A briga entre Hamas
e Fatah cria dois
não-estados sem um futuro possível
Duda Teixeira
Mohammed Salem/Reuters
Hatem Moussa/AP
Retratos do ódio:
em Gaza, manifestantes queimam cartaz do presidente Abbas
com Condoleezza Rice; no "túnel da morte", feridos largados
à própria sorte
O mundo ainda não
se recuperou da perplexidade causada pelo súbito surgimento
das duas Palestinas. Os principais envolvidos, no entanto,
comportam-se plenamente como entidades distintas e separadas
por ódios mortais. "Não há diálogo
com esses terroristas assassinos", declarou Mahmoud Abbas,
o presidente palestino ligado a um dos grupos em guerra, o
Fatah, e hoje reduzido ao controle ainda duvidoso sobre a
Cisjordânia. "Traidores aliados dos sionistas", é
a resposta mais suave da banda contrária, o Hamas,
grupo fundamentalista que há duas semanas tomou o poder
com impressionante facilidade na Faixa de Gaza, a outra parte
do fracionado território palestino (militantes do Hamas
também ocuparam a residência particular de Abbas
em Gaza e queimaram fotos em que ele aparece, como sinal supremo
da traição, beijando a secretária de
estado americana, Condoleezza Rice). A idéia de que
as duas Palestinas, batizadas de Hamastão e Fatahlândia,
sejam reunificadas num futuro próximo parece impossível
exceto na hipótese, hoje não totalmente
absurda, de que o Hamas também consiga se impor na
Cisjordânia. Todo mundo que tem algum interesse em ver
encaminhada uma solução para o conflito palestino-israelense
fica com um sentimento de desesperança e frustração.
A criação de um estado palestino viável
e relativamente estável, se já era difícil,
torna-se mais remota ainda.
É surreal
pensar em reconciliação diante de imagens como
as do "túnel da morte", o cavernoso posto de fronteira
junto da localidade israelense de Erez. Fugindo do Hamas,
militantes do Fatah, familiares e quem mais se sentisse ameaçado
ficaram presos numa terra de ninguém. De um lado, os
fundamentalistas inimigos; de outro, os soldados israelenses,
que não permitiam que atravessassem o território
judaico para chegar à Cisjordânia. Feridos na
microguerra civil passaram dias jogados no chão até
que Israel aceitasse sua remoção.
Enquanto as portas
se fechavam em Gaza, Mahmoud Abbas virou o foco de uma corrente
internacional de apoio. Na falta de alternativa melhor, Estados
Unidos, União Européia e Israel prometeram retomar
a ajuda financeira ao governo de Abbas, suspensa desde que
o Hamas passou a integrar o governo, no início do ano
passado. A estratégia é transformar a Cisjordânia
em uma vitrine de prosperidade e, assim, minar o poder do
Hamas em Gaza. A possibilidade de que isso aconteça
é a mesma de que a Noruega se transforme num país
de Terceiro Mundo.
A vitória
dos fundamentalistas e as manifestações constantes
criam a impressão de que os palestinos se deixaram
levar em massa pela radicalização. Uma pesquisa
de opinião feita logo depois do desfecho da microguerra
civil mostra, ao contrário, que a maioria da população
percebe claramente quem saiu perdendo. Embora o apoio ao Hamas
continue significativo, caiu de 37%, segundo pesquisa feita
há três meses, para 33%. O Fatah continua com
43% da opinião pública a seu lado mas
a atuação de Abbas durante o confronto fratricida
bateu em míseros 13%. Atos extremistas como a destruição
de cibercafés (símbolo do mal e da decadência
aos olhos dos fundamentalistas) são condenados por
82%. Para 71%, os dois lados, Hamas e Fatah, perderam com
o conflito. E 70% acreditam que a possibilidade de criação
de um verdadeiro estado nacional é baixa ou nula. Para
refletir esse estado de espírito, foi muito lembrado
um poema de Mahmoud Darwish que evoca a derrota na Guerra
dos Seis Dias, em 1967, com palavras proféticas: "Junho
nos tomou de surpresa com seu quadragésimo aniversário:
se não encontrarmos alguém para nos derrotar
de novo, nós nos derrotaremos por contra própria".