Há um ano sem
Bussunda, o Casseta & Planeta
continua sendo a bússola da sátira política
na TV
Marcelo Marthe
Fotos André Valentim,
Divulgação
A turma do Casseta: o
senador Renan Calheiros virou a "escada" da vez dos humoristas
O escândalo
da pensão suspeita que envolve o senador Renan Calheiros
deixou os brasileiros indignados mas fez bem ao Casseta
& Planeta Urgente. Como em todas as crises políticas,
o programa da Rede Globo cresceu com o episódio. Na
terça-feira passada, os humoristas caçoaram
sem dó da defesa precária apresentada por Calheiros.
Num dos esquetes, um açougueiro da fictícia
"Jabaculópolis do Norte" (em Alagoas, naturalmente)
explicou por que o gado de "um certo senador" tem valor acima
do de mercado: em seu rebanho figura até "boi-celebridade".
"Um deles namorou a Luana Piovani", garantiu o personagem
de Cláudio Manoel. Em seguida, exibiu uma pilha de
documentos guardados numa geladeira notas frias, esclareceu.
Ao longo da atração, houve outras alusões
aos escândalos recentes como a propaganda da
"Tabajara & Turismo" sobre as maravilhas "corruptológicas"
dos estados de "Mamataranhão" e "Aladroas". Um ano
depois de sofrer o baque da morte de Bussunda, seu integrante
mais popular, o grupo continua a ser a bússola da sátira
política na TV. O Pânico, da RedeTV!,
vive de fazer troça das celebridades. Zorra Total
e A Praça É Nossa, respectivamente
da Globo e do SBT, investem naquele humor emburrecedor que
está aí desde sempre. Só mesmo o Casseta
& Planeta se devota a criticar os desmandos dos políticos
de forma sistemática. Dos 140 esquetes exibidos desde
abril, 42% abordavam o tema. O segundo item mais freqüente
foram as paródias a outros programas de televisão
como a versão das gêmeas da novela das
8 protagonizada por Maria Paula. Mas elas representaram menos
da metade disso.
De um documentário
sobre a vida do cantor Wilson Simonal que está sendo
filmado por Cláudio Manoel (mais conhecido por "Seu
Creysson") a uma série para a TV paga escrita por Hélio
de La Peña, quase todos os cassetas resolveram dedicar
mais tempo a projetos-solo depois da morte de Bussunda. E
o mais promissor deles é outra empreitada de sátira
política. Trata-se de um filme sobre Agamenon Mendes
Pedreira, personagem que há quase vinte anos dá
mote a uma coluna de Marcelo Madureira e Hubert no diário
carioca O Globo. O jornalista fictício é
um escroque que fala de políticos e outras celebridades
que supostamente conheceu de forma curta e grossa (confira
uma "entrevista" na página ao lado). O filme, a
ser lançado no ano que vem, consistirá num documentário
de mentirinha em que suas aventuras serão narradas
com base em imagens de época.
Maria Paula, como "Picaretaís":
essa, sim, é uma gêmea má de expressão
A morte de Bussunda
foi, claro, uma tragédia para seus companheiros. Só
que os humoristas fizeram do limão uma limonada. Fecharam
2006 com uma média de ibope recorde em seus quinze
anos na Globo, de 37 pontos. Graças a negócios
recém-desbravados como a venda de piadas para celulares,
sua empresa, a Toviassu Produções, também
atingiu seu maior faturamento no ano passado, de 3 milhões
de reais. Recentemente, eles renovaram o contrato com a Globo
até 2013 (o salário de cada um dos seis está
na faixa dos 40.000 reais). Embora na atual temporada venham
ostentando uma audiência 6 pontos inferior à
de 2006, os humoristas mantêm seu cacife. Isso porque
eles já demonstraram mais de uma vez ter capacidade
para reinventar seu humor e, faça chuva ou faça
sol, mantêm uma ligação firme com os espectadores
de maior escolaridade e renda. O antídoto encontrado
para reverter a perda de Bussunda em favor do programa foi
justamente investir numa renovação geral dos
quadros e personagens.
O que não
alterou, no entanto, um dado essencial: o desempenho dos cassetas
varia conforme a temperatura do noticiário. Uma crise
política é sempre bem-vinda ainda que,
nos últimos tempos, eles venham tendo de lidar com
uma contingência nova. "Do mensalão à
Operação Navalha, a velocidade dos escândalos
ficou tão vertiginosa que temos de nos policiar para
não falar só de política", diz Marcelo
Madureira. "As pessoas estão tão irritadas que
acham chato quando se bate muito nessa tecla."
"POLÍTICO
NO BRASIL ARROBA MUITO"
Agamenon: sempre atrás
de um "furo"
O personagem
Agamenon Mendes Pedreira dá mote à coluna
que os humoristas Marcelo Madureira e Hubert mantêm
em O Globo há quase vinte anos. Nesta
entrevista, o jornalista fala de sua cinebiografia,
política e outras aventuras
ESTÁ
EM PRODUÇÃO UM DOCUMENTÁRIO SOBRE
SEU TEMPO E SUAS AVENTURAS. COMO O SENHOR DESCREVE ESSE
SÉCULO QUE ATRAVESSOU JUNTO DE TANTAS PERSONALIDADES,
EM SUA BUSCA INCANSÁVEL DA VERDADE? Sou o
Oscar Niemeyer da imprensa brasileira, só que
impotente. Nenhum jornalista brasileiro cobriu tantas
guerras, Copas do Mundo e mulheres como eu. Estou sempre
atrás de um furo. No bom sentido, é claro,
de fora pra dentro.
QUAL SEU
VERDADEIRO ENVOLVIMENTO COM MULHERES COMO MARILYN MONROE
E MADRE TERESA DE CALCUTÁ? ALIÁS, O QUE
SUA PATROA, DONA ISAURA, PENSA DISSO? Se Isaura
pensasse, não teria casado comigo. O meu envolvimento
com essas criaturas chupacitadas, quer dizer, supracitadas
não passa de mais uma tentativa da imprensa reacionária
de direita de denegrir a minha imagem de jornalista
escroque e mau-caráter.
COMO FORAM
SUAS RELAÇÕES COM OS PRESIDENTES BRASILEIROS?
Eu sempre privei da intimidade dos presidentes do Brasil.
Todos, sem exceção, faziam questão
de me receber pessoalmente no Palácio da Alvorada.
De quatro às 5.
COMO O
SENHOR AVALIA AS ACUSAÇÕES DE QUE O LOBISTA
DE UMA EMPREITEIRA PAGAVA A PENSÃO DA FILHA DO
SENADOR RENAN CALHEIROS COM UMA JORNALISTA? Para
resolver esse caso, o senador teria de ir no Programa
do Ratinho e mostrar o seu exame de DNA. O que me
impressiona mesmo é o preço da arroba
do boi do senador. Político no Brasil arroba
muito!
QUAL A
SUA OPINIÃO SOBRE A PROFISSÃO DE JORNALISTA?
Os jornalistas são os olhos, os ouvidos, a boca
e outros orifícios da Sociedade.