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André
Petry
O dicionário de Renan
"Seu cinismo chegou
a um grau nunca
antes atingido. Sua falta de compostura
é mais um sinal eloqüente de que perdeu
as condições de presidir o Senado"
No universo de
lobistas, bois e notas frias em que afunda, o senador Renan
Calheiros insiste em manter-se na presidência do Senado
e chegou a dizer que a palavra "renúncia" não
consta de seu dicionário. É uma boa oportunidade
para tentar decifrar o dicionário de Renan. Suas ações
públicas, tais como suas palavras públicas,
significam sempre o contrário do que parece. Na quinta-feira
passada, o senador deu uma entrevista em que disse coisas
importantíssimas, mas, para entendê-las corretamente,
é preciso interpretá-las pelo avesso. Eis o
que o senador falou:
"Não
permitirei que levem o Senado a uma crise institucional. Não
arredarei pé."
Traduzindo: Renan
é, ele próprio, a crise do Senado que poderia
ser solucionada caso ele arredasse o pé. Mas, para
além disso, a tradução correta do que
ele disse é que fará tudo para que o Senado
enfrente uma crise institucional, ou pelo menos caia num impasse,
caso seja forçado a deixar o cargo. Será sua
desforra. Já disse isso claramente a senadores mais
próximos. Queria mostrar seu poder de fogo e de chantagem.
Afirmou que, se alguém acha que o Senado está
enfrentando uma crise institucional, ainda não sabe
o que é uma crise institucional. Sugeriu que ele, sim,
é capaz de provocar uma crise institucional digna do
nome.
"Não
vou permitir que devassem a vida de senadores. Expus as minhas
vísceras, mas as minhas; as dos senadores não
permitirei."
Traduzindo: Renan,
se for emparedado e forçado a renunciar, vai empenhar-se
com afinco para expor as vísceras do maior número
possível de colegas. Já começou a fazer
isso quando tentou chantagear os senadores José Agripino
e Demostenes Torres. Também já andou falando
de sua disposição de atear fogo aos colegas
para um círculo mais fechado, razão pela qual
o Senado, na semana passada, foi tomado por um certo clima
de chantagem. Na baixaria, diga-se, o senador Renan Calheiros
deixou prosperar a insinuação de que um certo
senador sustenta seus ardores de pedófilo levando adolescentes
meninos e meninas para Brasília com passagens
aéreas pagas pelo Senado. É apenas um exemplo
para que o país possa se certificar da dignidade, da
hombridade e da categoria de Renan Calheiros.
"Estou
disposto a enfrentar qualquer coisa para que prevaleça
a verdade."
Traduzindo: Renan
está disposto a fazer qualquer coisa para que a verdade
permaneça oculta. Tem sido assim desde que se viu engolfado
no escândalo de suas relações promíscuas
com o lobista da empreiteira Mendes Júnior. Tentou
esconder a verdade fazendo um pronunciamento aos senadores
e encerrando a sessão para evitar perguntas. Tentou
evitar a convocação do Conselho de Ética.
Acionou uma tropa de choque formada por suplentes para defender
seus interesses. Marcou e desmarcou reuniões do Conselho
de Ética. Reuniu senadores em seu gabinete. Fez e aconteceu
até que, agora, com a corda no pescoço,
começaram as ameaças e chantagens.
Admite-se que os
políticos dissimulem, tergiversem, disfarcem numa certa
medida. Mas, no caso de Renan, seu cinismo chegou a um grau
nunca antes atingido. Sua falta de compostura é mais
um sinal eloqüente apenas mais um de que
perdeu as condições de ser presidente do Senado.
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