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Auto-retrato
Agnes Nishimura
Cristiano
Mariz
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Com apenas 25 anos, a bióloga paulistana Agnes Nishimura
identificou um novo gene relacionado à esclerose lateral
amiotrófica, que afeta os movimentos do corpo. A pesquisa
rendeu-lhe o prêmio Paulo Gontijo, entregue na semana
passada, em Brasília. Agnes, hoje com 29, falou à
repórter Leoleli Camargo sobre sua pesquisa.
COMO SURGIU
O SEU INTERESSE POR ESTUDAR DOENÇAS DE ORIGEM GENÉTICA?
É uma história estranha, mas bonita. Meu
pai faleceu no início deste mês de uma doença
degenerativa chamada ataxia espinocerebelar, que afeta os
músculos e a coordenação motora. Ainda
na adolescência, eu o vi perambular por diversos consultórios
médicos até finalmente ser diagnosticado. Quando
optei por estudar biologia na universidade, em grande parte
era porque queria saber mais sobre a doença dele. No
segundo ano, entrei como estagiária no laboratório
de genética da Universidade de São Paulo.
O QUE É
ESCLEROSE LATERAL AMIOTRÓFICA? É uma doença
que afeta os neurônios responsáveis por transmitir
impulsos nervosos do cérebro para a coluna e para os
músculos. Essa enfermidade atrofia os membros e compromete
a movimentação, a fala e a respiração.
O físico inglês Stephen Hawking tem uma das várias
formas dessa doença.
COMO FOI A DESCOBERTA
DA MUTAÇÃO? Estávamos eu e um colega
no laboratório lendo as seqüências de letras
A, T, C e G em um DNA de um portador do problema quando constatamos
que, onde deveria haver uma letra C, havia uma letra T. Essa
pequena mudança é o suficiente para causar a
doença. Depois disso, comparamos o DNA de indivíduos
normais com o de outros que tinham manifestado a doença
e confirmamos que se tratava mesmo de uma mutação.
Dizer aos pacientes que identificamos o gene foi uma sensação
muito boa. Lembrei do alívio que minha família
sentiu quando meu pai finalmente foi diagnosticado.
POR QUE AS CÉLULAS-TRONCO
EMBRIONÁRIAS SÃO A GRANDE ESPERANÇA PARA
QUEM TEM DOENÇAS DEGENERATIVAS COMO ESSA? No futuro,
talvez seja possível criar neurônios sadios a
partir dessas células e, assim, substituir os que estão
com defeito. Mas ainda há um longo caminho a percorrer.
O PRESIDENTE
GEORGE BUSH REAFIRMOU COM ARGUMENTOS RELIGIOSOS, NA SEMANA
PASSADA, QUE É CONTRA O ESTUDO COM CÉLULAS-TRONCO
EMBRIONÁRIAS. QUAL É O IMPACTO DISSO? Se
não há estudo, não há como saber
se elas ajudam ou não a compreender e a tratar doenças.
É péssimo quando não existe apoio do
governo, pois esse tipo de pesquisa é caro e precisa
de muito financiamento.
VOCÊ TEM
ALGUMA RELIGIÃO? Acredito em Deus, mas não
acho que vou destruir uma vida ao trabalhar com células-tronco
de embriões inviáveis. As pessoas que são
contra esse tipo de pesquisa nunca viram alguém sofrendo
com doenças debilitantes como essas. Eu vi minha avó,
meu pai e muitos pacientes nessa situação.
O BRASIL LIBEROU
O ESTUDO COM CÉLULAS-TRONCO EMBRIONÁRIAS SOB
ALGUMAS CONDIÇÕES, MAS AS PESQUISAS NÃO
DECOLAM. O QUE FALTA? Nós, cientistas brasileiros,
sofremos com a dificuldade em obter financiamento e em importar
materiais para a pesquisa. Quando estou na Inglaterra e peço
um reagente, no outro dia ele está na minha mesa. Aqui,
se eu peço a mesma coisa, leva seis meses para chegar.
Muitas vezes o material é perdido porque fica retido
tempo demais na alfândega.
A DOENÇA
QUE AFETOU SUA AVO E SEU PAI É HEREDITÁRIA E
SE MANIFESTA DEPOIS DOS 40 ANOS. VOCÊ ALGUMA VEZ PENSOU
EM FAZER UM EXAME PARA DESCOBRIR SE PODERÁ DESENVOLVÊ-LA?
Quando era adolescente eu quis fazer isso. Achava que
já era madura o suficiente para enfrentar a situação.
Depois, pensei melhor e hoje acho que é um fardo grande
demais para carregar. Não quero esse sofrimento. Até
eu completar 40 anos, muita coisa pode acontecer. Quem sabe
as pesquisas não avançam e encontram uma cura.
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