O senador Joaquim Roriz, do PMDB
do Distrito Federal, tem um vasto currículo. Ele foi
vereador, deputado, prefeito, ministro e governador do Distrito
Federal por quatro vezes. Apesar de ter dedicado os últimos
quarenta anos à política, o senador nunca abandonou
os negócios, o que fez dele um milionário fazendeiro,
famoso por seu protagonismo econômico nos principais
leilões de gado do país. Roriz também
é conhecido por acumular, além de riquezas,
um prontuário de encrencas jurídicas e policiais.
Agora, descobriu-se que o senador está envolvido em
mais uma delas. Das grandes. Ele foi fisgado no curso de uma
operação da Polícia Civil de Brasília
que prendeu uma quadrilha que desviava recursos do BRB, o
banco estatal do Distrito Federal. Na semana passada, VEJA
teve acesso à gravação de diálogos
em que um dos presos na operação, Tarcísio
Franklin de Moura, ex-presidente do banco e amigo do senador,
aparece combinando com Roriz a entrega de 2,2 milhões
de reais em dinheiro vivo ao senador. Os diálogos sugerem
que o dinheiro, supostamente sacado da conta do empresário
Nenê Constantino, dono da Gol Linhas Aéreas,
seria entregue em casa ao senador em um carro-forte. Antes
disso, o senador Roriz, o preso Tarcísio e pessoas
ainda não identificadas negociaram sobre a melhor forma
de receber o butim e reparti-lo. Em casa? No escritório?
O que fazer com tanto dinheiro vivo?
"Na hora que tiver (o dinheiro)
com você, você avisa para mim", pede o senador
Roriz, querendo ganhar tempo para encontrar o melhor lugar
para dividir a grana. "O dinheiro vai da tesouraria, vai direto.
Vai num carro", avisa Tarcísio, que ainda presidia
o banco, informando que os recursos não passariam por
suas mãos. Ao saber que o dinheiro iria em um carro,
o senador Roriz pareceu assustar-se. Ele se recusa a recebê-lo
em casa. "Ah, não. Aí eu não quero, não.
Desse jeito, não", diz. O preso Tarcísio pergunta:
"Onde é que vai pôr esse dinheiro?". "Não
tem um cofre, não?", indaga Roriz. "Mas para isso tudo
não tem, não", explica Tarcísio, dando
uma risadinha. O senador sugere que é preciso encontrar
outra solução e é informado de que uma
parte do dinheiro, 200.000 reais, deveria ser depositada.
O restante, 2 milhões de reais, ao que tudo indica,
seria dividido entre ele e outras pessoas. Outra conversa
entre o preso Tarcísio e o senador Roriz mostra que
a solução encontrada foi levar o dinheiro para
o escritório do empresário Nenê Constantino,
em Brasília, e ali fazer a partilha.
Por envolver um senador, o caso
foi encaminhado à Procuradoria-Geral da República
acompanhado de documentos que pedem investigação
sobre uma possível prática de crime de lavagem
de dinheiro. Procurado por VEJA, Joaquim Roriz, por meio de
assessores, garantiu que tudo não passa de um negócio
simplório entre ele e Constantino. Na versão
de Roriz, no dia 12 de março, ele se encontrou casualmente
com Constantino e comentou que estava sem dinheiro para pagar
uma bezerra que comprara por 300.000 reais. Constantino teria
dito então que, casualmente, tinha no bolso um cheque
de 2,2 milhões de reais e que Roriz poderia levá-lo,
descontá-lo no BRB, pegar os 300.000 e devolver o restante.
No dia seguinte, 13 de março, assim foi feito.
Para provar sua versão,
o senador apresentou um contrato entre ele e o dono da Gol,
assinado em 12 de março, um dia antes do saque milionário,
cópia do cheque e do depósito. Talvez por envolver
dois amigos, o contrato de empréstimo não foi
registrado nem as assinaturas foram reconhecidas em cartório.
Parece inverossímil e é. O empresário
Nenê Constantino, consultado por VEJA, disse que de
fato emprestou 300.000 reais ao senador, assinou um contrato
e recebeu notas promissórias em garantia. Mas só.
Sobre o cheque de 2,2 milhões de reais, Constantino
garante que nunca ouviu falar. Aliás, disse que nem
tem conta bancária no BRB... A explicação
de Nenê Constantino, próspero e sólido
empresário, coloca o senador Roriz de novo em uma situação
difícil. Roriz já foi surpreendido em negócios
com os anões do Orçamento. Quando era governador
do DF, foi flagrado em sociedade com grileiros de terra pública.
É um especialista em safar-se dessas encrencas. Nesse
episódio ele é desmentido por um dos mais inovadores
e bem-sucedidos empresários do país. Vai escapar
de novo?
"COMO
EU VOU TRANSPORTAR ESSE DINHEIRÃO TODO?"
Neste diálogo, captado
em 13 de março passado, o presidente do BRB,
Tarcísio Franklin de Moura, informa ao senador
Joaquim Roriz que os 2,2 milhões de reais, sacados
da conta do empresário Nenê Constantino,
dono da Gol, serão entregues na própria
casa do senador nas mãos de "Major", um
dos assessores de Roriz no Senado. Desconfiado, Roriz
não gosta da idéia de receber a montanha
de dinheiro em sua casa. Quando sabe que o dinheiro
será entregue num carro, Roriz recusa a idéia
definitivamente. "Ah, não. Aí não
quero, não", diz Roriz. O senador fica de pensar
num lugar alternativo para a entrega e então
ligar de volta para Tarcísio.
Roriz – Alô. Tarcísio – Oi, chefe. Roriz –
Recebeu aí? Tarcísio – Recebi e já estou resolvendo.
Lá pelas
4 horas vai ser entregue para o Major o valor total. Roriz –
Sei, sei. Tarcísio – Lá na MSPW (refere-se
à sigla SMPW, que designa a região da residência
de Roriz em Brasília). Roriz –
Não, mas o, o...
Mas pode ser separado. Tarcísio – Não, mas o melhor era
tirar de uma vez só, porque não tem jeito
de o cheque ficar no caixa. Roriz –
Ah, sei. Não tem, não? Tarcísio – Não. Não tem como
tirar o dinheiro e pôr o cheque na compensação,
e pronto. Roriz –
Não pode tirar?
Tiraram tudo? Tarcísio – Tudo. (...) Roriz –
Então tá... Mas aí não dá
pra entregar assim porque... Mas... Se você... Na
hora que tiver com
você, você avisa para mim. Tarcísio – Não, não vai estar
na minha mão, não. O dinheiro vai da tesouraria,
vai direto. Vai num carro. Roriz –
Ah, não. Aí não quero, não. Tarcísio – Não? Roriz –
Não. Tarcísio – Uai, então... Roriz –
Desse jeito, não. Tarcísio – E como eu vou transportar esse
dinheirão todo? Roriz –
O que que eu faço? Tarcísio –(Pigarreia) Roriz –
Mas não quero, não. Tarcísio – Não? Então eu vou
voltar lá. Roriz –
Hein? Tarcísio – Então eu vou ter que...
Porque não tem jeito, não tem como... Onde
é que vai pôr esse dinheiro? Roriz –
Não tem um cofre, tesouraria? Tarcísio – Saiu da tesouraria tem que entregar
para
alguém. Roriz –
Não tem um cofre, não? Tarcísio – Mas pra isso tudo não
tem, não. (Risos) Roriz –
Então vamos
esperar, ver o que faz. Tarcísio – Tá. Roriz –
Eu não sei, eu não sei como é que
faz... Assim eu não gostaria, não. Tarcísio – Não? Roriz –
O dinheiro é de muita gente. Tarcísio – Ahã. Pois é. O
problema é que tinha que centralizar num lugar
e fazer (refere-se a fazer a partilha). Porque
depósito mesmo é só um, de 200 e
poucos mil (refere-se ao fato de que apenas uma pessoa
receberia o dinheiro na forma de depósito).
E como é que entrega os outros? Não tem
jeito. Tinha que entregar num lugar, pra naquele lugar
dividir. Eu imaginei que podia levar para lá. Roriz –
Não, não convém, não. Tarcísio – Então vamos ver outro
lugar. Roriz –
Vou pensar e te falo daqui a pouco.
"DE LÁ SAI CADA UM
COM O SEU"
Nesta conversa, interceptada
logo em seguida, Tarcísio Franklin de Moura, presidente
do BRB, liga para o senador Joaquim Roriz para sugerir
que a entrega do dinheiro fosse no escritório do
empresário Nenê Constantino, em Brasília.
Roriz dá a entender que pensou no mesmo lugar.
Os dois se divertem com a coincidência.
Tarcísio – Oi, senador. Roriz – Oi. Tarcísio
– Posso sugerir um negócio? Roriz – Pode. Tarcísio
– Por que a gente não leva lá para o
escritório do Nenê (refere-se a Nenê
Constantino, dono da Gol)? Roriz – Era pra isso mesmo. Tarcísio
– E de lá sai cada um com o seu. Roriz – Era para ser isso mesmo, mesmo porque lá
não tem dúvida nenhuma. É pra isso
mesmo. Tarcísio
– Exatamente. Roriz – Eu já tô pegando o endereço
dele já. Tarcísio
– Então tá ótimo. Nós
pensamos a mesma coisa. Roriz –(Risos) Tarcísio
– Então tá bom.