenado por assassinato e o outro por roubo.

Veja – Como o senhor se relacionava com os presos comuns?
Rivero – Eu tinha uma relação muito próxima com eles. Nas prisões cubanas as pessoas mais velhas, como eu, são tratadas com respeito pelos jovens. Eles sabiam que eu era um escritor, um poeta, e não um delinqüente. Com o tempo, criei uma espécie de consultório sentimental. Os presos têm muito medo de que as mulheres os abandonem, e eu escrevia poemas e cartas de amor para eles entregarem às namoradas. Também lhes emprestava livros de poesia, caneta e papel. Conversávamos muito, e hoje estou escrevendo um livro baseado nas histórias brutais de crimes e roubos que eles me contaram.

Veja – O senhor acha possível ocorrer algum tipo de abertura política com Fidel Castro no poder?
Rivero – Fidel jamais abrirá mão por vontade própria de seu poder ilimitado. Enquanto ele estiver vivo, Cuba não poderá pensar em transição democrática. Depois de sua morte, acredito num processo de abertura gradual. Raúl Castro, irmão de Fidel, deverá assumir o poder, mas não terá força para se agüentar por muito tempo. Logo, a pressão da sociedade aumentará. Os membros do Partido Comunista que sabem que o modelo de Fidel é ultrapassado começarão a ganhar espaço. Aos poucos, os cubanos vão recuperar a liberdade de expressão e o direito de ir e vir, e o país retornará ao comércio normal com outras nações. O melhor é que já existe uma geração pronta para dirigir o país nesse período de transição. É formada por gente capacitada, que se prepara para isso em Cuba e no exílio. O novo governo será formado principalmente por jovens.

Veja – Quais serão as maiores dificuldades?
Rivero – Será um desafio mudar a mentalidade das classes dirigentes. As autoridades cubanas estão acostumadas a governar sem prestar contas a ninguém, tanto em Havana quanto nas províncias. Por mais de quatro décadas, os administradores públicos foram indicados pela cúpula do Partido Comunista. Eles nunca foram eleitos e não se preocupam com a aprovação da população.

Veja – Como seria Cuba sem Fidel?
Rivero – O cenário ideal seria o de uma Cuba plural, com partidos políticos, jornais de diferentes opiniões e um Parlamento no qual diversos grupos pudessem debater suas idéias. Os cubanos devem ter o direito de ser donos de pequenos negócios e empresas, o que hoje é quase impossível. Para que esse cenário seja viável, as mudanças precisam ser feitas lentamente e de maneira pacífica. O povo cubano já sofreu muito. Algumas pessoas passaram mais de vinte anos presas e outras morreram afogadas no Estreito da Flórida porque queriam fugir para os Estados Unidos. Muitas famílias estão divididas. Eu, por exemplo, tenho uma filha em Cuba, outra comigo em Madri e mais dois filhos nos EUA. Cuba é um país que não merece continuar sofrendo.

Veja – Os cubanos amam ou odeiam Fidel Castro?
Rivero – Fidel ainda tem algum apoio nos setores conservadores e entre as pessoas mais velhas, que são avessas a mudanças. A juventude sente uma mistura de ódio e indiferença por ele. Cuba é um país seqüestrado por um governo que se equilibra com uma receita de intensa propaganda e violenta repressão à oposição. O discurso oficial é o mesmo desde os anos 70 e já está esgotado. A propaganda baseada no stalinismo não tem nada a ver com a realidade de nosso país tropical nem diz nada às novas gerações. A prova disso é que os jovens cubanos são fascinados pelos EUA e pela sociedade de consumo.

Veja – A hostilidade do regime castrista em relação aos Estados Unidos não é compartilhada pela população?
Rivero – É o contrário. Dois milhões de cubanos moram nos EUA. Enquanto o governo de Fidel insiste que é impossível viver bem num país de capitalismo selvagem como os Estados Unidos, o primo de algum cidadão cubano telefona de lá e diz que comprou um carro e uma casa. Em seguida, manda fotos e vai visitá-lo. Esse testemunho familiar é mais poderoso que a panfletagem grosseira que o governo faz contra os americanos. É por isso que os cubanos arriscam a vida para entrar naquele país. No vizinho capitalista, eles podem abrir negócios, enquanto em Cuba estão proibidos até de instalar uma barraquinha para vender refresco na porta de casa. Quase todos os cubanos têm de viver do salário miserável recebido do governo, e os jovens que querem se casar sabem que não poderão comprar um lugar para morar. Não é que as pessoas sejam máquinas de consumir, mas todo mundo tem pequenas aspirações na vida. Os cubanos querem ter alternativas.

Veja – Até o início da década de 90, Cuba era sustentada pela União Soviética. Como a vida na ilha mudou depois da derrocada do regime soviético?
Rivero – A estabilidade econômica ruiu. Cuba empobreceu e a insatisfação dos cubanos aumentou. Hoje as famílias praticamente vivem do dinheiro enviado por parentes que moram no exterior. Essas pessoas são chamadas de traidoras pelo governo por ter abandonado a pátria, mas os milhões de dólares de suas remessas sustentam a economia da ilha. O governo de Fidel foi incapaz até mesmo de desenvolver a produção de alimentos para atender às necessidades mínimas dos cubanos. Certa vez fiz um levantamento comparando a dieta proposta pela cartilha de abastecimento do governo, que define as porções recebidas por cada cubano, com a comida que era dada aos escravos no passado. Cheguei à conclusão de que os escravos comiam muito melhor. Até a salada servida aos estrangeiros nos hotéis cubanos é importada do México.

Veja – Muitos intelectuais brasileiros têm uma visão idealizada da experiência cubana. O que o senhor diria a eles?
Rivero – Os intelectuais de esquerda da Europa e da América Latina vêem Cuba como um sonho, um lugar lendário em que um sistema alternativo ao capitalismo conseguiu sobreviver. Eles vão para a ilha passar férias uma ou duas vezes por ano, hospedam-se nos hotéis, aproveitam as praias e depois voltam para seu país. Eu respeito a opinião das pessoas que ainda acreditam no sonho cubano, mas não posso deixar de alertá-las: para quem mora em Cuba, a realidade é um pesadelo. Por quarenta anos agüentamos o mesmo governo. Trata-se de uma espécie de aberração do marxismo clássico, que, em vez de socializar a riqueza, socializou a pobreza.

Veja – Os anos 90 marcaram o declínio definitivo da ideologia comunista no mundo. Como o senhor interpreta a resistência em Cuba?
Rivero – Como um capricho pessoal de Fidel Castro, que insiste em manter o poder absoluto à custa da vivacidade e do espírito do povo cubano. Em Cuba, é preciso aplaudir o governo dia a dia, hora a hora.

Veja – Como o controle do Estado se manifesta no cotidiano das pessoas?
Rivero – O método de vigilância e investigação da vida de cada pessoa foi ensinado à polícia cubana pela União Soviética. Existem informantes da polícia em todos os lugares. Não há como escapar. O governo é dono da escola, do consultório médico e do local de trabalho. A polícia política tem nas mãos a vida de cada cidadão e sabe tudo o que ele diz em público.

Veja – A qualidade da educação e da saúde em Cuba era apresentada pelo governo cubano como prova do progresso trazido pela revolução. Como estão esses serviços hoje?
Rivero – O governo cubano afirma que, graças à sua campanha de alfabetização, todo mundo sabe ler e escrever. Isso é verdade. O que ninguém diz é que os cubanos só podem ler o que Fidel quer. Dezenas de escritores estão proibidos em Cuba. É uma crueldade infinita ensinar a ler e depois proibir os livros. A fronteira entre a educação e a doutrinação política é quase invisível. A história de Cuba foi alterada para se adequar à ideologia do regime, e os professores martelam na cabeça das crianças elogios à revolução. Na saúde pública, a situação também é deplorável, a não ser para os dirigentes do Partido Comunista e para os estrangeiros que podem pagar. Quando um cubano é internado, tem de levar os lençóis, a comida, os pratos, a colher e os remédios, porque no hospital não vai encontrar infra-estrutura alguma. Recentemente, Fidel firmou um acordo de cooperação na área de saúde com o governo venezuelano em troca de fornecimento de petróleo. O resultado é que agora até os médicos estão saindo da ilha para atender os habitantes do país vizinho. A saúde dos cubanos não é prioridade.

Veja – Como o senhor vê a aproximação de Castro com Hugo Chávez?
Rivero – Chávez é um clone de Fidel Castro. Ele não usa barba, mas tem o mesmo tipo de delírio: quer ter o poder total, dominar tudo. Seu governo é o principal representante de um populismo que, caso se alastre, pode causar muito estrago na América Latina. A amizade entre Chávez e Fidel é um risco para a região.

Veja – Quando o senhor pretende voltar a Cuba?
Rivero – Depois de me convencer de que não terei de cumprir os dezoito anos que faltam para completar minha pena. O que me tirou da cadeia foi uma licença emitida pela polícia, e não por tribunais. Se eu voltar, posso ser preso imediatamente. Deixei tudo em meu país: minha casa, meus livros, minha infância e juventude. Em compensação, em Madri estou descobrindo o que é ter liberdade para ir aonde quero e me comunicar com as pessoas. Depois de tantos anos, recuperei a dignidade. Eu e minha família temos de trabalhar arduamente, lutar muito para nos manter. Ser livre é uma grande responsabilidade, mas também é uma delícia.

 
 
 
 
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