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27 de junho de 2007
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Internacional
As duas Palestinas

A briga entre Hamas e Fatah cria dois
não-estados sem um futuro possível


Duda Teixeira

 
Mohammed Salem/Reuters
Hatem Moussa/AP
Retratos do ódio: em Gaza, manifestantes queimam cartaz do presidente Abbas com Condoleezza Rice; no "túnel da morte", feridos largados à própria sorte

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O mundo ainda não se recuperou da perplexidade causada pelo súbito surgimento das duas Palestinas. Os principais envolvidos, no entanto, comportam-se plenamente como entidades distintas e separadas por ódios mortais. "Não há diálogo com esses terroristas assassinos", declarou Mahmoud Abbas, o presidente palestino ligado a um dos grupos em guerra, o Fatah, e hoje reduzido ao controle ainda duvidoso sobre a Cisjordânia. "Traidores aliados dos sionistas", é a resposta mais suave da banda contrária, o Hamas, grupo fundamentalista que há duas semanas tomou o poder com impressionante facilidade na Faixa de Gaza, a outra parte do fracionado território palestino (militantes do Hamas também ocuparam a residência particular de Abbas em Gaza e queimaram fotos em que ele aparece, como sinal supremo da traição, beijando a secretária de estado americana, Condoleezza Rice). A idéia de que as duas Palestinas, batizadas de Hamastão e Fatahlândia, sejam reunificadas num futuro próximo parece impossível – exceto na hipótese, hoje não totalmente absurda, de que o Hamas também consiga se impor na Cisjordânia. Todo mundo que tem algum interesse em ver encaminhada uma solução para o conflito palestino-israelense fica com um sentimento de desesperança e frustração. A criação de um estado palestino viável e relativamente estável, se já era difícil, torna-se mais remota ainda.

É surreal pensar em reconciliação diante de imagens como as do "túnel da morte", o cavernoso posto de fronteira junto da localidade israelense de Erez. Fugindo do Hamas, militantes do Fatah, familiares e quem mais se sentisse ameaçado ficaram presos numa terra de ninguém. De um lado, os fundamentalistas inimigos; de outro, os soldados israelenses, que não permitiam que atravessassem o território judaico para chegar à Cisjordânia. Feridos na microguerra civil passaram dias jogados no chão até que Israel aceitasse sua remoção.

Enquanto as portas se fechavam em Gaza, Mahmoud Abbas virou o foco de uma corrente internacional de apoio. Na falta de alternativa melhor, Estados Unidos, União Européia e Israel prometeram retomar a ajuda financeira ao governo de Abbas, suspensa desde que o Hamas passou a integrar o governo, no início do ano passado. A estratégia é transformar a Cisjordânia em uma vitrine de prosperidade e, assim, minar o poder do Hamas em Gaza. A possibilidade de que isso aconteça é a mesma de que a Noruega se transforme num país de Terceiro Mundo.

A vitória dos fundamentalistas e as manifestações constantes criam a impressão de que os palestinos se deixaram levar em massa pela radicalização. Uma pesquisa de opinião feita logo depois do desfecho da microguerra civil mostra, ao contrário, que a maioria da população percebe claramente quem saiu perdendo. Embora o apoio ao Hamas continue significativo, caiu de 37%, segundo pesquisa feita há três meses, para 33%. O Fatah continua com 43% da opinião pública a seu lado – mas a atuação de Abbas durante o confronto fratricida bateu em míseros 13%. Atos extremistas como a destruição de cibercafés (símbolo do mal e da decadência aos olhos dos fundamentalistas) são condenados por 82%. Para 71%, os dois lados, Hamas e Fatah, perderam com o conflito. E 70% acreditam que a possibilidade de criação de um verdadeiro estado nacional é baixa ou nula. Para refletir esse estado de espírito, foi muito lembrado um poema de Mahmoud Darwish que evoca a derrota na Guerra dos Seis Dias, em 1967, com palavras proféticas: "Junho nos tomou de surpresa com seu quadragésimo aniversário: se não encontrarmos alguém para nos derrotar de novo, nós nos derrotaremos por contra própria".

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