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27 de junho de 2007
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Auto-retrato
Agnes Nishimura

Cristiano Mariz


Com apenas 25 anos, a bióloga paulistana Agnes Nishimura identificou um novo gene relacionado à esclerose lateral amiotrófica, que afeta os movimentos do corpo. A pesquisa rendeu-lhe o prêmio Paulo Gontijo, entregue na semana passada, em Brasília. Agnes, hoje com 29, falou à repórter Leoleli Camargo sobre sua pesquisa.

COMO SURGIU O SEU INTERESSE POR ESTUDAR DOENÇAS DE ORIGEM GENÉTICA? É uma história estranha, mas bonita. Meu pai faleceu no início deste mês de uma doença degenerativa chamada ataxia espinocerebelar, que afeta os músculos e a coordenação motora. Ainda na adolescência, eu o vi perambular por diversos consultórios médicos até finalmente ser diagnosticado. Quando optei por estudar biologia na universidade, em grande parte era porque queria saber mais sobre a doença dele. No segundo ano, entrei como estagiária no laboratório de genética da Universidade de São Paulo.

O QUE É ESCLEROSE LATERAL AMIOTRÓFICA? É uma doença que afeta os neurônios responsáveis por transmitir impulsos nervosos do cérebro para a coluna e para os músculos. Essa enfermidade atrofia os membros e compromete a movimentação, a fala e a respiração. O físico inglês Stephen Hawking tem uma das várias formas dessa doença.

COMO FOI A DESCOBERTA DA MUTAÇÃO? Estávamos eu e um colega no laboratório lendo as seqüências de letras A, T, C e G em um DNA de um portador do problema quando constatamos que, onde deveria haver uma letra C, havia uma letra T. Essa pequena mudança é o suficiente para causar a doença. Depois disso, comparamos o DNA de indivíduos normais com o de outros que tinham manifestado a doença e confirmamos que se tratava mesmo de uma mutação. Dizer aos pacientes que identificamos o gene foi uma sensação muito boa. Lembrei do alívio que minha família sentiu quando meu pai finalmente foi diagnosticado.

POR QUE AS CÉLULAS-TRONCO EMBRIONÁRIAS SÃO A GRANDE ESPERANÇA PARA QUEM TEM DOENÇAS DEGENERATIVAS COMO ESSA? No futuro, talvez seja possível criar neurônios sadios a partir dessas células e, assim, substituir os que estão com defeito. Mas ainda há um longo caminho a percorrer.

O PRESIDENTE GEORGE BUSH REAFIRMOU COM ARGUMENTOS RELIGIOSOS, NA SEMANA PASSADA, QUE É CONTRA O ESTUDO COM CÉLULAS-TRONCO EMBRIONÁRIAS. QUAL É O IMPACTO DISSO? Se não há estudo, não há como saber se elas ajudam ou não a compreender e a tratar doenças. É péssimo quando não existe apoio do governo, pois esse tipo de pesquisa é caro e precisa de muito financiamento.

VOCÊ TEM ALGUMA RELIGIÃO? Acredito em Deus, mas não acho que vou destruir uma vida ao trabalhar com células-tronco de embriões inviáveis. As pessoas que são contra esse tipo de pesquisa nunca viram alguém sofrendo com doenças debilitantes como essas. Eu vi minha avó, meu pai e muitos pacientes nessa situação.

O BRASIL LIBEROU O ESTUDO COM CÉLULAS-TRONCO EMBRIONÁRIAS SOB ALGUMAS CONDIÇÕES, MAS AS PESQUISAS NÃO DECOLAM. O QUE FALTA? Nós, cientistas brasileiros, sofremos com a dificuldade em obter financiamento e em importar materiais para a pesquisa. Quando estou na Inglaterra e peço um reagente, no outro dia ele está na minha mesa. Aqui, se eu peço a mesma coisa, leva seis meses para chegar. Muitas vezes o material é perdido porque fica retido tempo demais na alfândega.

A DOENÇA QUE AFETOU SUA AVO E SEU PAI É HEREDITÁRIA E SE MANIFESTA DEPOIS DOS 40 ANOS. VOCÊ ALGUMA VEZ PENSOU EM FAZER UM EXAME PARA DESCOBRIR SE PODERÁ DESENVOLVÊ-LA? Quando era adolescente eu quis fazer isso. Achava que já era madura o suficiente para enfrentar a situação. Depois, pensei melhor e hoje acho que é um fardo grande demais para carregar. Não quero esse sofrimento. Até eu completar 40 anos, muita coisa pode acontecer. Quem sabe as pesquisas não avançam e encontram uma cura.

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