Acessório com
preço de carro assim a indústria
do luxo preserva o fascínio dos seus produtos
Suzana Villaverde
A Tribute, da Louis Vuitton:
42 000 dólares e esgotada
Qual é o
motivo de existir hoje à venda, numa loja no Brasil,
uma bolsa que custa 37.000 reais? A resposta é simples:
há quem compre. Não existe material requintado
ou qualidade de mão-de-obra que justifique o preço
mas existe algo mais valioso, o desejo de ter um objeto
tão caro e exclusivo que já foi criado um nicho
de mercado para aninhá-lo. Seu nome é hiperluxo,
e sua existência é fruto de uma contradição.
Ao sair dos ateliês exclusivos e das butiques escondidas
para as ruas e shopping centers das grandes cidades, movimento
que começou na última década do século
passado, a indústria do luxo criou uma solução
e um problema. Solução: o mercado se multiplicou
e o faturamento das empresas, num ramo tão suscetível
a oscilações, está sólido
uma pesquisa divulgada na semana passada mostra que as 36
principais marcas do setor venderam 200 bilhões de
dólares em 2006, 14% mais que no ano anterior. Problema:
o luxo mais acessível vai perdendo a aura de coisa
exclusiva, para poucos. Transforma-se numa espécie
de luxo de massa. A saída para as empresas que dependem
da imagem é criar linhas de produtos de grande impacto,
com preços em alturas inimagináveis. "Para preservar
o prestígio dos clientes mais importantes e diferenciá-los
dos outros compradores, foi criado o conceito do luxo vip,
um patamar tão elevado que só atinge uma porcentagem
mínima da população", diz o consultor
gaúcho André D'Angelo, autor do livro Precisar,
Não Precisa, que analisa as características
do consumo de bens de luxo no Brasil. "Para essa clientela,
não existe preço que não valha a pena."
E não existe
objeto capaz de separar uma mulher rica mais rapidamente de
seu dinheiro do que uma bolsa, acessório que ocupa
um lugar único na psique e no guarda-roupa femininos.
"Fico hipnotizada quando vejo uma boa bolsa na vitrine. Tenho
de entrar na loja e comprar", atesta a dermatologista carioca
Karla Assed, 37 anos (coleção de mais de oitenta
modelos de grife). Num mercado assim motivado, subir preços
acaba sendo garantia de venda. A bolsa que ilustra esta reportagem
é o modelo Tribute, da Louis Vuitton, bizarra colagem
de pedaços de quinze bolsas tradicionais da qual foram
produzidos 24 exemplares, a 42.000 dólares (80.000
reais!) cada um. Todos já foram vendidos. Nenhum veio
para o Brasil, mas quem ficar muito triste poderá se
consolar com o modelo da grife mais caro à venda nas
lojas daqui, o Rabat Tupelo, de couro claro com pedrarias
a tal bolsa de 37.000 reais. "A nossa cliente paga
caro pela exclusividade, pela segurança de ter uma
bolsa única em qualquer lugar do mundo", afirma Cicila
Street Barros, gerente de importados da loja de alto luxo
Daslu, onde uma bolsa Chanel bate em 10.360 reais, uma Lanvin,
em 12.530 reais e uma Valentino, em 14.520 reais.
Onde isso vai parar?
Se depender do marketing das grandes grifes e da disposição
das habitantes do Riquistão ("país" inventado
pelo jornalista americano Robert Frank, em livro do mesmo
nome, para alojar os estratos mais beneficiados pela atual
exuberância econômica), nada segura o hiperluxo.
"Estamos sempre de olho, para estender os limites", resume
Robert Chavez, presidente nos Estados Unidos da Hermès,
marca que lançou recentemente, em edição
limitadíssima, sua famosa bolsa Birkin de couro de
crocodilo cravejado de diamantes. Preço: 148.000 dólares
(285.000 reais).