Bruno Mendes, parente
de Cláudio Gontijo, entregou
sacolas com 100 000 reais à jornalista Mônica
Veloso
Policarpo Junior
Fotos Lula Marques/Folha
Imagem, Cristiano Mariz e Ana Araújo
O escritório dos advogados
de Renan (à dir), onde os 100 000 foram
pagos, o lobista Cláudio Gontijo e as obras do
Porto de Maceió: pagamentos numa ponta, emendas
na outra
Amigo, confidente,
fiador, tesoureiro, consultor. O lobista Cláudio Gontijo,
da empreiteira Mendes Júnior, era um pouco de tudo
para o presidente do Congresso, senador Renan Calheiros. Ele
pagava despesas do senador, emprestava sua casa para encontros
reservados, prestava socorro ao mínimo sinal de dificuldades
financeiras. Também visitava a casa de Renan, conversava
sobre obras de seu interesse, participava de reuniões
oficiais, indicava pessoas para ocupar cargos no governo e
pedia emendas para beneficiar sua empreiteira. A relação
rendia dividendos a ambos: as despesas mais secretas do senador
eram pagas pelo lobista, e o lobista obtinha sucesso em seus
negócios com a ajuda do senador.
Na semana passada,
em depoimento no Conselho de Ética do Senado, o próprio
Cláudio Gontijo narrou em detalhes suas relações
com Renan Calheiros. Interrogado pelo senador Demostenes Torres
(DEM-GO), o único membro do Conselho que parece interessado
em aprofundar as investigações, o lobista desnudou,
mesmo sem querer, toda a promiscuidade de suas relações
com o senador. E isso em um questionamento que não
passou de dez minutos.
Gontijo confirmou
que pagou à jornalista Mônica Veloso em dinheiro
vivo, na sede da empreiteira Mendes Júnior, a pedido
do senador. Paralelamente, disse que conversou com Renan sobre
o Porto de Maceió, cujas obras são tocadas pela
Mendes Júnior. No depoimento de Gontijo apareceu ainda
uma novidade: a última bolada de dinheiro vivo que
Renan entregou a Mônica Veloso, de 100 000 reais, foi
levada à jornalista por um parente do lobista. No interrogatório,
travou-se o seguinte diálogo entre o senador Demostenes
Torres e o lobista Cláudio Gontijo:
O senador
O senhor conhece o advogado Bruno Mendes?
O lobista
Conheço.
O senador De onde?
O lobista
Ele é... por uma feliz coincidência, nós
temos um laço de parentesco, em que a avó dele
é minha madrinha de batismo e o avô dele é
meu padrinho de batismo e irmão de meu pai.
O senador
O que ele faz?
O lobista
É advogado.
O senador Alguma vez ele entregou ou foi portador de algum recurso?
O lobista
Não tenho nenhum conhecimento disso.
O advogado Bruno
Mendes, 55 anos, era um personagem desconhecido do calvário
de Renan Calheiros. Primo em segundo grau de Cláudio
Gontijo, ele mora em Maceió, mas, assim como o primo
lobista, presta serviços de entrega de dinheiro para
o senador em Brasília. Em maio e junho de 2006, Renan
Calheiros pagou 100 000 reais à jornalista Mônica
Veloso. Segundo o senador, o dinheiro era para formar um fundo
de educação para sua filha. A jornalista afirmou
que se tratava de um complemento de pensão alimentícia.
Os 100 000 reais foram pagos em duas parcelas. Os advogados
de Renan produziram recibos como se a despesa fosse para o
tal fundo de educação. Na hora de pagar, o dinheiro
apareceu em sacolas. VEJA apurou que o portador das sacolas
era o advogado Bruno Mendes, primo do lobista Gontijo.
O pagamento das
duas parcelas de 50 000 reais aconteceu no escritório
do advogado do senador, Eduardo Ferrão, no Lago Sul,
uma área nobre de Brasília. Na época,
ficou combinado que assim que o dinheiro estivesse disponível
o advogado da jornalista, Pedro Calmon Filho, receberia um
telefonema para ir buscá-lo. Por duas vezes, no fim
de maio e no fim de junho, Calmon foi ao escritório
de Ferrão. Nas duas ocasiões, foi recebido por
Bruno Mendes, que lhe entregou uma sacola preta de náilon.
A sacola foi colocada em cima de uma mesa de madeira na biblioteca
do escritório. "Ficamos uns bons minutos juntos contando
o dinheiro", rememora Calmon. Havia dentro da sacola, segundo
ele, notas de 100, 50, 20 e até 10 reais. "O Bruno
Mendes me foi apresentado como mais um advogado de Renan",
lembra Calmon. Procurado, Eduardo Ferrão explicou que
Bruno Mendes não atua no caso, mas, como é amigo
e assessor de Renan, acompanhou alguns desdobramentos da história.
"É até possível que ele estivesse aqui
no dia dos pagamentos", admite Ferrão. "Mas o dinheiro,
posso assegurar, veio da casa do senador." O pagamento dos
100.000 reais não consta nas declarações
de imposto de renda do senador. Nada disso prova que a Mendes
Júnior tenha, outra vez, algo a ver com esse pagamento
de despesas do senador. Como diria Gontijo, talvez seja tudo
apenas "feliz coincidência".
Celso
Junior/AE
O advogado Pedro Calmon Filho:
notas de 100, 50, 20 e até de 10 reais
Outra coincidência,
também revelada no depoimento de Gontijo, mostra que
o senador se interessou pela obra do Porto de Maceió,
que está na conta da Mendes Júnior. O senador
Demostenes Torres perguntou ao lobista e ele confirmou que
falou sobre as obras do Porto com o senador e que este chegou
a visitá-las. Em 2004 e 2005, nos mesmos anos em que
Gontijo assumia os gastos com a jornalista Mônica Veloso,
Renan apresentou três emendas orçamentárias
para as obras do Porto, em um total de 13,2 milhões
de reais. O senador disse que fez as emendas para ajudar Alagoas.
Pode ser. O depoimento de Gontijo mostra que, além
de ajudar Alagoas, Renan também atendeu a um pedido
do amigo lobista. Em nota divulgada logo depois do escândalo,
a Mendes Júnior, que pertence ao empresário
Murilo Mendes, disse que jamais pediu a Renan emenda para
suas obras. Em seu depoimento, o lobista ressaltou que pediu
ajuda para Renan e, também, para toda a bancada de
Alagoas.
As respostas de
Gontijo mostraram que, em mais de uma ocasião, as atividades
políticas do senador cruzaram com os interesses do
lobista da Mendes Júnior. Em seu depoimento, Gontijo
admitiu que conhece Aloisio Vasconcelos, que presidiu a Eletrobrás
até janeiro passado. "Ele é uma pessoa que eu
considero, um dos maiores conhecedores do setor elétrico",
disse Gontijo. "Nós manifestamos várias vezes,
inclusive por escrito, o nosso interesse em participar de
todos os projetos de energia que estão para ser executados."
Em 2005, Gontijo chegou a participar como convidado especial
de uma reunião entre deputados e senadores do PMDB
em que se discutia a indicação do presidente
da Eletrobrás. O encontro aconteceu na residência
oficial do presidente do Senado. Na reunião, depois
de analisar vários nomes, decidiu-se que Aloisio Vasconcelos
tinha o melhor perfil para ocupar o cargo. Quem sugeriu o
nome? O lobista Cláudio Gontijo.
No depoimento,
Gontijo também confirmou que comprou o flat que Renan
tinha no hotel Blue Tree, em Brasília. Disse que o
senador não estava satisfeito com o imóvel,
pois o aluguel não cobria as prestações
do financiamento. Gentilmente, o lobista assumiu o imóvel.
No mesmo Blue Tree, Gontijo é dono de um flat, onde
mora, que emprestava ao senador para encontros reservados.
É curioso que o local não fosse usado para os
pagamentos à jornalista. Sobre o assunto, o senador
Demostenes Torres sempre ele teve o seguinte
diálogo com Gontijo:
O senador Como o senhor recebia o dinheiro do senador Renan Calheiros?
No gabinete, sacava no banco, alguém lhe entregava...
O lobista
Sempre na casa dele e das mãos dele. Como eu afirmei
aqui no início, ele sempre disse: não terá
uma terceira pessoa para tratar desse assunto. Às vezes
ele me entregava de uma vez tudo, às vezes me entregava
só uma parte.
O senador E onde o senhor guardava esses recursos?
O lobista
Na minha casa.
O senador
Não era mais fácil e mais discreto entregar
o dinheiro no hotel, já que o senhor se encontrava
com a Mônica freqüentemente ali?
O lobista
Normalmente a gente saía para almoçar. Ela passava
no carro dela, eu descia, entrava no carro dela e a gente
saía para almoçar.
O senador Almeida
Lima, membro da tropa de choque de defesa de Renan, fez um
balanço do depoimento de Gontijo: "Mostra que não
houve relação incestuosa alguma". Será
que o senador viu o mesmo depoimento?