Com a série
chegando à reta final, não é exagero
dizer que
a televisão se divide em antes e depois de Família
Soprano
Isabela Boscov
Divulgação
Gandolfini e seus companheiros
de crime e angústia: uma "família" que,
em oito anos no ar, redefiniu a arte de escrever uma série
Na
primeira temporada de Família Soprano, o gângster
Tony Soprano (James Gandolfini), recém-alçado
ao posto de capo da máfia de Nova Jersey, sofria
um ataque de pânico depois que uma mansa família
de patos que se instalara em sua piscina ia embora no fim
do outono. Mansidão, afinal, nunca foi o forte do clã
Soprano: ainda na temporada inicial, Tony sobreviveu a um
atentado orquestrado pela própria mãe e por
seu tio; no decorrer dos oito anos em que a série esteve
no ar, matou primos, genros em potencial e parceiros "de negócios"
mais íntimos que irmãos; entrou em disputas
de vida e morte com sua irmã, Janice (Aida Turturro);
esfolou a mulher do chefe da "família" do Brooklyn,
quando este foi preso e precisou vender sua mansão;
e travou uma guerra suja e amarga com a própria mulher,
Carmela (Edie Falco), quando ela tentou se divorciar dele.
Com tudo o que a série tem de violento (e quem assistiu,
por exemplo, ao episódio em que o personagem de Joe
Pantoliano matou a chutes uma namorada grávida ainda
há de ter lembranças vívidas dele), é
nesses instantes que Família Soprano é
decididamente assustadora: na força caótica
e implosiva dos seus momentos de intimidade. No episódio
inaugural desta derradeira temporada, que começa a
ser exibida no domingo 1º de julho pela HBO, Tony e Carmela
visitam Janice e seu marido, Bobby (Steven R. Schirripa),
em sua casa de campo. Desde a chegada sente-se que, sob a
superfície do bate-papo, fluem correntes de tensão
e rancor. Quando o fim de semana progride para uma partida
de banco imobiliário, o espectador se dá conta
de que o coração está acelerado: nessa
toada, é improvável que todos os quatro personagens
cheguem vivos ao final do jogo e a morte, seja de quem
for, há de ser feia.
Eis, então,
por que a teledramaturgia se divide muito claramente em antes
e depois de Família Soprano: até sua
estréia, em 1999, a idéia de que uma ficção
criada para o ritmo volúvel da tela pequena pudesse
conter tanto drama quanto uma peça de Shakespeare era
mera teoria. Família Soprano, porém,
a demonstrou de forma empírica, até o último
termo possível. E, agora que chegou ao final (seu criador,
David Chase, diz ter atingido o esgotamento e garante que
nunca haverá um A Volta dos Sopranos), vê-se
que a revolução que o programa operou na televisão
é tão profunda que se voltou em parte contra
ele mesmo. Como encerrar com estrondo uma série em
que as apostas sempre andaram no limite? Com várias
mortes, certamente, e poucas delas de causas naturais. Com
muito ressentimento e angústia também, já
que, por mais que Tony freqüente o consultório
da psiquiatra Jennifer Melfi (Lorraine Bracco), não
existe conciliação possível para o que
ele tenta acreditar ser um "empresário"
e o que ele realmente é, um homem que vive de violência
e corrupção e as leva para dentro de casa todos
os dias. Mas não com alguma reviravolta programada
especificamente para causar impacto.
Há
duas razões para isso. A primeira é que, depois
de explorar tão a fundo as vicissitudes dos Sopranos,
não restam a Chase muitos passes de mágica.
A segunda e principal é que, embora não falte
poder de choque à série, não é
ele o seu cerne. Seu centro é, na verdade, a paralisia
emocional dos protagonistas, que partilham as aspirações
e aflições mais comuns da classe média
americana. Pagar a faculdade dos filhos, não ser passado
para trás no trabalho, achar uma solução
para um casamento em que marido e mulher às vezes se
odeiam, assumir a homossexualidade num ambiente profissional
machista: essas são as coisas que preocupam os personagens
nascidos da imaginação formidável de
Chase, e não os velhos códigos de honra trazidos
da Itália. Matar, roubar, enganar e corromper seria
assim apenas o ofício no qual Tony e seus companheiros
foram treinados e, ao desempenhá-lo, eles estariam
tão-somente esticando os limites daquilo que já
é aceitável, hoje, na ética corporativa.
Essa perspectiva não é um mero artifício
narrativo, ou um pretexto para mostrar explicitamente coisas
que até aí eram tabu na televisão. É
uma visão de mundo, meticulosamente construída
em 86 episódios que equivalem a um filme de 72 horas
de duração um filme bem mais brilhante,
de ponta a ponta, do que qualquer coisa que Hollywood tenha
produzido no período.
Essa é a
razão pela qual não se deve medir o final de
Família Soprano por um critério tão
simplista quanto o impacto. O desfecho, já exibido
nos Estados Unidos, provocou uma enxurrada de artigos na grande
imprensa americana, como se se tratasse da cobertura de uma
das débâcles presidenciais e com
o mesmo tom de partidarismo habitualmente dedicado a elas.
Muitas pontas ficaram soltas, reclamaram os críticos;
mostrar que elas nunca poderiam ser amarradas e que esses
personagens não têm solução era
justamente o propósito da série, argumentam
seus defensores. Ambos os lados, porém, concordam que
Família Soprano mudou a televisão
para muito melhor ao sacudi-la com seu choque de realidade.
Hoje, na TV aberta americana, não há em cena
um herói que não seja em boa medida também
um anti-herói, do agente federal Jack Bauer de 24
Horas às mulheres de Desperate Housewives.
Na TV a cabo, onde não existem limites para o que é
permissível, essa influência é ainda mais
nítida. Nela, o sucesso de Família Soprano
abriu terreno para outras criações comparáveis
na excelência e no radicalismo. Deadwood e The
Wire, por exemplo, também trazem protagonistas
que, como Tony Soprano, vivem por meios repulsivos, mas suscitam
a identificação do espectador com sua fragilidade,
sua insegurança e seu medo. Em Battlestar Galactica,
vagamente baseada numa série homônima (e ruim)
dos anos 70, os 50.000 sobreviventes de um ataque que dizimou
o restante da humanidade vagam pelo espaço, tentando
recompor a civilização e repetindo os
erros desta, como se eles fossem um destino inexorável.
Para onde se olhe hoje na televisão, enfim, lá
estão as digitais de Tony Soprano. Assim como a sua
angústia trágica de Hamlet do subúrbio.