Novo indicador do
MEC diz quanto
cada escola do país deve progredir
Camila Antunes e Marcos Todeschini
Marcelo Correa
Aula na escola Guiomar Neves,
campeã no ranking: oito horas de estudo por dia
Mede-se
de tudo em sociedades modernas: do nível de riqueza
do país aos hábitos à mesa de sua população.
Indicadores ajudam a traçar cenários para a
economia que orientam decisões em empresas e governos.
Dados socioeconômicos dão contornos às
políticas públicas. Até a década
de 80, o Brasil era ainda um país pouco afeito a estatísticas,
limitado a números produzidos a cada dez anos por meio
dos censos. Sobre as escolas brasileiras, sabia-se que eram
assoladas por taxas de repetência similares às
de países africanos. E só. Apenas em 1990 surgiu
o primeiro medidor no país para aferir a qualidade
da educação, o Saeb, seguido de uma leva de
avaliações durante o governo Fernando Henrique
Cardoso. O governo Lula intensificou ainda mais as medições,
o que permitiu, enfim, enxergar com precisão as deficiências
em sala de aula em todos os níveis de ensino. Na semana
passada, o Ministério da Educação (MEC)
divulgou um novo ranking de escolas públicas de ensino
fundamental o mais completo já feito no país.
É o mais recente dos medidores oficiais, o Ideb. Os
especialistas o definem como um avanço em relação
aos outros: ele não só mostra um panorama da
educação brasileira como, pela primeira vez,
estabelece metas objetivas para 46.000 escolas públicas
do país. É um sistema de cobranças e
incentivos. As escolas que superarem a meta receberão
mais verbas. Resume o ministro Fernando Haddad: "O objetivo
é fazê-las chegar em quinze anos ao padrão
dos países desenvolvidos".
O estímulo
para que as escolas brasileiras elevem o nível vem
em boa hora. O Ideb mostra que elas ainda estão a anos-luz
da excelência. Eis o pior dado: a média geral,
segundo o novo medidor, não passou de sofríveis
3,8 (numa escala de zero a 10). Raríssimas escolas
da lista não tiraram nota vermelha na avaliação.
Mais precisamente, 178 delas, solitárias ilhas de bom
ensino que conseguiram cravar notas acima de 6 a média
da OCDE (organização que reúne países
da Europa e os Estados Unidos). Sim: apenas 0,3% das escolas
brasileiras oferta ensino de qualidade comparável ao
que predomina nas salas de aula dos países mais ricos.
Sobre elas, o levantamento do MEC traz um dado surpreendente:
o melhor ensino público do país não aparece
apenas nas escolas que recebem mais dinheiro do governo ou
ficam nas maiores cidades do país, mas, também,
naquelas sediadas em municípios mais pobres e menos
conhecidos. Esse é o caso da metade das escolas que
fugiram da zona de notas vermelhas, segundo o Ideb. O resultado
ajuda a derrubar um velho mito, o de que só há
bom ensino onde sobra dinheiro.
Paulo
Araujo/Ag. O Dia
Biblioteca do Colégio
Dom Pedro II, no Rio de Janeiro: os alunos lêem
dez livros por ano
Ao revelar o mapa da excelência, o novo medidor do MEC
também tem o mérito de jogar luz sobre práticas
que levam ao sucesso escolar. A maioria delas não é
mirabolante tampouco é dispendiosa. As boas
escolas, sobretudo as do interior, costumam enfrentar suas
mazelas com o esforço de gente como Milena Ferreira,
26 anos, diretora do colégio Helena Borsetti, em Matão,
no interior de São Paulo. É a terceira melhor
do país, no ciclo de 1ª a 4ª série,
segundo o Ideb. Para sanar a falta de uma biblioteca, Milena
liderou na cidade um mutirão para arrecadar livros.
O saldo: 800 volumes doados em uma semana. Eles ficam à
disposição dos alunos em duas caixas de papelão.
"As crianças amam ler", orgulha-se a diretora. O exemplo
de Matão ilustra uma idéia bastante propagada
no mundo acadêmico: a de que diretores engajados às
questões do ensino são a alma de uma boa escola.
Um levantamento com as vinte campeãs no Ideb mostra
que todas elas estão sob o comando de um diretor que
está no cargo há pelo menos três anos.
Nas outras escolas do país, a média é
de um novo diretor por ano. Conclui Maria Helena Guimarães,
secretária de Educação no Distrito Federal:
"Educador bom é aquele que leva o trabalho às
últimas conseqüências e se responsabiliza
pelos resultados".
O Ideb mostra,
em suma, que bom ensino não depende de soluções
mágicas, mas, sim, de empenho. Nas escolas campeãs,
a equipe de educadores certamente trabalha mais (e queixa-se
menos) do que a média nacional, os pais são
mais entusiastas da rotina escolar e os estudantes passam
mais tempo em sala de aula. Colégio número 1
no ranking de 1ª a 4ª série, o Ciep Guiomar
Gonçalves Neves oferece há cinco anos período
integral. A decisão de esticar a jornada de estudos
foi tomada em conjunto com os pais (e não significou
um centavo a mais à folha de pagamento). Os professores
apenas seguiram com o estabelecido em contrato: quarenta horas
semanais dedicadas ao colégio. A campeã está
sediada em um dos vários cenários improváveis
para a excelência acadêmica revelados pelo Ideb.
Fica em Trajano de Morais, município de 10.000 habitantes
a 250 quilômetros do Rio de Janeiro, onde se vive do
cultivo de frutas e legumes. Os pais dos estudantes ganham
em média dois salários mínimos por mês
e muitos não venceram as primeiras séries
do ensino fundamental. Ainda assim, a escola consegue o feito
de formar alunos com raro entusiasmo pelos estudos. Um dos
melhores da turma, o estudante Marco Aurélio do Amaral,
de 12 anos, tem a reputação de prodígio
da matemática e traduz o clima local: "As aulas são
ótimas".
Selmy
Yassuda
Colégio de Aplicação
da UFRJ: escolas federais vão bem no Ideb
De novo, o Ideb
remete à idéia do esforço para chegar
ao bom ensino. Em escolas campeãs, como a de Marco
Aurélio, os professores não só cultivam
o hábito de preparar as aulas (básico, porém
raro no país) como também estudam mais. Enquanto
32% dos professores brasileiros nunca pisaram numa universidade,
nas vinte melhores escolas do país 92% têm diploma
de graduação, sendo que 63% poliram seu currículo
com uma especialização. Em alguns casos, o que
os atrai às boas escolas é um fator meramente
subjetivo: "Elas levam o ensino a sério". Noutros casos,
essa elite de professores é motivada por meio de bons
planos de carreira, como o do Colégio de Aplicação
da Universidade Federal do Rio de Janeiro (CAp), campeão
no ranking de 5ª a 8ª série. Tem-se lá
um sistema raro e de bom resultado. A cada nova especialização,
os professores ganham aumento de salário e licença
de até quatro anos para prosseguir com os estudos.
Com esse tipo de política, o CAp segura em seus quadros
profissionais como a professora Ana Lúcia Mayor, de
44 anos, doutora em literatura. "Aqui se valoriza o mérito."
A professora pertence a uma minoria de escolas patrocinada
pelo governo federal. Elas recebem quatro vezes mais dinheiro
do que os outros colégios e emplacaram oito das vinte
campeãs do novo ranking.
Um indicador como
o Ideb não só contribui para divulgar os bons
exemplos como também revela, para a maioria das más
escolas, o abismo que as separa da excelência. O diagnóstico
oficial deveria servir como ponto de partida para uma mudança
nos rumos em sala de aula. O problema é que, no Brasil,
medidores como o Ideb costumam passar em branco nas escolas
boas e ruins. Ao ouvir que o colégio municipal
Esfinge, de Lauro de Freitas, na Bahia, havia aparecido em
último lugar no ranking do MEC, com média 0,1
(sim, na mesma escala de zero a 10), Nailma dos Santos indagou:
"Ideb? É um novo canal de televisão?". Detalhe:
Nailma é a diretora da escola. Ao ignorar a existência
do novo indicador, ela também não levará
em conta a meta estipulada pelo MEC para que sua escola suba
de nível. Deveria. No fim do 3º ano do ensino
fundamental, as crianças de lá ainda aprendem
as primeiras sílabas. A escola de Lauro de Freitas
não é a única do estado no ranking das
vinte piores do país: são ao todo dez escolas
baianas na rabeira (o estado só ficou à frente
de Alagoas). Outra que fracassou foi a estadual Celina Pinho,
de Salvador. Em meio a uma greve de professores que já
passou de um mês, a escola é palco de violência
entre os estudantes e de salas abandonadas. Questionado
sobre o paradeiro da diretora, um aluno que havia decidido
atender o telefone respondeu: "Foi passear".
Leo
Azevedo/AE
Escola Celina Pinho, em Salvador:
"A diretora foi passear"
Os dois péssimos
exemplos vindos da Bahia infelizmente não são
os únicos revelados pelo MEC. O conjunto deles não
deixa dúvida sobre a urgência de um medidor como
o Ideb passar a ser levado a sério. A experiência
mostra que indicadores do gênero têm sido ignorados
no Brasil não apenas por desconhecimento mas, principalmente,
pela aversão a levantamentos cujos dados permitem montar
rankings, indicadores de quem está fazendo mais com
o mesmo e até com menos. O discurso-padrão de
professores e alunos que preferem boicotar as avaliações
baseia-se na ladainha ideológica segundo a qual é
"injusto" comparar instituições egressas de
realidades tão diferentes ou "humilhar" as piores ao
dar visibilidade a seus fracassos. Esse discurso não
cola mais. Eles ignoram o que há décadas se
depreendeu da experiência internacional. Os rankings
têm gerado em outros países uma saudável
competição entre escolas e universidades
e servido como estímulo para que as piores elevem o
nível das aulas. No Brasil, país lembrado como
um dos melhores em avaliações do ensino, tem-se
ainda efeito quase nulo dos vários indicadores disponíveis.
"Até hoje, nenhum deles teve uso prático", diz
o ex-ministro da Educação Paulo Renato Souza.
Espera-se que agora, com a cobrança de metas, as escolas
passem a prestar mais atenção nos números.
Elas serão reavaliadas a cada dois anos. Segundo o
MEC, todas deverão chegar à nota 6, média
do mundo desenvolvido, até 2022. O Ideb mostra que
lhes resta, ainda, um longo caminho pela frente.
As várias
medidas da educação
Além
do novo Indice de Desenvolvimento da Educação
Básica (Ideb), o MEC aplica outras cinco avaliações
para testar os estudantes e auferir a qualidade do ensino
em geral, péssima. Eis a lista
NO ENSINO
BÁSICO
IDEB
(Indice de Desenvolvimento da Educação
Básica) O que é:
um novo indicador que resulta do cruzamento das notas
dos estudantes na Prova Brasil ou no Saeb com a taxa
de aprovação dos alunos. Serve para medir
a qualidade do ensino por escola, município e
estado e é o primeiro a estabelecer metas
para sua melhoria
Fotos
Paulo Liebert/AE e Ag. RBS
Estudantes no Enem: reprovados
ENEM(Exame Nacional
do Ensino Médio) O que é:
uma prova anual para medir o nível dos estudantes
de escolas públicas e particulares ao fim do
ciclo básico. Faz quem quer. Os alunos podem
usar a nota no exame para pleitear bolsas universitárias
no MEC e ingressar em 23% das faculdades
PROVA
BRASIL
O que é:o único
exame oficial que abrange alunos de 41000 escolas públicas
de ensino fundamental do país. Com base no resultado
dos estudantes, cada escola recebe uma nota e um lugar
no ranking nacional
SAEB(Sistema de Avaliação
da Educação Básica) O que é:
prova aplicada a uma amostra de estudantes (definida
por sorteio) de escolas públicas e particulares.
O objetivo é mapear as deficiências gerais
no ensino e as falhas específicas de estados
e municípios
NO ENSINO SUPERIOR
Federal do Rio Grande
do Sul: destaque no Enade
ENADE (Exame
Nacional de Desempenho de Estudantes) O que é:
sucessor do Provão, o teste mede o nível
de conhecimento de uma amostra de estudantes sorteada
nos 13000 cursos de graduação do país,
entre novatos e formandos. Com base no resultado, os
cursos recebem uma nota que permite compará-los
SINAES(Sistema Nacional
de Avaliação do Ensino Superior) O que é:
avaliação que confere notas às
universidades com base no resultado do Enade e em outros
dois critérios: a opinião de uma comissão
de especialistas e a (bem mais subjetiva) auto-avaliação
das instituições
Cartilha
nota 10
Um levantamento
sobre as vinte escolas campeãs no novo ranking
do Ministério da Educação (MEC)
ajuda a entender por que elas se tornaram raríssimas
ilhas de excelência no ensino brasileiro
PROFESSORES
COM CURSO SUPERIOR COMPLETO Escolas campeãs:
92% Média brasileira: 68%