BUSCA

Busca avançada      
FALE CONOSCO
Escreva para VEJA
Para anunciar
Abril SAC
ACESSO LIVRE
Conheça as seções e áreas de VEJA.com
com acesso liberado
REVISTAS
VEJA
Edição 2014

27 de junho de 2007
ver capa
NESTA EDIÇÃO
Índice
COLUNAS
Millôr
Claudio de Moura Castro
André Petry
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
SEÇÕES
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
VEJA.com
Holofote
Contexto
Radar
Veja essa
Gente
Datas
Auto-retrato
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
Publicidade
 

Televisão
Shakespeare em Nova Jersey

Com a série chegando à reta final, não é exagero dizer que
a televisão se divide em antes e depois de Família Soprano


Isabela Boscov

 
Divulgação
Gandolfini e seus companheiros de crime e angústia: uma "família" que, em oito anos no ar, redefiniu a arte de escrever uma série

Na primeira temporada de Família Soprano, o gângster Tony Soprano (James Gandolfini), recém-alçado ao posto de capo da máfia de Nova Jersey, sofria um ataque de pânico depois que uma mansa família de patos que se instalara em sua piscina ia embora no fim do outono. Mansidão, afinal, nunca foi o forte do clã Soprano: ainda na temporada inicial, Tony sobreviveu a um atentado orquestrado pela própria mãe e por seu tio; no decorrer dos oito anos em que a série esteve no ar, matou primos, genros em potencial e parceiros "de negócios" mais íntimos que irmãos; entrou em disputas de vida e morte com sua irmã, Janice (Aida Turturro); esfolou a mulher do chefe da "família" do Brooklyn, quando este foi preso e precisou vender sua mansão; e travou uma guerra suja e amarga com a própria mulher, Carmela (Edie Falco), quando ela tentou se divorciar dele. Com tudo o que a série tem de violento (e quem assistiu, por exemplo, ao episódio em que o personagem de Joe Pantoliano matou a chutes uma namorada grávida ainda há de ter lembranças vívidas dele), é nesses instantes que Família Soprano é decididamente assustadora: na força caótica e implosiva dos seus momentos de intimidade. No episódio inaugural desta derradeira temporada, que começa a ser exibida no domingo 1º de julho pela HBO, Tony e Carmela visitam Janice e seu marido, Bobby (Steven R. Schirripa), em sua casa de campo. Desde a chegada sente-se que, sob a superfície do bate-papo, fluem correntes de tensão e rancor. Quando o fim de semana progride para uma partida de banco imobiliário, o espectador se dá conta de que o coração está acelerado: nessa toada, é improvável que todos os quatro personagens cheguem vivos ao final do jogo – e a morte, seja de quem for, há de ser feia.

Eis, então, por que a teledramaturgia se divide muito claramente em antes e depois de Família Soprano: até sua estréia, em 1999, a idéia de que uma ficção criada para o ritmo volúvel da tela pequena pudesse conter tanto drama quanto uma peça de Shakespeare era mera teoria. Família Soprano, porém, a demonstrou de forma empírica, até o último termo possível. E, agora que chegou ao final (seu criador, David Chase, diz ter atingido o esgotamento e garante que nunca haverá um A Volta dos Sopranos), vê-se que a revolução que o programa operou na televisão é tão profunda que se voltou em parte contra ele mesmo. Como encerrar com estrondo uma série em que as apostas sempre andaram no limite? Com várias mortes, certamente, e poucas delas de causas naturais. Com muito ressentimento e angústia também, já que, por mais que Tony freqüente o consultório da psiquiatra Jennifer Melfi (Lorraine Bracco), não existe conciliação possível para o que ele tenta acreditar ser – um "empresário" – e o que ele realmente é, um homem que vive de violência e corrupção e as leva para dentro de casa todos os dias. Mas não com alguma reviravolta programada especificamente para causar impacto.

Há duas razões para isso. A primeira é que, depois de explorar tão a fundo as vicissitudes dos Sopranos, não restam a Chase muitos passes de mágica. A segunda e principal é que, embora não falte poder de choque à série, não é ele o seu cerne. Seu centro é, na verdade, a paralisia emocional dos protagonistas, que partilham as aspirações e aflições mais comuns da classe média americana. Pagar a faculdade dos filhos, não ser passado para trás no trabalho, achar uma solução para um casamento em que marido e mulher às vezes se odeiam, assumir a homossexualidade num ambiente profissional machista: essas são as coisas que preocupam os personagens nascidos da imaginação formidável de Chase, e não os velhos códigos de honra trazidos da Itália. Matar, roubar, enganar e corromper seria assim apenas o ofício no qual Tony e seus companheiros foram treinados – e, ao desempenhá-lo, eles estariam tão-somente esticando os limites daquilo que já é aceitável, hoje, na ética corporativa. Essa perspectiva não é um mero artifício narrativo, ou um pretexto para mostrar explicitamente coisas que até aí eram tabu na televisão. É uma visão de mundo, meticulosamente construída em 86 episódios que equivalem a um filme de 72 horas de duração – um filme bem mais brilhante, de ponta a ponta, do que qualquer coisa que Hollywood tenha produzido no período.

Essa é a razão pela qual não se deve medir o final de Família Soprano por um critério tão simplista quanto o impacto. O desfecho, já exibido nos Estados Unidos, provocou uma enxurrada de artigos na grande imprensa americana, como se se tratasse da cobertura de uma das débâcles presidenciais – e com o mesmo tom de partidarismo habitualmente dedicado a elas. Muitas pontas ficaram soltas, reclamaram os críticos; mostrar que elas nunca poderiam ser amarradas e que esses personagens não têm solução era justamente o propósito da série, argumentam seus defensores. Ambos os lados, porém, concordam que Família Soprano mudou a televisão – para muito melhor – ao sacudi-la com seu choque de realidade. Hoje, na TV aberta americana, não há em cena um herói que não seja em boa medida também um anti-herói, do agente federal Jack Bauer de 24 Horas às mulheres de Desperate Housewives. Na TV a cabo, onde não existem limites para o que é permissível, essa influência é ainda mais nítida. Nela, o sucesso de Família Soprano abriu terreno para outras criações comparáveis na excelência e no radicalismo. Deadwood e The Wire, por exemplo, também trazem protagonistas que, como Tony Soprano, vivem por meios repulsivos, mas suscitam a identificação do espectador com sua fragilidade, sua insegurança e seu medo. Em Battlestar Galactica, vagamente baseada numa série homônima (e ruim) dos anos 70, os 50.000 sobreviventes de um ataque que dizimou o restante da humanidade vagam pelo espaço, tentando recompor a civilização – e repetindo os erros desta, como se eles fossem um destino inexorável. Para onde se olhe hoje na televisão, enfim, lá estão as digitais de Tony Soprano. Assim como a sua angústia trágica de Hamlet do subúrbio.

  VEJA | Veja São Paulo | Veja Rio | Expediente | Fale conosco | Anuncie | Newsletter |