Pedro Simone JeffersonPéres
estão sempre dolado dadecência.
Eta políticosdiferentes
Os estilos são
opostos. Um é contido, ascético. Nunca ri. O
outro é expansivo, no verbo e nos gestos. O primeiro
é até enfadonho, na fisionomia impassível
e no discurso monocórdio. O outro faz discursos que
parecem performances de artista. Os dois são senadores:
Jefferson Péres e Pedro Simon. Na política brasileira,
do que mais se fala é de pessoas com reputação
dúbia e intenções suspeitas. São
os personagens predominantes, que se vai fazer? Abramos uma
exceção, por uma vez, para falar de homens bons.
Jefferson Péres e Pedro Simon, opostos até na
geografia um é do Amazonas, o outro do Rio Grande
do Sul , compartilham a condição de representar,
no problemático panorama da política brasileira,
as mais destacadas personificações de homens
corretos.
A imagem do Senado,
nestas últimas semanas, congelou no espetáculo
de degradação encenado na comissão perfidamente
chamada "de Ética". Muitas foram as crises do Legislativo
brasileiro, mas poucas com a característica tão
marcante de levar junto a própria instituição.
Ao caso do senador Renan Calheiros, suas contas mal explicadas,
seus bois, o recurso ao amigo lobista para acertar as contas
com a parceira com quem teve uma filha, somava-se o cerrado
cordão protetor formado pelos Romero Jucá, pelos
Epitácio Cafeteira, pelas Ideli Salvatti e isso
era "o" Senado. Seguindo o modelo-padrão dos escândalos
políticos, desde o Watergate dos americanos, logo o
acobertamento tomava mais vulto do que o fato que lhe deu
origem. O acobertamento tendia a virar crime maior do que
a denúncia primitiva. E o acobertamento, uma ampla
e complexa operação em que se acumpliciavam
dirigentes da Casa, líderes partidários e outros
notáveis, era "o Senado". A crise se transferia da
figura de Renan Calheiros para a instituição.
É nesse momento que se olha para o lado e epa
se percebe que Jefferson Péres e Pedro Simon
estão em outra.
Desde o primeiro
momento, eles estiveram em outra. Os dois, desde a denúncia,
nesta revista, de que um lobista de empreiteira pagava contas
pessoais de Renan Calheiros, defenderam que era preciso investigar.
É uma coisa de palmar simplicidade. Há uma denúncia,
claro que se tem de investigar. Mas ser a favor de investigar
converte-se em algo excepcional quando se percebe que, ao
redor, há uma esmagadora pressão para não
investigar. No mesmo momento zero da atual crise, tanto Jefferson
Péres quanto Simon defenderam que Renan devia deixar
a presidência do Senado enquanto se investigava. Outros
senadores, poucos, adotaram depois a mesma posição.
Há outros homens bons no Senado. Mas a primazia foi
de Péres e Simon. E nem se esperava outra coisa deles.
Eles têm uma linha e a seguem. Foi assim neste como
em todos os casos anteriores. Eta homens diferentes.
Pena que Jefferson
Péres esteja em marcha batida para a desilusão.
No meio da crise do mensalão, anunciou que não
vê como a política brasileira possa tomar jeito,
e que por isso encerrará a carreira em 2010, quando
termina seu mandato. Simon é capaz de descrever sua
condição solitária com bom humor. Numa
entrevista a Carlos Marchi, do Estado de S. Paulo,
na semana passada, contou que não é mais indicado
para o Conselho de Ética desde que o senador Ney Suassuna
virou líder do PMDB, na legislatura passada. "Eu aceitei
com humildade, porque o Suassuna, com seu espírito
de modernidade, achou que estou superado, com meus 75 anos.
Eu defendo umas teses que não são muito atuais
ética, moral, essas coisas. Para o Suassuna,
isso é coisa superada." Suassuna, lembre-se, viria
a ser tragado no escândalo chamado "dos sanguessugas".
Os sanguessugas
do penúltimo escândalo safaram-se. Sobrou o sangue.
A moda agora é falar em sangue, nas crises políticas:
"Renan sangra", repetia-se. "O Senado sangra", acrescentava-se.
Renan falou em vísceras. "Estou com as vísceras
à mostra", disse, insistindo no truque malandro de
pintar como invasão da vida pessoal uma denúncia
que diz respeito à sua atuação pública.
Já que é para recorrer a termos médicos...
O médico
Aloysio Campos da Paz, idealizador e cirurgião-chefe
da Rede Sarah de Hospitais, referência internacional
na reabilitação de pacientes com problemas de
locomoção, escreveu na semana passada um texto
em que resumia assim sua filosofia de trabalho: "Existe uma
dicotomia que contribui perversamente para impedir a reabilitação
de pessoas que apresentam alguma forma de incapacidade: os
médicos julgam os doentes a partir do que a doença
lhes fez perder; do que deixou de existir. A verdadeira reabilitação
avalia o doente pelo que lhe restou, pelo seu potencial, por
onde há espaço para investir". No caso desse
organismo doente que é o Senado, Péres e Simon
representam o que restou de intacto. Neles, ainda ressoa com
o antigo e respeitável significado a palavra "senador".
Talvez o exemplo que oferecem ainda sirva para iluminar um
caminho para a atividade parlamentar. Ou talvez não.
Talvez seja excesso de otimismo. Nesse caso, fica o registro
de suas atuações, e a homenagem.