Há trinta anos, quando disputou
a primeira eleição para
deputado, Renan tinha um Fusca. Hoje, o presidente
do Congresso é dono de uma fortuna conhecida
de 10 milhões de reais
Alexandre Oltramari
Fotos Anderson Schneider
Em 1982, Renan tinha uma modesta
casa em Maceió (acima, à esq.). Hoje,
entre suas propriedades, está uma mansão
à beira-mar: ascensão notável
A suspeita de que um lobista
pagava despesas do senador Renan Calheiros revelou dois aspectos
desconhecidos de sua biografia. Um deles é seu extraordinário
desempenho como pecuarista. Para provar que tinha renda para
pagar 12.000 reais de pensão à jornalista Mônica
Veloso, mãe de sua filha, Renan disse que ganhou 1,9
milhão de reais em quatro anos com venda de gado. Para
tanto, suas vacas exibiram taxa de fecundidade maior que a
dos melhores produtores nacionais, e a arroba de seus bois
é vendida em Alagoas, estado assolado pela febre aftosa
desde 2001, pelo maior valor do país. O outro aspecto
novo é a notável capacidade do senador para,
mesmo atuando sempre como político profissional, acumular
uma fortuna respeitável. Na semana passada, VEJA visitou
suas propriedades, entrevistou especialistas, cotejou valores
e descobriu que seu patrimônio, declarado em 1,7 milhão
de reais, é pelo menos 476% maior. Bate na casa dos
10 milhões de reais.
Renan Calheiros teve uma infância
modesta em Murici, município de 21 600 habitantes a
50 quilômetros de Maceió. Um dos oito filhos
de um pequeno produtor rural e uma dona-de-casa, Renan chegou
a vender sandálias feitas com pneus velhos na década
de 70, na época em que deixou a cidade para estudar
direito em Maceió. Quando estreou na política,
elegendo-se deputado estadual em 1978, tinha um Fusca. De
lá para cá, ficou sem mandato durante apenas
quatro anos, mas de todo modo, mesmo como pecuarista diletante,
como fazendeiro nas horas vagas, tornou-se um homem milionário.
É dono de três fazendas com 1.742 cabeças
de gado. Tem um apartamento na orla de Maceió, casa
à beira-mar na paradisíaca Barra de São
Miguel e cinco caminhonetes de luxo. A pequena herança
que recebeu -- ao morrer, o pai deixou 712 hectares para repartir
entre oito filhos -- nunca foi incorporada ao seu patrimônio.
Tudo o que Renan tem é resultado do seu, digamos assim,
trabalho.
Até 2002, Renan vinha
aumentando seu patrimônio num ritmo formidável,
mas, aparentemente, compatível com seus rendimentos
como político:
Entre 1979 e 1982, enquanto
exerceu um mandato de deputado estadual, Renan ganhou o equivalente
a 6 700 reais por mês. Nesse período, seu patrimônio
cresceu a um ritmo de 2.000 reais por mês. É
uma economia possível para quem é capaz de poupar
30% de sua renda todo mês.
Entre 1983 e 1990, como
deputado federal, ganhou o equivalente a 12.265 reais por
mês. Seu patrimônio cresceu a um ritmo de 8.000
reais por mês. É difícil, mas há
quem consiga guardar 65% do salário.
Entre 1991 e 1994, Renan
não teve mandato. Por um ano, presidiu uma subsidiária
da Petrobras por indicação do presidente Itamar
Franco. Seu patrimônio, nesse período, refletindo
a distância de um cargo eletivo, caiu de 880.000 reais
para 755.000 reais.
Entre 1995 e 2002, como
senador, Renan recebeu 12.277 reais por mês. Seu patrimônio
cresceu a um ritmo mensal de 8.800 reais. É quase impossível
poupar 72% do salário. Mas os poupadores fenomenais
chegam lá.
Até 2002, Renan não
declarou ser dono de fazendas, nem de cabeças de gado.
Tinha automóveis, uma casa, um apartamento e um flat
-- nada que pudesse lhe proporcionar rendimentos estratosféricos.
Mas, de 2002 em diante, a evolução de seu patrimônio
entrou num ritmo galopante impossível de ser explicado
por qualquer sacrifício no orçamento familiar.
Recebendo 12.277 reais por mês no Senado, sua fortuna
cresceu a um ritmo de 170.800 reais mensais. O senador sempre
atribuiu sua ascensão financeira a rendimentos agropecuários.
Mesmo que suas transações de venda de gado sejam
verdadeiras, coisa que ainda carece de comprovação,
é impossível enriquecer em um período
tão curto vendendo bois. Será?
De acordo com o administrador
de empresas Mauro Garcia, professor da Escola de Empreendedores
da Universidade de Brasília (UnB), não há
fórmula mágica para enriquecer em tempo recorde.
Ainda assim, o professor destaca três características
comuns em trajetórias meteóricas. A primeira
é a dedicação extrema e exclusiva ao
negócio. "É preciso muito suor, principalmente
no início", diz. A segunda é atuar em um mercado
inovador, como tecnologia da informação e telecomunicações.
"Foi nessas áreas que se construíram as grandes
fortunas nos últimos anos", afirma. O terceiro fator
é uma postura revolucionária e inovadora numa
área tradicional. "Um exemplo são essas empresas
de lava-jato que operam sem usar água. É um
negócio tradicional, mas que foi reinventado", diz
o professor Garcia. Nada disso, como se sabe, aparece na empreitada
bovina de Renan.
Em sua declaração
de bens entregue à Justiça Eleitoral em 2002,
Renan não diz possuir fazendas nem gado. Em 2003, porém,
ele declara ter começado o ano com um estoque de 1.278
bois. De onde saíram esses bois? Com que dinheiro foram
comprados? VEJA enviou esses questionamentos ao senador, por
escrito, mas ele não respondeu. A dificuldade para
justificar a origem de seus bens talvez explique o fato de
o patrimônio de Renan estar quase todo subfaturado em
suas declarações de renda -- o que, do ponto
de vista tributário, não é irregular.
Suas três fazendas, compradas a partir de 2003, teriam
custado 880.000 reais, o que dá uma média de
605 reais por hectare. O Instituto Nacional de Colonização
e Reforma Agrária (Incra) calcula o preço do
hectare na região em 4.500 reais. Dois corretores de
imóveis rurais disseram a VEJA que o hectare na região
custa entre 5.000 e 7.000 reais. Alguém vende hectare
por 600 reais?
"Tá sonhando? Isso não
existe, não", espanta-se o corretor Tônio Campos,
gerente da JC Consultoria Imobiliária, com quinze anos
de experiência no mercado. Assim, as três fazendas
que o senador diz ter comprado por 880.000 reais não
custam menos de 6,8 milhões de reais. Seu apartamento
em Maceió, declarado por 135.000 reais, é avaliado
em 1 milhão de reais. A casa na Barra de São
Miguel, declarada por 450.000 reais, vale mais de 1 milhão
de reais. Por que alguém subfatura o valor de seus
bens? Falando em tese, sem conhecer o caso específico,
o tributarista Gilberto Amaral, presidente do Instituto Brasileiro
de Planejamento Tributário, responde: "Para adquirir
um patrimônio, qualquer que seja ele, é preciso
ter renda. A principal justificativa para o subfaturamento
é a falta de origem lícita para o dinheiro".
Os bens subfaturados do senador,
coincidentemente, são sempre comprados de amigos ou
parentes. Uma fazenda foi adquirida de um irmão de
criação, a outra de um primo, uma terceira de
outro irmão. Uma de suas caminhonetes, uma Mitsubishi
L200 ano 2006, foi comprada de um assessor no Senado, Everaldo
França Ferro. Nesse caso, não há indício
de subfaturamento. Os indícios são de coisa
mais cabeluda. Ferro foi flagrado em grampo da Polícia
Federal em uma conversa esquisita com o empreiteiro Zuleido
Veras, preso pela Operação Navalha. A PF suspeita
que os dois estivessem falando sobre uma propina que seria
paga ao assessor do senador. Ferro não foi localizado
por VEJA para comentar a suspeita.
Será que Renan enriqueceu
terceirizando o pagamento de suas despesas? Quando precisava
pagar a Mônica Veloso, acionava o lobista Gontijo. Em
três entrevistas a VEJA, o ex-bicheiro alagoano Plínio
Batista, amigo de infância de Renan e seu aliado até
2004, afirmou que também pagou despesas do senador.
Diz que custeou parte de sua campanha ao Senado em 2002. "Comprei
a Kombi para a campanha a pedido do Renan", declara Plínio
Batista, exibindo fotos do veículo, placa MUD 5762,
decorado com material de campanha de Renan e seu irmão
Olavo. Ele também afirmou ter pago uma conta do senador
de 30 000 reais, em dinheiro vivo. O dinheiro foi pago ao
empresário Benezildo Moura, dono da gráfica
Sian. "Sou amigo dos Calheiros, não quero entrar nesse
assunto", disse o empresário a VEJA. Diante da insistência
da revista, ele confirmou o pagamento. "Eram santinhos e cartazes
do senador. Quem pagou foi o Plínio." Plínio
Batista já comandou o jogo do bicho em Alagoas e foi
preso duas vezes sob acusação de chefiar a contravenção
e envolver-se com grupo de extermínio. Era só
o que faltava. Além de ter contas pagas por lobista
de empreiteiro, o senador contou também com recursos
de bicheiro...