Cuidar
de cada detalhe da imagem faz parte da rotina das pessoas
que vivem sob os holofotes. Antes de fechar um contrato publicitário,
escolher o que vestir numa festa ou dar uma entrevista, os
astros do cinema, da televisão, do entretenimento,
da política e dos negócios ouvem a opinião
de colaboradores. Entre eles se incluem relações-públicas,
consultores de estilo e coaches, conselheiros pessoais
e profissionais. Faz parte do trabalho dos famosos ter uma
imagem pública reluzente. A novidade é que parte
desses procedimentos está se tornando rotineira para
pessoas que antes se sentiam desobrigadas desses cuidados.
Aquele colega do escritório que fala sempre a palavra
certa nas reuniões com o chefe e se veste bem em qualquer
situação pode não ser apenas um sujeito
inteligente e de bom gosto. É grande a chance de que
ele esteja sob a orientação de profissionais.
Aqui e lá fora, especialistas em lapidar estampas passaram
a prestar o serviço a quem quer melhorar o marketing
pessoal, mesmo sem viver em função da fama.
"Querendo ou não, as pessoas julgam umas às
outras o tempo todo. Por isso, você precisa ser a sua
melhor criação", defende o inglês Stephen
Bayley, que acaba de lançar o livro Life's a Pitch...
(em tradução livre, algo como A Vida É
uma Autopromoção). Fundador do Design Museum
de Londres, consultor de empresas, como a Coca-Cola e a Ford,
ele ensina que as pessoas se beneficiam profissionalmente
quando aprendem a emitir de si mesmas um conjunto de sinais
cuja soma é traduzida pelos circundantes como uma "
imagem positiva".
Esse
cuidado é o mesmo que as empresas têm com seus
produtos e as celebridades com sua fama. É o desafio
de criar uma marca, no caso uma marca pessoal. Essa idéia
ganhou força primeiro nos Estados Unidos e na Inglaterra.
No Brasil, começa a se difundir. Não existe
uma fórmula simples para a construção
de uma marca própria, e é constante o perigo
de se parecer artificial ou falso como uma nota de 3 reais.
Portanto, quem decide polir e dar unidade à imagem
profissional que projeta precisa investir, submeter-se a avaliações
periódicas de um orientador e aceitar os sacrifícios
de eventuais mudanças de rumo na carreira e nos hábitos
da vida pessoal. Pelos bons resultados apresentados até
agora, a idéia é tratada com seriedade no mundo
corporativo. Depois de trabalhar para gigantes internacionais
como a IBM e a KPMG, o consultor americano William Arruda,
da Reach Communications, agora atende uma clientela individual.
"Esses processos não são feitos para criar uma
falsa imagem de alguém, algo sem substância",
explica Arruda. "Os profissionais aprendem a mostrar o que
têm de mais autêntico e, assim, a ressaltar aquilo
em que são melhores que os outros. Fala-se aqui de
ensinar as pessoas a usar melhor suas qualidades."
Lailson Santos
Fábio Morais: a descontração
deu lugar à sobriedade para levar a imagem de sua
empresaao exterior
A professora de psicologia social
Nalini Ambady, da Universidade Harvard, conduziu uma pesquisa
na qual estudantes avaliavam professores na sala de aula enquanto
outro grupo assistia aos vídeos de até 10 segundos
das mesmas aulas, mas sem som. Ao observarem o desempenho
dos mestres em quinze quesitos, os dois grupos deram notas
muito semelhantes. O estudo leva à conclusão
de que a imagem pessoal está quase tão ligada
à postura quanto ao conteúdo demonstrado pelo
profissional. "Fatores emocionais como confiança e
bom humor costumam pesar tanto ou mais do que as informações
objetivas sobre o currículo", diz Stephen Bayley.
Há apenas duas décadas,
tudo o que um candidato a uma vaga tinha para impressionar
eram um currículo bem-arrumado, roupas sóbrias
e os atributos que sempre estiveram em alta: talento, dinamismo
e ousadia. Não é mais apenas isso que conta.
É preciso ter artigos publicados, uma presença
marcante na internet e um estilo definido, como uma marca.
Outra mudança: permanecer muito tempo no emprego era
sinal de confiança devidamente recompensada
com décadas de estabilidade. Hoje, não importa
mais que o profissional não emplaque dois Carnavais
trabalhando na mesma empresa. "O que se busca é um
funcionário internacional. Desde cedo, ele precisa
ter repertório para interagir com outras culturas",
afirma o headhunter (recrutador de executivos) Antônio
Carlos Martins. Nem mesmo o guarda-roupa escapou das mudanças.
De alguns anos para cá, um funcionário que não
abre mão de ir trabalhar de terno pode ser visto, em
boa parte das empresas, como um sujeito antiquado.
Diretora jurídica da GRSA,
subsidiária do grupo Accor de hotelaria e restaurantes,
a advogada Marcia Cubas, 38 anos, decidiu apostar numa nova
imagem ao ser convidada a incorporar também as funções
de diretora de recursos humanos da empresa. Acostumada à
sobriedade dos tribunais, agravada pelo 1,80 metro de altura,
ela percebeu que precisava mudar para adequar seu perfil à
nova tarefa. Contratou uma equipe de fazer inveja até
mesmo a atrizes de novela das 8: coach, estilista pessoal
e aulas de comunicação verbal. Diz ela: "Não
sou perua. Queria passar uma imagem mais acessível".
Daniel Aratangy
Marcia Cubas: informalidade
à vista
O excesso de informalidade é
o pecado oposto e mais comum. Responsável pela captação
de clientes internacionais em um escritório de advocacia,
o paulistano Fábio Morais, 36 anos, viaja com freqüência
para países como China, Portugal e Moçambique.
"Eu me achava descontraído demais. Poderia perder a
credibilidade com os clientes", diz. Há quatro meses,
ele procurou a consultora de imagem Ilana Berenholc, com quem
passou a ter aulas para melhorar a postura, o gestual, o guarda-roupa
e seu desempenho em apresentações. "Muitas vezes,
o profissional tem excelente currículo, mas desconhece
certos protocolos e perde o controle da situação",
afirma Ilana, que cobra 250 reais por hora de trabalho.
Nas universidades americanas,
a criação de uma marca pessoal já é
ensinada até mesmo em cursos de graduação.
Por aqui, os alunos do mestrado do Coppead, a escola de negócios
da Universidade Federal do Rio de Janeiro, também começaram
um treinamento no qual passam por simulações
e avaliações entre si. "No Brasil, a expressão
marketing pessoal ainda é vista com certo receio. Mas
hoje é fundamental saber como usar o próprio
potencial", diz Eva Hirsch Pontes, organizadora do programa
do Coppead. Projetar-se como uma marca foi o que levou o empresário
paulistano Sergio Kamalakian, 24 anos, ao sucesso. Ele adotou
em sua grife, a Sergio K, seu jeito de vestir e o próprio
estilo de vida. Quando decidiu abrir a empresa, Kamalakian
contratou a consultora de imagem Ana Lúcia Zambon,
responsável por refletir o universo do empresário
na grife. "Eu não inventei o Sérgio. Só
dou mais seriedade ao trabalho dele, que ainda é muito
jovem", diz Ana Lúcia.
Lailson Santos
Kamalakian: sucesso com a grife
masculina feita à sua semelhança
A idéia por trás
da marca pessoal é valorizar o que cada um tem de melhor.
Mas, ainda que seja possível produzir uma imagem positiva
de qualquer pessoa, há uma regra universal: o conteúdo
e a qualificação profissional são indispensáveis.
"Um ator que encarna Hamlet perfeitamente é admirável,
mas sabemos que o texto de Shakespeare foi fundamental para
sua boa atuação", afirma o inglês Stephen
Bayley, sobre a importância do conteúdo. Cuidar
da marca pessoal tornou-se um aspecto a mais na imensa lista
de qualificações que habilitam alguém
a perseguir uma carreira vitoriosa. Como dizem os gurus do
ramo, "a pior coisa que pode acontecer a um mau produto é
uma boa propaganda".
Sua marca
pessoal é forte?
Um teste preparado
pelo consultor de imagem americano
William Arruda, da Reach Communications, para descobrir
se você está cuidando de sua carreira
Avaliação
Para 27 ou mais respostas
"sim": você é uma supermarca.
Sabe bem quem é e o que o torna único,
além de conseguir se comunicar e trazer visibilidade
para seu trabalho.
De 21 a 26 respostas
"sim": sua marca está muito bem
moldada. Você entende a importância de sua
imagem e os conceitos de marca pessoal. Sabe que seu
sucesso profissional depende do destaque entre seus
pares. Você tem tudo para se tornar uma supermarca.
De 11 a 20 respostas
"sim": você sabe quanto a consolidação
de uma marca pessoal pode fazer por você. E já
desenvolveu algumas habilidades importantes para chegar
lá.
De 5 a 10 respostas
"sim": você não tem focado
na construção de sua imagem. Pode ter
potencial, mas não está aproveitando seus
atributos.
Menos de 5 respostas
"sim": você é invisível.
Talvez essa tenha sido a primeira vez que parou para
pensar sobre a importância de criar uma marca
pessoal.