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André
Petry Um escândalo, por favor
"Com a reação da hierarquia católica,
com seu silêncio e sua covardia de enfrentar um problema grave, pode-se
supor que, no momento em que você, leitor, lê estas linhas, um
padre esteja por aí molestando uma menina de 16 anos..."
A ausência de escândalos não é garantia
de ordem. Aliás, a ausência de escândalos, principalmente em
países em construção como o Brasil, quase sempre é
sinal de desordem desordem silenciada, sufocada, amordaçada. Quando
nada se sabia sobre o mensalão, não havia escândalo nem espanto,
mas o mensalão estava lá, discretamente deslizando para o bolso
dos parlamentares, numa perfeita desordem muda. O
escândalo, portanto, às vezes faz muito bem. Agora
mesmo, a pesquisadora Regina Soares Jurkewicz lançou um livro narrando
casos de padres que abusaram sexualmente de mulheres entre 1994 e 2002. Jurkewicz
examinou episódios divulgados pela imprensa nesses oito anos e consultou
quase 100 organizações que trabalham com direitos humanos. Em seguida,
selecionou 21 casos "envolvendo meninas, adolescentes e mulheres". Na maioria
das vezes, a vítima não tinha mais que 16 anos. Por fim, a pesquisadora
aprofundou sua análise em dois casos, os mais emblemáticos. O resultado
é um livro de 124 páginas chamado Desvelando a Política
do Silêncio: Abuso Sexual de Mulheres por Padres no Brasil.
Jurkewicz é professora, é católica e
trabalhava havia oito anos no Instituto de Teologia de Santo André. Trabalhava.
Não trabalha mais. Assim que sua pesquisa começou a vir a público,
a direção do instituto resolveu demiti-la sob a alegação
de que discordava de suas idéias. Era para
ser um escândalo, mas virou silêncio. Demitiram a professora porque
não concordavam com ela. Discordar é livre, naturalmente, mas não
deixa de ser espantoso que o pessoal do instituto tenha levado oito anos para
descobrir as idéias da professora e perceber que delas discordava. O fato
é que eles nada falaram das denúncias de Jurkewicz e ainda desprezaram
o objetivo central de seu livro: o de pressionar a hierarquia católica
a reconhecer a existência do problema e sobretudo demovê-la da política
de ocultar e silenciar e esconder e até proteger os padres agressores.
O problema todo é que não houve escândalo.
O mensalão já acabou. É absolutamente certo que não
existe deputado ou senador que esteja, neste momento, pensando em trocar de partido
para ter direito ao mensalão do PT. O escândalo, a denúncia,
a investigação, o barulho, a reação da sociedade
tudo isso é doloroso, mas foi também o primeiro passo, apenas o
primeiro passo, para estancar o problema. No caso
da denúncia de Jurkewicz contra o abuso cometido por padres, lamentavelmente
não se pode esperar nada de solução. Continuaremos vivendo
a esquizofrenia segundo a qual a lei brasileira diz que abuso sexual é
crime, mas o direito canônico nem sequer prevê punição
para o agressor. Com a reação da hierarquia católica, com
seu silêncio, sua apatia, sua covardia de enfrentar um problema grave, pode-se
supor que, neste exato momento, no momento em que você, leitor, lê
estas linhas, um padre esteja por aí molestando uma menina de 16 anos...
Quem há de negar se não há
escândalo? |