Quando
o astrônomo e matemático francês Pierre-Simon
de Laplace apresentou seu Tratado de Mecânica Celeste
a Napoleão Bonaparte, o imperador estranhou uma
ausência naquela laboriosa aplicação da
física de Isaac Newton ao movimento de planetas e estrelas.
Por que, quis saber Napoleão, Laplace não mencionava
Deus? "Eu não precisei dessa hipótese", foi
a resposta do astrônomo. Deus saía de cena na
ordem celeste e mais ou menos sessenta anos depois,
com a publicação de A Origem das Espécies,
de Charles Darwin, em 1859, a hipótese divina também
era dispensada para explicar a vida sobre a Terra. Deus não
cedeu espaço na moral, na cultura, na sociedade, nem
mesmo na política. Mas a ambição de expulsá-lo
de vez e, com Ele, padres, pastores, imãs, rabinos
de todos os recessos da existência vem ganhando
expressão em vários livros recentes. O proselitismo
ateu anda forte nas livrarias, com um elenco preeminente e
variado de autores abrindo fogo contra os fiéis: o
biólogo inglês Richard Dawkins, o filósofo
americano Daniel Dennett, o jornalista inglês Christopher
Hitchens e o filósofo francês Michel Onfray.
Os livros de Hitchens e Dawkins vêm freqüentando
listas de mais vendidos nos Estados Unidos, e Onfray vendeu
200.000 exemplares de seu Tratado de Ateologia (tradução
de Monica Stahel; Martins Fontes; 214 páginas; 39,80
reais) na França. Será incorreto imaginar que
há uma onda de descrença varrendo o mundo. Esses
livros são sobretudo uma reação
às vezes exagerada, alarmista até a um
certo recrudescimento da religião, em suas versões
mais fanáticas, no mundo pós-11 de Setembro.
O caráter
reativo dessas obras se revela no tom. Distintas na forma
e nos pressupostos, todas têm uma tendência um
tanto infantil à provocação. Em uma resenha
do livro Quebrando o Encanto (tradução
de Helena Londres; Globo; 456 páginas; 39 reais), de
Daniel Dennett, publicada no The Washington Post, o
teólogo Jack Miles, autor de Deus, uma Biografia,
observou que às vezes o filósofo darwinista
parece estar puxando os crentes para a briga, como quem diz
"vamos acertar isso lá fora". E o livro de Dennett
é o menos exaltado chega até a propor
o diálogo com os religiosos moderados. Amigo de Dennett,
Richard Dawkins mostra-se mais virulento já no título,
The God Delusion (Deus, um Delírio, a ser lançado
no Brasil em agosto, pela Companhia das Letras). Radical,
ele não aceita nenhuma divisão de terreno, na
linha "a ciência trata do mundo físico, e a religião,
do espiritual". Argumenta que a religião nunca se contenta
nos limites do mundo espiritual. Todas as igrejas fazem afirmações
sobre o universo físico, postulando a existência
de milagres e intervenções divinas (quando foi
baleado em um atentado, o papa João Paulo II afirmou
que a mão de Nossa Senhora de Fátima o salvou.
Dawkins prefere dar crédito ao time de cirurgiões
que operou o sumo pontífice). Christopher Hitchens,
em God Is Not Great (Deus Não É Grande,
a sair em outubro, pela Ediouro), leva um argumento semelhante
ao campo político: seria ilusório imaginar que
a pregação de padres, rabinos e imãs
só se estende aos fiéis, que não interfere
em nada no dia-a-dia das sociedades seculares. As religiões
estão sempre tentando influenciar políticas
públicas, especialmente quando questões morais
e sexuais estão em jogo. Aliás, Hitchens, com
sua peculiar ironia, se refestela ao tratar da obsessão
religiosa por pureza sexual: "Os lunáticos homicidas
do 11 de setembro foram talvez tentados pelas virgens do Paraíso
islâmico, mas o mais revoltante é que, como muitos
de seus camaradas de jihad, eles mesmos eram virgens".
A questão
fundamental levantada pelo ateísmo, porém, está
além dos embates entre cientistas e sacerdotes ou da
tensão entre a Igreja e a sociedade laica. É
um território minado da filosofia: a existência
de Deus não pode ser comprovada, mas tampouco há
como negá-la. O filósofo americano Richard Rorty
(morto no início de junho), em um ensaio de O Futuro
da Religião (Relume-Dumará) livro
em co-autoria com o italiano Gianni Vattimo , chega
a dizer que essa é uma "questão ruim": não
pode ser decidida e, portanto, deve ser abandonada. Rorty
preferia declarar-se anticlerical, e não ateu, pois
"o anticlericalismo é uma perspectiva política,
e não epistemológica ou metafísica".
Dawkins arrisca-se nessa área de indecisões:
sim, ele admite, é impossível negar Deus, mas
nem por isso ateísmo e teísmo são hipóteses
equivalentes. A evolução parte de elementos
simples para chegar a formas complexas como o olho ou o cérebro
humano. A hipótese teísta seria uma inversão
dessa lógica: coloca uma inteligência complexa
como origem de todo o universo. Não se trata, portanto,
de dizer que Deus não existe: ele seria apenas muito,
muito improvável.
Darwin é
a referência fundamental de Dawkins, e Dennett também
recorre ao filósofo escocês David Hume. Hitchens
às vezes cita O Futuro de uma Ilusão,
a crítica de Sigmund Freud às religiões.
Friedrich Nietzsche, o alemão que se propôs a
derrubar a moral judaico-cristã com seu martelo filosófico,
só aparece marginalmente nesses autores mas
é fundamental para Michel Onfray. O francês contesta
o famoso slogan de Assim Falou Zaratustra, "Deus está
morto". "Não se mata uma ficção", diz
Onfray. Mas Onfray reconhece em Nietzsche a fundação
para "uma outra moral, uma nova ética, valores inéditos".
Ao contrário dos outros livros, Tratado de Ateologia
traz um antiquado ardor utópico, ainda que de contornos
vagos. A crítica ao islamismo é um ponto forte
e polêmico do livro. "O Corão não
permite a religião à la carte", diz Onfray.
Ou seja, o muçulmano não pode fazer como os
cristãos e judeus modernos, que tendem a escolher os
preceitos que vão ou não seguir nos textos sagrados.
O Islã seria "estruturalmente arcaico" e totalitário.
Onfray recupera
figuras obscuras da história das idéias, como
Jean Meslier (1644-1729), um abade que rompeu com a Igreja
para escrever panfletos anti-religiosos que estariam entre
as primeiras obras de franco ateísmo da história.
A palavra "ateu" sempre foi usada para caracterizar heresias
ou crenças desviantes. A negação efetiva
de Deus, porém, era uma impossibilidade teórica
no mundo imerso em religião anterior ao Iluminismo.
A historiadora da religião Karen Armstrong diz que
ateus de fato só começam a surgir no fim do
século XVIII. Não é de estranhar que
o recente ensaísmo de propaganda atéia busque
uma certa coloração heróica: o ateu,
afinal, é uma criatura relativamente recente sobre
a face da Terra, e como tal ainda tem de se afirmar.
Dawkins, Onfray
e Hitchens deixam a sugestão temerária de que
o mundo seria melhor sem religião. Eis outra hipótese
que simplesmente não pode ser testada. O que se pode
afirmar, porém, é que a crença em Deus
não é necessária para uma vida correta.
A moral não é, como Nietzsche sugeria, uma impostura
do cristianismo: o senso do certo e do errado, do justo e
do injusto, transcende as religiões e, em certa medida,
está impresso na natureza humana. Dennett observa que
mesmo um ateu pode e deve cultivar valores sagrados, como
a verdade, o amor, a democracia. E uma vida sem Deus tampouco
precisa ser vazia de sentido, como bem demonstrou o filósofo
galês Bertrand Russell: "Eu acredito que, quando eu
morrer, irei apodrecer, e nada do meu ego sobreviverá.
Mas me recuso a tremer de terror diante da minha aniquilação.
A felicidade não é menos felicidade porque deve
chegar a um fim, nem o pensamento e o amor perdem seu valor
porque não são eternos".
"A Santíssima
Trindade é acompanhada pela Virgem Maria, uma
deusa de fato, embora não seja chamada assim.
O panteão católico é inflado ainda
pelos santos, que, se não são semideuses,
têm poderes de intercessão em áreas
especializadas que incluem dores abdominais, anorexia,
desordens intestinais. O que me impressiona na mitologia
católica é não só a sua
qualidade kitsch, mas também a falta de vergonha
com que essa gente fabrica as coisas no andar da carruagem.
É tudo despudoradamente inventado."
Richard Dawkins, biólogo inglês,
em The God Delusion
"Cerca de 150 versículos
do Corão justificam e legitimam a guerra santa,
o jihad. É o suficiente para fazer naufragar
as duas ou três frases muito inofensivas que exortam
à tolerância ou à recusa da coação
em matéria de religião (!). Em tal oceano
de sangue, quem pode ainda se dar ao trabalho de se
deter nas duas ou três frases que exortam à
humanidade e não à barbárie?" Michel Onfray,filósofo francês,
em Tratado de Ateologia
Shannon Stapleton/Reuters
"Nem é preciso dizer que nenhum dos eventos
repulsivos e desordenados que o Êxodo narra aconteceu.
Não houve fuga do Egito, nem peregrinação
pelo deserto, e nem a conquista dramática da
Terra Prometida (...) os horrores e crueldades
e loucuras do Velho Testamento. E quem a não
ser por sacerdotes antigos que exercem o poder através
do método consagrado da imposição
do terror poderia desejar que esse novelo emaranhado
de fábulas seja verdadeiro?" Christopher Hitchens,jornalista americano,
em God Is Not Great