Ponto
de vista: Claudio
de Moura Castro Política e educação
"Como a qualidade
da educação não é
valorizada pela sociedade, melhorá-la
não traz nenhum prêmio político"
Alguns anos atrás,
perguntei a um grande empresário por que ele não
fazia o lobby da educação fundamental, reclamando
com ministros e autoridades. Respondeu-me, laconicamente:
já havia tentado, sem êxito. Ele tinha razão.
Brasília não é o local para brigar pela
qualidade da educação. Entre outras coisas,
o MEC não opera escolas nesse nível. Grande
parte da educação inicial é do município,
que paga a conta, contrata os professores e administra o sistema.
E é lá também que a politicagem entra
pela porta dos fundos. Note-se que 60% dos diretores são
escolhidos politicamente.
E
isso acontece porque a lógica do sistema é perversa.
Imaginemos que o prefeito tivesse um caderno de contabilidade,
com páginas para os ganhos e páginas para as
perdas (definidas de forma abrangente: políticas ou
financeiras). Para saldar uma dívida de campanha, o
prefeito nomeia como diretora a cunhada do seu cabo eleitoral
ou a amiga do deputado imbecis perfeitas que vão
azedar o clima da escola. Essa nomeação rende
para o prefeito uma anotação na conta de ganhos
e nenhuma na conta de perdas, pois ninguém reclama.
Alunos e pais não entendem ou não sabem mostrar
politicamente a sua insatisfação. O mesmo ocorre
com a contratação de merendeiras desnecessárias,
o leilão dos cargos em comissão e o comércio
das transferências.
Há prefeitos
de desempenho impecável. Mas as boas intenções
de alguns não resistem à tentação
de entrar em um jogo (legal) no qual só existem ganhos.
Contudo, tal jogo é profundamente lesivo para a educação.
Pior, como a qualidade da educação não
é valorizada pela sociedade, melhorá-la não
traz nenhum prêmio político. Portanto, se não
mudarem as regras do jogo, fica difícil melhorar o
ensino. A solução óbvia e possível
é fazer com que o jogo político passe a produzir
também perdas. Aí está o papel do empresariado
local e do terceiro setor. Além do poder dos seus decibéis,
as maiores empresas locais são assediadas pelos prefeitos
e secretários, com pedidos de quadras esportivas e
tudo o mais.
Há duas
linhas possíveis de atuação. Uma delas
é, simplesmente, tomar os resultados da Prova Brasil
ou do Ineb e cobrar melhorias do prefeito ou do secretário
de Educação. Basta levar uma tabela e mostrar:
"Vocês estão aqui. Onde prometem estar em dois
anos?". Ou então ir diretamente às escolas,
para fazer o mesmo pacto com as diretoras, visando a melhorias
nas pontuações. Em ambos os casos, ganhos serão
recompensados (prêmios, computadores, medalhas, diplomas?)
e retrocessos criarão constrangimentos. A segunda alternativa
é entrar na lógica da escola e substituir os
mecanismos perversos por outros virtuosos. Que empresário
já visitou alguma escola pública de sua vizinhança?
Quantos sabem como as pessoas se sentirão valorizadas
com sua visita? Mas, durante a visita, muito do errado feito
pela administração será desvendado. Por
que não almoçar todo mês com o secretário
de Educação ou com o prefeito, para falar de
educação? Sem arrogância nem agressão,
ele vai deixar claro para o prefeito que as decisões
que apenas produziram ganhos podem passar a ter perdas, pois
empresários (e o terceiro setor) falam alto e têm
poder. Faz pouco, um empresário recebeu vários
pedidos do prefeito. Com toda a amabilidade, ele prometeu
tudo o que foi pedido. Apenas disse que antes da aprovação
definitiva gostaria de conversar mais sobre educação.
Esse prefeito vai pensar duas vezes antes de nomear outro
imbecil, como moeda de troca da política. E vai ficar
ainda mais preocupado se o empresário mandar seu contador
verificar como estão sendo gastos os orçamentos
da educação.
O empresário
deverá transmitir aos políticos locais três
mensagens: 1) A única prioridade é melhorar
a qualidade da educação inicial; 2) Escola é
como empresa; se não buscar a eficiência com
método e competência, ela não virá;
3) A política deverá ser banida da escola, pois
é inaceitável. Se os empresários repetirem
isso e cobrarem resultados com energia, farão uma revolução
na educação dos seus municípios
e a custo praticamente zero.